O Cancelamento De Looking E Das Nossas Histórias Colectivas

Depois de muitas incertezas acerca do futuro de Looking, série da HBO que acompanha o dia-a-dia de três amigos homossexuais em São Francisco, esta segunda-feira ela foi definitivamente cancelada. Não valeram de muito as petições dos espectadores que continuam em curso nem a aclamação da crítica e imprensa especializada nas passadas semanas, que pedia ferverosamente à cadeia televisiva a manutenção da criação de Michael Lannan com a ajuda de Andrew Haigh, realizador do brilhante Weekend.

A realidade é que desde o início Looking debateu-se com problemas de audiências e com vozes contraditórias dentro da própria comunidade gay, que ora vangloriava a revolução desencadeada pelas personagens ora dizia que ela assentava demasiado em estereótipos não representativos nos quais não se reviam. Ou então, ironicamente, afirmavam não ter capacidade para lidar com personagens que eram iguais a pessoas com quem interagiam diariamente. Esta resistência de algumas pessoas LGBT em verem o seu quotidiano retratado é um problema grave que tem também de ser debatido e vencido.

E se de facto a primeira temporada se defrontou com alguns destes problemas de direcção narrativa, tal não aconteceu na segunda, exibida em dez episódios desde o início de 2015. Todas as personagens ganharam corpo e forma e distanciaram-se completamente do retrato muitas vezes unidimensional ou apressado que minou alguns dos episódios da primeira temporada. O protagonista, Patrick (Jonathan Groff), inerentemente irresoluto e instável emocionalmente apesar de um exterior perfeitamente comum, tornou-se um veículo de reflexo de muitas pessoas LGBT que têm dificuldades de definir um caminho para elas próprias no que toca a encontrar um parceiro com quem partilhar a sua vida. A sua indecisão adolescente entre escolher um dos elementos do triângulo amoroso que a série tinha anteriormente construído transformou-se em algo bem mais adulto, relevante e acutilante.

O dedicado Richie (Raul Castillo) tentou avançar com a sua vida e Patrick entrou de cabeça numa relação com Kevin (Russell Tovey). Este último, visto por muitos como um vilão, apresentava um arquétipo muito frequente de alguém que, mesmo na idade adulta e plenamente consciente das suas escolhas, não consegue acreditar numa relação monogâmica. A honestidade desta revelação derrubou os pilares construídos durante a segunda temporada. As personagens principais estavam a crescer e com elas, todas as outras.

Dom (Murray Bartlett) e Doris (Lauren Weedman), na sua relação “the fag and his hag” já muito explorada e humorizada, ganhou contornos sérios e começava a explorar seriamente a mútua dependência destas relações. O tão detestado Agustín (Frankie Alvarez) encontrou também redenção na sua metamorfose de artista torturado para alguém que tentava encontrar o seu lugar num mundo novo. A sua relação com Eddie, seropositivo, iniciava também a exploração de um tabu que continua a dividir a comunidade gay.

Mas com a notícia de que não haveria terceira temporada e tudo terminará com uma longa-metragem a ser exibida em data indefinida, todo o debate que estava a crescer sobre estes temas morre. Mais uma vez as histórias acabam sem qualquer tentativa de investimento a longo-prazo e sem dar oportunidade de pessoas fora da comunidade gay se começarem a identificar com personagens que, apesar do contexto, não são assim tão diferentes delas.

Com esta decisão a HBO não está simplesmente a diminuir algo que tanto diz estimar, a variedade da sua programação. Está a negar que estas histórias quotidianas se difundam de forma não forçada para um público mais abrangente e inconsciente das mesmas. Audiências não são tudo, especialmente para a HBO que não tem a pressão dos patrocínios e da publicidade, e a diferença que Looking estava finalmente a assumir e a celebrar é assim derrubada de forma chocante e definitiva.

A mera integração de personagens LGBT em séries de televisão não é suficiente, as suas histórias precisam de ser contadas de forma humana e com a verdade que merecem. Looking estava a fazer exactamente isso, por isso é-me impossível não ver este erro crucial da HBO como um enorme passo atrás para todos nós enquanto sociedade moderna e um silenciamento dolorosa das pessoas LGBT que continuam a degladiar-se por sentirem-se ouvidas.

