COMO SE CONSTRÓI UMA IDENTIDADE SONORA? DISCUSSÃO SOBRE O VÍDEO MUSICAL FATHER, TOOJI

Nesta época natalícia, entre luzes e presentes, as pessoas celebram um ritual cristão profundamente enraizado nas sociedades. Muitos gostam de acentuar que é um momento de paz, que as entidades divinas são de todos, contudo, sabemos bem que certas religiões e ideologias andam de mão dada e nem sempre o fazem para favorecer os membros da comunidade LGBTI+.

Para terminar o ano de 2021, trago-vos Tooji, um dos participantes do Festival Eurovisão da Canção em 2012 em representação da Noruega. O seu vídeo musical FATHER, um projeto cinematográfico realizado por SamajAi, faz-nos recordar que não devemos tomar como naturais as formas de ver o mundo que nos são impostas pelas religiões ou outras estruturas de poder.

A música faz parte do ambiente da igreja há vários séculos e tem os seus modelos específicos. Contudo, basta recordar brevemente a discussão social que ocorreu durante a época Protestante (século XVI), onde muitos instrumentos musicais foram banidos da igreja, porque a música tinha que ser solene e não podia despertar momentos de prazer. Precisamente nesta linha, este vídeo musical oscila entre o que é apropriado ou não para o culto, entre ter bons costumes ou satisfazer os prazeres da carne, o decoro ou a libertação. Que identidades musicais e individuais são possíveis nos relacionamentos entre música e religião, é o que pretendo discutir.

Deus Miserere Mei” é um dos salmos da Bíblia. Começa com o texto “Tem piedade de mim, oh Deus” e foi usado na música litúrgica católica pelo menos desde o século XV. O uso desta música no início sugere arrependimento pelos atos cometidos, o que significa que pode estar implícito que se pede perdão pelo tipo de envolvimento sexual em que se age, pelo local (que é sagrado para alguns) e pela pessoa que é objeto do desejo (cujo estatuto tem uma carga simbólica muito forte no contexto da Igreja). A transformação da música no início, pela reversão da voz (reversão é quando uma música é tocada do fim para o princípio) e a modificação da direção sugere duas ideias. A primeira, é que se está no mau caminho, que este não é o de ir em frente para a salvação cristã, mas a sua inversão, o pecado. A segunda ideia é a associação entre as músicas invertidas, em particular quando têm voz, e à figura do diabo. As duas são problemáticas, ou desafiadoras, quando colocadas lado a lado com uma vivência queer.

No refrão, Tooji sobe de tom para o falsete que, na tradição da igreja, estava associado aos castrati. Uma leitura histórica pode, portanto, ligar-se às crianças que eram castradas antes de chegarem à maturidade, impossibilitando que a sua voz se tornasse mais grave e cheia. É curioso que, no momento histórico em que nos encontramos, um homem de voz aguda é muitas vezes sinónimo pejorativo de efeminado, e que conduz igualmente para o ser gay, menos homempouco masculino. O facto de Tooji pedir, parece até suplicar ao padre que o ouça, ao mesmo tempo que na imagem vemos a sua entrada na igreja e a discussão com o padre, é um jogo metafórico e até de apropriação destes símbolos da igreja, da masculinidade e da ausência da capacidade de procriação. E que me faz lembrar um dos mais famosos slogans da feminista Donna Haraway, “façam parentescos e não bebés”! 

Na audiência presente na igreja, é interessante reparar as diferentes reações das pessoas à relação entre Tooji e o padre. Umas, pelos seus lábios, parecem dizer “help us”, outras fazem um sorriso pervertido e existe quem evite olhar, mas acabe por ceder à tentação e o faça pelo canto do olho. Ao mesmo tempo, vários dos crentes cantam, provavelmente o salmo ouvido no início da música, suplicando arrependimento para as almas (seja lá o que isso for) dos amantes.  Entre as imagens que aparecem rapidamente, é de referir uma fenda em forma de coração que simboliza o amor de ambos e o órgão de tubos. Na igreja o instrumento musical é associado à música e ao sagrado, mas que fora apropriado pelo gótico para, no cinema e em outros produtos de entretenimento, expressar criaturas do demónio… Pois…

Durante o segundo verso o padre fecha os olhos e, na sua mente, vê uma pomba branca a vir na sua direção. Esta é um símbolo do espírito santo e da paz, e no plano seguinte liga-se a Tooji, mostrando que é ele que o padre está a ver caminhar na sua direção. O refrão substitui a discussão entre os dois pela entrega apaixonada e intensa que têm no palco da igreja. Os corpos nus envolvem-se, indiferentes aos olhares fixos dos outros. Tooji faz gestos de uma lap dance em cima do padre, e tudo tem uma sensualidade e paixão que, mais do que apenas sexo, é demonstrativa do sentimento forte que têm um pelo outro. 

No final cada um tem uma asa e no seu conjunto mostram que eles são uma união, duas partes de um todo. Mas o pregador final que se ouve acaba por confundir esta ideia. No seu tom intenso, quase em grito, começa com “May all beings everywhere plagued with suffering of body and mind quickly be freed from their illness”. Pergunto-me se a aparição dos termos praga e doença não se alocam a medos culturais contra sexualidades não normativas, de que ser gay é doença e que transmitem VIH? Por outro lado, um chamamento da libertação do sofrimento e a conclusão “may people think of each other”, pode ser sugestivo de uma religião de volta às origens do conceito (ou pelo menos à origem que me interessa e que acho ser a mais positiva). No termo religare, encontramos o sentido de “ligar novamente”, “unir”, não de uma ideia metafísica de algo que nos transcende, mas ligar-nos uns aos outros, compreendermos que somos todos humanos.  

Não consigo terminar este texto sem referir as perturbações, dores de barriga e outras enfermidades da mente que este vídeo provocou em tantas pessoas no Youtube. Esquecendo as mensagens de apreço pela obra, de reconhecimento pela coragem que o músico e a sua equipa tiveram para, orgulhosamente, debater este tópico, há imensas reações negativas. Isto significa que o vídeo musical foi bem sucedido, causou impacto, a sua identidade passa também pela sua capacidade de abanar as estruturas de poder. Se a igreja ainda é um local de culto que não pode ser perturbado, se os dogmas ainda são tabus que não devem servir de material para criação artística, e as suas figuras são santos que não podemos tocar, então, isso significa que continuamos a precisar de muitas bombas como esta. 

Bom natal para quem celebra, e de preferência que seja picante.

Por André Malhado

Socio-musicólogo, músico e acafã de ciberpunk.

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