#culturaqueer_5 Fui à Escócia fazer drag

#culturaqueer é uma proposta de rubrica mensal com reflexões críticas sobre objetos artísticos que interliga cultura visual e questões de género, sexualidade e feminismo. Escrevo com a intenção não de tornar as minhas palavras uma verdade absoluta, mas de proporcionar um diálogo saudável entre membros da comunidade LGBTQIA+ e seus aliados, funcionando também como uma plataforma de aprendizagem pessoal. Por isso, convido-vos a enviarem as vossas propostas de análise, sejam exposições, obras de arte, obras literárias, música, teatro ou filmes – sharing is caring! – ou a partilharem as vossas opiniões. Começamos?

#culturaqueer_5: Fui à Escócia fazer drag

Estava no aeroporto de Dublin, junto à porta cento e pouco, sentada como muitos, pensando como poucos, esperando como a maioria, pelo voo até Glasgow. Tinha acabado de passar três dias incríveis na capital irlandesa e já estava com a nostalgia do tempo que passou. A Escócia aproximava-se a sorrir para mim e a piscar-me o olho, coisa que, se a Irlanda me fizesse, eu me derreteria, mas como era a Escócia só a julguei uma oferecida.

Admito, o meu humor não era o melhor. Não me sentia capaz de estar durante 12 dias com cerca de 30 pessoas de 5 países diferentes fechada numa casa algures numa aldeia escocesa. Soava-me a muito esforço para um animal recluso como eu. Gostaria de frisar que o esforço a que me refiro não é, de todo, metafórico; de facto, quando coloco as minhas forças nalguma atividade social, tendo a ficar esgotada no final do dia e a ter que dormir cedo – o que para mim equivale a um desperdício de vida, considerando o tempo como recurso limitado. Era nesta altura que eu deveria ter tirado uma fotografia “antes” do intercâmbio, para comparar com a fotografia “após” o intercâmbio. Porque se a minha birra e timidez levaram a melhor de mim no início do programa, pelo final eram meramente sobras, daquelas que estão guardadas no frigorífico há talvez mais do que 5 dias e ninguém tem a certeza se se poderão comer sem arranjar uma indigestão ou, pior, gases.

Quando chegámos (eu, a Catarina e a Carolina, que nos cruzámos no aeroporto de Dublin, sendo que a Carolina quase perdeu o avião – julgo que a primeira coisa que me disse foi “eu tenho asma, não posso correr”) a Glasgow Buchanan Station, conheci, então, o Francisco, cuja primeira coisa que me disse (ai, gosto de me recordar destas coisas. Um dia vou escrever um texto só com aquilo que as pessoas me dizem quando me conhecem), continuando, a primeira coisa que o Francisco me disse foi “pareces muito menos séria ao vivo”. A minha mente, até hoje, ainda está a processar se tal foi um elogio ou uma maneira passivo-agressiva de dizer “you have a resting bitch face”. Gosto de acreditar que ambas as possibilidades possuem o seu grau de veracidade.

Diria que os dois primeiros dias foram bastante duros. Sabia que tinha que aproveitar ao máximo, caso contrário arrepender-me-ia – a minha mãe disse-mo ao telefone e eu sabia que ela tinha razão. A minha timidez não me facilitava a vida, até que me vim obrigada a explicar isto aos meus colegas e amigos. Eu diria que foi um momento-chave na forma como apreciei o restante tempo no projeto porque senti que as pessoas também puxavam por mim e ajudavam-me. Foi uma lição sobre sinceridade e humildade.

A certo momento, apercebemo-nos que o grupo tinha níveis bastante divergentes de conhecimento sobre questões LGBTQIA+. Se umas pessoas entendiam uma identificação intergénero poliamorosa demiromântica, outras não compreendiam a diferença entre sexo e género. Foi difícil, mas penso que foi feito um bom trabalho no sentido de ajudar o último grupo a entender melhor questões de género e orientação sexual. Para aqueles mais dentro do assunto, funcionou como um abre olhos – o que se passa fora das nossas redes sociais de pessoas queer? Estamos a evoluir enquanto comunidade, é certo. Para nós, seria óbvio que uma pessoa se apresentasse com os pronomes de preferência. Para outras pessoas, nem tanto. Se calhar os ativistas também estagnaram, remetendo mensagens para um público que já está convencido e informado. Há que dar um outro passo, ver para além da bolha confortável em que nos aninhamos.

Gostaria de continuar despoletando inveja nas manas que das minhas frases se alimentam. Na minha primeira, sublinho, PRIMEIRA performance drag tive a oportunidade incrível de pisar o mesmo palco que a fabulosa Rujazzle e a fantástica CJ Banks. Foram elas as nossas mamãs, que nos ensinaram coisitas básicas do drag, tais como como esconder aquela sobrancelha dos povos do sul, qual sobrolho indomável. Diverti-me bastante a preparar a minha performance e demorei o meu tempo, a escrever, a treinar maquilhagem, preparar roupa, coreografar e deus sabe o que passei a tentar pentear a minha peruca, atividade inumana destinada aos corruptos presos no 8º círculo do inferno! Foi através desta performance que pude explorar o meu género, tanto a minha identidade como expressão. Senti-me no espaço livre, seguro, em que pude ser uma parte de mim que muitas vezes retraio, porque às vezes é mais fácil viver não sendo nós, para não magoar alguém ou por medo de represálias. Mas ali, no palco, não havia nada disso. A pessoa no palco tinha uma confiança que me é, muitas vezes, apenas possível demonstrar através da palavra escrita. Afinal menti. Não fui eu a partilhar o palco com as queens, foi outra pessoa.

Tive também oportunidade de assistir a grandes shows de drag. Devo dizer que a drag queen não-binária October Fist trouxe lágrimas aos meus olhos numa performance muito potente sobre a existência de identidades de género não-binárias. Foi visualmente, liricamente e auditivamente poderosa. Numa outra performance, escreveu sobre o processo burocraticamente infernal pelo qual uma pessoa trans tem que passar para ver o seu género reconhecido como legal na Escócia. A Ru e a CJ foram maravilhosas, obviamente, mas penso que foi nas palavras da October que encontrei mais identificação. Vi ainda a Lawrence Chaney, que me fez doer as bochechas de tanto rir, e a Petite Mort, reinando o burlesco com as suas pernas de fazer inveja a muita gaja cisnormativa.

Agora em inglês:

Thank you so much DragTivism and all the people involved. You contributed a lot to this magnificent life experience and memories I will cherish for many years to come.

P.S.: Dedico este artigo à equipa portuguesa – ao Bruno, ao Francisco, à Catarina, à Carolina e ao Fábio <3, ao Asier, mi amigo secreto y que me hay oferecido su peruca azul y a mi hermana Kara Mel.

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