Actualização 21/06/2016:

O filme que servirá de despedida à história irá estrear no último dia do Festival de Cinema Frameline de São Francisco, dia 26 de Junho. O trailer assim é:

Fontes: 1, 2, 3, 4, 5

Por Nuno Miguel Gonçalves

I lived once. And then I lived again.

12 comentários

  1. Concordo. Looking, apesar de não ter um público tão sólido, vinha continuar o que Queer as Folk começou há anos atrás.

    Ao contrário de séries como Glee, Modern Family e The Fosters que mostram um lado mais colorido e fictício da comunidade LGBT, Looking abordava assuntos sérios e adultos. Falar de HIV, profilaxia pré-exposição, enemas/clisteres, insucesso profissional, relações tóxicas e de co-dependência, a dualidade passivo-ativo… Além disso, as próprias personagens espelhavam de forma honesta a realidade de muitos homossexuais: uma vida normal, longe de clubes, saunas e paradas, mas com todo o tipo de problemas sociais transversais a toda a gente e derivados também das suas personalidades imperfeitas.

    Duplamente lamentável que a HBO tenha tomado esta decisão, pois não só a série merecia o seu lugar pela sua qualidade honesta e singular, como também toda a história ficou sem um fim aceitável. Sinceramente, visto que os episódios e temporadas são de tão curta duração, podiam ter adiado a decisão por mais um ano.

    1. Verdade Jorge. É mesmo lamentável esta decisão prematura da HBO quando estava efectivamente a criar alguma mudança e a destacar-se dos esterótipos.

  2. ana vicente – Sobre Ana Vicente Ana Vicente é uma mulher lésbica, feminista e ativista pelos direitos LGBTIQ+. Nasceu em 1977 em Lisboa, cidade que habitou a maior parte da sua vida adulta, antes de se render à vida do campo na zona Oeste. Licenciou-se em Filosofia, que equilibra ouvindo canções dos ABBA. É copywriter e estratega de comunicação na ana ana, da qual é sócia-gerente (podem adivinhar o nome da outra sócia). É voluntária da ILGA Portugal desde 2015 e colabora com outras associações e movimentos ativistas sempre que pode e/ou é convocada. Escreve há vários anos para o projeto esQrever. Escreve há vários anos. Escreve.
    anaavicente diz:

    Gostava muito dessa série, exatamente por muitas das coisas que falaste. E de facto é estúpido imaginarmos que alguém fora da comunidade não possa rever-se ou empatizar com a série. Eu, mulher lésbica, não estou enquadrada no público alvo mais óbvio e papei os meninos todos 😉 – agora a sério, tenho pena.
    Também me pareceu através do trailer que o filme se aproxima de uma versão gay de uma comédia romântica comum. Espero que não, gostava de ver algo mais negro que a série tinha. Mas irei ver sem dúvida.

    1. Pedro Carreira – Portugal – Ativista pelos Direitos Humanos na ILGA Portugal e na esQrever. Opinião expressa a título individual. Instagram/Twitter/TikTok: @pedrojdoc
      Pedro José diz:

      Veremos o que aí vem, o realizador tem um bom trabalho (adorei Weekend). ☺️

      1. ana vicente – Sobre Ana Vicente Ana Vicente é uma mulher lésbica, feminista e ativista pelos direitos LGBTIQ+. Nasceu em 1977 em Lisboa, cidade que habitou a maior parte da sua vida adulta, antes de se render à vida do campo na zona Oeste. Licenciou-se em Filosofia, que equilibra ouvindo canções dos ABBA. É copywriter e estratega de comunicação na ana ana, da qual é sócia-gerente (podem adivinhar o nome da outra sócia). É voluntária da ILGA Portugal desde 2015 e colabora com outras associações e movimentos ativistas sempre que pode e/ou é convocada. Escreve há vários anos para o projeto esQrever. Escreve há vários anos. Escreve.
        anaavicente diz:

        nunca vi!!

      2. Pedro Carreira – Portugal – Ativista pelos Direitos Humanos na ILGA Portugal e na esQrever. Opinião expressa a título individual. Instagram/Twitter/TikTok: @pedrojdoc
        Pedro José diz:

        Vi no Queer há dois (três, quatro?) anos, adorei mesmo. Quando tiveres oportunidade vê =)

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