Queer Lisboa 22: A abertura com “Diamantino”

Diamantino Queer Lisboa 22 2018 Cinema

O Queer Lisboa 22 teve início no passado dia 14 e, através do filme Diamantino, trouxe ao Cinema São Jorge uma multidão de pessoas que obrigou a organização do festival a adicionar uma segunda sessão para acomodar toda a gente. Um ótimo prenúncio para o festival, portanto, mas e quanto ao filme de abertura? Qualquer semelhança com Cristiano Ronaldo só pode ser coincidência, não é?

A verdade é que o filme-sensação, vencedor do Grande Prémio da Semana da Crítica de Cannes, ainda desconhecido do grande público – estreia a 22 de novembro – apanhou de surpresa muitas das pessoas presentes na esgotada sala principal do cinema da principal avenida lisboeta. Depois do aviso inicial mencionar uns cachorrinhos, a sala riu-se e questionou-se “mas que raio são os cachorrinhos?

Mas não houve grande tempo para questões, dado que de imediato o público é confrontado com um grande plano de Crist… lamento, Diamantino, interpretado pelo Carloto Cotta (Tabu, As Mil e Uma Noites, Odete) e a colagem à realidade – ou, melhor, ao imaginário nacional sobre a figura do jogador de futebol – é desconcertante. É isto uma piada? Sim, precisamente!

Apesar de o tipo de filmagem não ser o da clássica comédia, Diamantino é pura caricatura, em que a realidade e a ficção – extrapolada para um mundo sobrenatural e com figuras tão exageradas como hilariantes, nomeadamente as irmãs gémeas pelas brilhantes Anabela e Margarida Moreira. A maior estrela do mundo futebolístico entra numa espiral de autodestruição ao deixar de ver os cachorrinhos gigantes (os seus obstáculos) no campo. Porquê? Porque começa a preocupar-se com as pessoas refugiadas e o seu pensamento desvia-se do foco desportivo.

Como se não bastasse, o enredo mirabolante traz uma realidade que roça a distópica, em que o movimento anti-europeu ganha uma campanha saudosista com a imagem de Diamantino enquanto as irmãs maquiavélicas exploram a fortuna do irmão e a coloca em offshores e, como consequência, são, ele e elas, investigados pelos serviços de inteligência, um casal lésbico? Confuso o suficiente? Ainda falta a questão das mamas, mas isso fica para descobrirem no filme.

Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt trazem-nos assim um filme pujante, com um nível de cinematografia e produção raramente vistas no cinema nacional. Apesar de toda esta história, Carloto consegue um feito: humanizar a personagem simples – para não dizer outra coisa. Diamantino possui uma pureza e uma inocência que já não se encontram nos dias de hoje, a sua beleza vem, também, do seu estado direto, sem filtros.

Não é propriamente um filme com uma mensagem política clara ou que aprofunde os conceitos de identidade queer, mas ninguém lhe tira o facto de toda a gente sair da sala com a ideia de ter regressado de uma viagem por um mundo repleto de cachorrinhos e algodão-doce.

 

Atualização 15 dezembro 2018:

O filme Diamantino, que estreou em Portugal no Queer Lisboa, foi nomeado para Melhor Comédia nos European Film Awards. Os vencedores serão conhecidos este sábado.

Por Pedro Carreira

Ativista pelos Direitos Humanos na ILGA Portugal e na esQrever. Opinião expressa a título individual. Instagram/Twitter/TikTok/Mastodon: @pedrojdoc

Exit mobile version
%%footer%%