Género História Trans

Jovens trans são uma moda? Há novos registos históricos de há 80 anos que o desmentem

Pessoas trans e não-binárias estão presentes na história da humanidade, mas surgiram agora novas provas que desmontam a ideia de serem uma "moda".
Imagens de pessoas trans da primeira metade do século XX.

Jules Gill-Peterson, professora de género, sexualidade e estudos femininos na Universidade de Pittsburgh, encontrou extensas evidências de jovens trans nos EUA em documentos de arquivo que remontam ao início do século XX. Estes registos hospitalares e clínicos são agora vistos como exemplos da vida de pessoas trans e não-binárias antes da existência da linguagem moderna sobre as suas identidades e experiências.

Nos últimos 10 anos, explicou a investigadora, “vimos uma visibilidade repentina de crianças trans“. E se considera que há no presente, efetivamente, “muito mais representação“, a verdade é que continua a haver a ideia, muitas vezes aproveitada por movimentos conservadores, de que as pessoas trans são uma novidade, que as crianças trans “nem existiam até recentemente.” Jules disse ter pensado no impacto que tem quando nos incluem num grupo visto como novo ou como uma “moda passageira”. Surge uma cautela e um receio em torno de crianças trans, surge a ideia de que não sabemos o resultado quando uma criança faz uma transição. Surge a ideia de que é uma espécie de perigosa “experiência”. Mas a realidade está longe de assim ser.

O que Jules descobriu na sua pesquisa é que crianças e jovens têm encontrado acesso a meios clínicos desde que a medicina começou a permitir a transição – já nas décadas de 1930 e 40. Mas mesmo antes disso, as crianças e jovens viviam as suas vidas onde fariam transição social na infância. “Encontrei evidências nos EUA de que famílias e comunidades aceitariam as crianças com um género diferente daquele que lhes foi atribuído à nascença, as deixariam ir à escola, usariam a casa de banho correspondente ao seu género, todas as coisas que estão agora a ser debatidas. Podemos ver que há 70 ou 80 anos, estávamos realmente num lugar mais progressivo em algumas áreas.

A investigadora continua, “encontrei cartas escritas por crianças trans a um famoso endocrinologista, Harry Benjamin, que era conhecido por fornecer cuidados de saúde a pessoas trans. Nos anos 60 e 70, elas diziam: “Tenho X anos. Eu sou um transexual. Li sobre isso nas notícias” ou “Procurei o seu trabalho numa biblioteca e percebi que descreve quem eu sou”. Estas pessoas perguntavam se o Dr. Benjamin podia vê-las, enviar hormonas, dar-lhes permissão para usar as roupas que quisessem, conversar com as suas famílias ou corpo docente das suas escolas. Eram crianças jovens que sabiam muito claramente que eram trans e queriam encontrar uma solução com profissionais médicos. “De repente“, disse Jules, “eu não tinha apenas provas de que as crianças eram trans, mas que entraram em contato com pessoal médico e tentaram fazer a transição da melhor maneira possível“. Estas são evidências bastante claras de que este “não é um fenómeno social novo“, nem é “uma moda que as crianças gostam“.

Uma das histórias encontradas neste arquivo incrível foi a história de Val, uma mulher trans que na década de 1950 tentava fazer uma cirurgia em Wisconsin. No hospital, ela fez uma entrevista com um psicólogo e falou sobre a sua infância, crescendo no início da década de 1930 numa pequena cidade na zona rural de Wisconsin. Ela diz que, desde que se lembrava, sabia ser uma rapariga. Não havia linguagem trans naquela altura, mas a sua família aceitou-a. Havia uma compreensão do que isso significava, socialmente, sem qualquer necessidade de um diagnóstico médico. Então a sua família criou-a como uma rapariga e arranjou forma de ela ir para a escola enquanto rapariga. “Agora“, explicou Jules, “existem dezenas de projetos de lei que afirmam que temos que restringir as liberdades das crianças trans porque “nunca vimos crianças assim antes”, mas na realidade podemos ver que há quase 90 anos uma criança trans foi aceite pela sua própria família.

Estes novos dados estiveram em destaque no Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈

Um dos factores discriminatórios que a investigadora encontrou foi a racialização das pessoas. “As pessoas trans brancas eram vistas como tendo um problema no desenvolvimento de género que poderia ser corrigido e, de facto, deve ser corrigido devido à ideia inerentemente racista de que a civilização branca deve ter as suas normas de género.” Por essa razão, aponta Jules, “vemos que as crianças trans brancas têm muito mais acesso a cuidados médicos.”

Crianças trans negras, em particular, eram quase completamente excluídas. “Em vez de receberem assistência médica, elas são muito mais propensas a serem presas ou institucionalizadas, colocadas em sistemas de acolhimento ou detenção juvenil.” São também muito mais propensas, aponta a investigadora, “a serem diagnosticadas como delirantes ou esquizofrénicas, diagnósticos que ignoram por completo a ideia de que da sua identidade sabem elas mesmas.

A maioria das pessoas trans não tem acesso a cuidados apropriados de saúde. São principalmente famílias de classe média alta, brancas e com educação diferenciada que realmente têm tempo e dinheiro para aceder a este tipo de cuidados“, afirmou Jules. Estamos agora diante de propostas que pretendem proibir formas de acesso a cuidados de saúde aos quais quase nenhuma criança trans tem sequer acesso. A possibilidade de melhorar a realidade e corrigir erros históricos vai tornar-se mais difícil com esses projetos de lei.

“Os direitos trans foram transformados numa questão ideológica e as crianças são alvos muito fáceis, porque não lhes concedemos o privilégio de falar por si mesmas e defender os seus próprios interesses. São usadas como peões.”

Vozes conservadoras de direita têm reciclado a mesma linguagem que vimos há 15 e 20 anos em torno de gays e lésbicas – a falsa associação a um alegado “perigo infantil”, “aproveitamento”, “pedofilia”, a necessidade de “proteger crianças” e “proteger as escolas” por meio de leis realmente restritivas. “O foco nas crianças faz parte de um esforço coordenado e não é apenas nos EUA“, explicou a investigadora. “Vemos isso no Reino Unido, onde não há acesso real a cuidados de saúde no que toca à transição de género para menores de 18 anos.

Há uma campanha nos meios de comunicação de mudança no discurso para focar nas transições das crianças com perspetiva de criar uma espécie de “pânico moral”, considerou. “É realmente perturbador, porque há evangélicos supremacistas brancos de direita, mas também há políticos no mainstream e pessoas da esquerda que são transexclusivas e afirmam ser feministas. É uma tempestade perfeita.

Tudo isto deve ser visto como um alerta para muitas pessoas, porque deixou de ser algo hipotético. Devemos pensar de forma mais ampla, para que não estejamos apenas a reagir continuamente às pessoas que se opõem tão convictamente a estas realidades. Jules afirma que “a saúde trans é análoga aos direitos reprodutivos e à interrupção voluntária da gravidez, se os tornarmos ilegais a necessidade de cuidados não desaparece. Portanto“, conclui, “devemos pensar em como disponibilizar esse tipo de cuidados para jovens e como dar atenção a essas crianças e às suas famílias“, e não permitir que estas leis e movimentos “sejam o fim de tudo.


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