É a Eurovisão ‘demasiado gay’?

A Hungria, país governado pelo ultraconservador Viktor Orbán, não irá participar na próxima edição do festival da Eurovisão por ser “demasiado gay“. Não bastava a China ter censurado no ano passado bandeiras arco-íris que apareceram na emissão do Festival Eurovisão, agora é a vez da Hungria se afastar do festival de música.

Um oficial da televisão húngara afirmou que a ligação próxima da Eurovisão à comunidade LGBTI é o motivo da retirada, acrescentando que a estação desencoraja coberturas positivas de assuntos relacionados com os direitos de minorias sexuais. Recordo que este é igualmente o Governo que pediu o boicote a uma campanha da Coca-Cola com casais do mesmo sexo.

Uma coisa é certa, a Eurovisão desde há muito que tem tido o apoio e o interesse de um forte e empenhado público LGBTI – e não só, entenda-se. As centenas de milhões de pessoas que assistem aos eventos principais do festival, ano após ano, tornam-no no maior do mundo, cada vez mais global e, sem qualquer dúvida, mainstream.

E isto importa porquê? Porque a Eurovisão tornou-se num dos maiores eventos de celebração globais em que, durante décadas, milhões de pessoas LGBTI puderam vibrar, encontrar-se e rever-se naquelas semifinais e na grande final. E são pessoas de todas as idades e estratos sociais, pessoas que nem sempre estiveram fora do armário e, no entanto, encontraram ao longo das décadas uma ponte de celebração e Orgulho. De alguma forma, estavam – e estávamos muitos e muitas de nós – frente à televisão a torcer, cantar, chorar pela nossa canção, pela nossa diva.

A admiração pelas divas é, aliás, uma das referências mais importantes na população LGBTI – sejam elas a Céline Dion ou a Dina. Como explicou o Nuno Gonçalves, esta associação estará “no paralelo que podemos estabelecer entre a libertação por que as mulheres lutam, contra a misoginia e o sexismo, e a libertação por que os gays lutam, contra a homofobia.” Mas, além disso, esta é também uma questão de perceção de poder, pois “há um pré conceito cristalizado de que são, mulheres no geral, e homossexuais também, fracos por natureza, inferiores aos homens heterossexuais.” É assim possível entender como a Eurovisão, através do seu espetáculo, dramatismo e visibilidade – e ainda que sob um foco de luz lacónica -, tenha esse poder de atração e consequente projeção de um público LGBTI.

É, então, a Eurovisão “demasiado gay”? Não, quando a cultura pop está intrinsecamente ligada à cultura gay. Não, quando, até num festival como este, sofremos silenciamento. Não, quando somos acusados e acusadas de ser ‘demasiado gays’. Como fica óbvio, esta decisão húngara não peca por defeito, pois baseia-se na mais pura e total homofobia. É caso para dizer: Viktor Orbán, open up!

Atualização 29 novembro:

O Governo Húngaro negou a razão da retirada afirmando que vai antes “apoiar artistas diretamente” (o que é, diria, um desculpa algo esfarrapada). O comunicado afirma que a orientação sexual não é considerada pelo Governo em nenhuma performance ou evento, mas, dado o historial das suas políticas homofóbicas, tudo soa a mera areia para os olhos.


Por Pedro Carreira

Ativista pelos Direitos Humanos na ILGA Portugal e na esQrever. Opinião expressa a título individual. Instagram/Twitter/TikTok: @pedrojdoc

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