O Desamor De Dolce E De Gabbana

Domenico Dolce e Stefano Gabbana, os lendários estilistas italianos que formaram um casal durante 23 anos, vieram esta semana reiterar o seu apoio às famílias tradicionais, em oposição clara às ditas famílias modernas. Numa entrevista à revista Panorama disseram ser “contra a adopção por pessoas LGBT, a única família válida é a tradicional. Não acreditamos em descendentes químicos ou barrigas de aluguer, a vida tem um fluxo natural, há coisas que não devem ser alteradas.

Dolce acrescentou que “a criação deve ser um acto de amor“, dizendo que “nascemos de um pai e de uma mãe – ou pelo menos é assim que deverá ser. Chamo-lhes [aos filhos de famílias homo e monoparentais] crianças da Química, crianças sintéticas, úteros de aluguer, sémen escolhido de um catálogo“.

Já Gabbana diz: “A família não é uma moda passageira, nela há um sentimento sobrenatural de pertença“. Palavras que dão continuação às suas palavras de 2006 em que afirmou ser “contra a ideia de uma criança crescer com dois pais gays. Uma criança precisa de um pai e de uma mãe, eu não imaginaria a minha infância sem a minha mãe. Acredito também que é cruel tirar-se um bebé da sua mãe“.

Este tipo de afirmações, independente da orientação sexual de quem as diz (mas não da sua educação e respeito por uma discussão justa, não falamos aqui nunca em tirar bebés a ninguém!), são uma ofensa a todas as famílias que não sigam a visão idealizada pelos dois estilistas, sejam elas de que natureza forem. É uma visão retrógada que despreza as crianças que nasceram ou foram adoptadas pelas suas famílias que as tratam com o Amor devido. É uma visão egoísta de alguém que assume que só a sua vida, a sua experiência é válida.

Pouco me importa, a mim, que Gabbana não imagine a sua infância sem a sua mãe, não é sequer isso que está em causa, nem o duvido. O que Gabbana e o seu parceiro não percebem é que há crianças que não imaginam igualmente a sua infância sem os seus pais ou as suas mães ou o seu pai ou a sua mãe. Não percebem eles que estes são exemplos de famílias tão válidos como os das suas famílias ou de quaisquer outras famílias heteroparentais, porque o que importa é o bem-estar da criança, a ligação profunda com aqueles que a desejam, protejem e amam. São esses os critérios que contam para as famílias e esses, acreditem os estilistas, na realidade nunca passaram de moda.

PSElton John rapidamente assumiu a sua posição contra as declarações da dupla, dizendo:

Como ousam chamarem aos meus lindos filhos sintéticos?! Deviam ter vergonha por criticarem a FIV – um milagre que permitiu uma imensas pessoas, hetero e homossexuais, de realizarem o seu sonho de terem e amarem as suas crianças! Os vossos pensamentos arcaicos estão dessincronizados com os tempos, tal como as vossas modas. Nunca irei usar Dolce & Gabbana novamente. #BoycottDolceGabbana

Numa resposta à polémica, os dois estilistas vieram entretanto tentar esclarecer os seus pontos de vista dizendo que “nunca foi sua intenção criticar a escolha de outras pessoas“, que expressaram apenas “as suas experiências pessoais, sem intenção de crítica a terceiros, acreditamos na liberdade e no amor“. Dada a recorrência deste tipo de alegações por parte destas pessoas, custa-nos acreditar que isto não passe, na realidade, de um descarado controlo de danos.

Fonte: Pink News.

Por Pedro Carreira

Ativista pelos Direitos Humanos na ILGA Portugal e na esQrever. Opinião expressa a título individual. Instagram/Twitter/TikTok: @pedrojdoc

3 comentários

  1. Entendo que ambos se assumem incapazes de ser uma familia e que o conceito deles de familia é, em definitiva, um preconceito. É pena. E é egoismo. Têm direito à sua opinião logicamente, mas escusavam era de adjectivar pejorativamente aqueles que nitidamente têm mais amor para dar.

    1. Pedro Carreira – Portugal – Ativista pelos Direitos Humanos na ILGA Portugal e na esQrever. Opinião expressa a título individual. Instagram/Twitter/TikTok: @pedrojdoc
      pedro_jose diz:

      Exacto! A família que eles tiveram e aquela em que eles se revêem não é problema algum, o único problema é desprezarem todas as restantes famílias (filhos, pais e mães, avós, tios, o que quer que seja, desde que com muito amor para dar). Parece-me que em Itália o preconceito, talvez ainda muito influenciado pela Igreja Católica, ainda persista em demasia na mente das pessoas, mesmo aquelas que, aparentemente, tinham tudo para ser mais ‘arejadas’ hehe

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