A Desculpa De Gentil Martins

Quanto à homossexualidade, lamento quem sofra com essa questão, que continuo a considerar anómala, sem no entanto deixar de respeitar os Seres Humanos que são.

Foi desta forma que o médico Gentil Martins reagiu à polémica sobre as suas declarações de ontem. Se existe uma tentativa de pedido de desculpas inicial sobre Cristiano Ronaldo e Maria Dolores Aveiro – mas evitando tocar no alegado direito de uma criança a ter, forçosamente, uma mãe – a verdade é que reitera aquilo que tinha afirmado de véspera: a homossexualidade é uma anomalia.

E, medicamente falando, não é. Por mais que lhe custe admitir, desde 1973 – há mais de quatro décadas, note-se – que a homossexualidade deixou de ser classificada como um transtorno pela Associação Americana de Psiquiatria, num movimento que culminou  com a Organização Mundial de Saúde retirar a homossexualidade da sua lista de doenças mentais em 1990. São décadas de informação recolhida e de estudos realizados que apontam num mesmo sentido: a homossexualidade é uma orientação sexual, tal como a heterossexualidade ou a bissexualidade.

Não se trata aqui de respeitar a opinião de uma pessoa, porque não se trata aqui de uma opinião sequer. Gentil Martins, ao afirmar – e agora reiterar – que a homossexualidade é uma “anomalia”, está a diagnosticar “como “doente” uma população inteira“. População essa que é discriminada e vítima de perseguição e violência. Um reputado médico afirmar uma coisa destas é legitimar muitos dos ataques e micro-ataques que a população LGBTI sofre no seu dia-a-dia. Não é o dito “respeito” que Gentil Martins diz sentir pela população LGBTI que o desculpa, afinal de contas são – ou somos – “Seres Humanos” (assim com maiúsculas para acabar em grande a sua tentativa de reconciliação).

Acontece que houve quem defendesse – e calha ser só o jornalista do Expresso Henrique Monteiro – que esta polémica “veio mostrar que nas cabeças de muita gente existe o crime de opinião.” Repito, esta não é matéria de opinião. Mais, parece-me que algumas pessoas confundem os conceitos de liberdade com os direitos opinativos. A liberdade que tanto apregoam – com especial afinco quando se trata de exprimir opiniões sem fundamento senão o preconceito – passa precisamente pela valorização do conhecimento, rigoroso e escrutinável.

É essa a responsabilidade acrescida que Gentil Martins tem e o que disse falha códigos de conduta e deontológicos. Há que perceber, de vez, que a população LGBTI não “sofre” com as suas orientações sexuais ou identidades de género – tal como a população heterossexual e cisgénero, aliás – mas sim quando pessoas com poder e responsabilidade partilham desinformação baseada unicamente no seu preconceito. Sem desculpas.

Por Pedro Carreira

Ativista pelos Direitos Humanos na ILGA Portugal e na esQrever. Opinião expressa a título individual. Instagram/Twitter/TikTok: @pedrojdoc

3 comentários

  1. aquaze – Alguns livros ficcionais publicados, o último dos quais, "Reencontro", em 2009. A viver em Lisboa e escrevendo ora centradamente ora dispersamente.
    aquaze diz:

    Será esta a expressão do desejo de remeter os homossexuais apenas para hospitais psiquiátricos ou, mais musculadamente, o sonho de encerrá-los em campos de concentração? É uma dúvida que me deixam os dizeres do venerando Gentil. (Fazer um comentário possível e reflectido será num texto circunstanciado, contextualizando os fundamentos e as motivações subjectivas do ressentimento e do ódio não só contra homossexuais, mas contra etnias; e não vou entrar agora no capítulo dos genocídios de povos, embora a natureza do ódio seja a mesma.)
    Nota última: Gentil Martins é um excelente cirurgião. Também os cirurgiões eugenistas que trabalharam nos hospitais hitlerianos o eram, e o objectivo era criar seres “normais”; nos EUA extraordinários cirurgiões faziam extraordinárias lobotomias para curar os doentes mentais nos anos cinquenta do século passado, e a homossexualidade era uma doença mental. Tudo génios da cirurgia.

  2. É crime de opinião sim!
    POr exemplo ser superdotado também é anormal mas isso não quer dizer que é doença, é anomalia se comparado com a maioria das pessoas, mas que uma condição vantajosa.

    Portanto para o bem dos homossexuais devem aceitar que precisam sim de protecçao especial, porque são uma minoria e reconhecer que há alguma anormalidade é parte da solução para o convívio.

    O que se sabe biologicamente o anus é para defecar e não para penetrações sexuais, homossexuais podem e alguns são melhores pais adoptivos, mas dois homossexuais não podem gerar filhos pela via natural.

    Vamos parar com o politicamente correcto. Isso quer dizer alguem tem o direito de discriminar homossexuais, não! Somente um ignorante pode achar-se no direito se ser melhor que outros, somos iguais como seres humanos mas diferentes como pessoas.

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