esQrever sobre Educação – Parte II

Lembro-me perfeitamente do dia em que conheci o pequeno Miguel. De 4 anos, assustado e encostado à parede que sustentava os dois, tinha olhos doces e cabelos castanhos. Sentei-o no meu colo e começamos a conversar. Naquele dia levei o Miguel para casa. Ficámos amigos e os meus amigos andam comigo para todo o lado.

Eu e o Miguel fomos crescendo. Ele passou a usar óculos redondos, eu emagreci uns quilos. Ele foi perdendo a timidez, eu aprendi a não me levar tão a sério. No inverno emprestava-lhe o meu cachecol do Harry Potter e uma varinha: ambos combinavam na perfeição com os óculos redondos do Miguel. Ele, por sua vez, preenchia os meus dias com abraços cheios de carinho, conversas intermináveis e alguns lanches partilhados que envolviam bolachas de chocolate.

Todos os dias o Miguel vinha ter comigo assim que chegava. A mãe trazia-o sempre de camisa apertada até cima e penteadinho para o lado, à Clark Kent. Eu desapertava-lhe os botões de cima da camisa e ajeitava um caracol à Super-Homem, bem colado à testa. Ele achava imensa piada e ria-se. O Miguel ria-se sempre quando não percebia nada do assunto. E sobre super-heróis ele não percebia mesmo nada. Nem sobre jogar à bola, desportos no geral, ou andar a correr todo transpirado de um lado para o outro.

Por altura do natal, o Miguel disse-me que tinha pedido ao Pai Natal uma cozinha de brincar. Levou o mês de dezembro a desenhar a sua futura cozinha e estava feliz. Mesmo feliz. Ele tinha a certeza que a cozinha ia ser entregue no dia 25, porque ele era um bom rapaz. Não fazia disparates e portava-se sempre bem. Tudo qualidades indispensáveis quando se espera um presente do Pai Natal.

Nesse ano eu também pedi ao Pai Natal uma cozinha para o Miguel. Ainda tentei perceber junto dos seus pais qual seria o presente desse ano, dizendo que o Miguel estava sempre a falar da cozinha que iria receber, mas em vão. A cozinha nunca chegou à casa do Miguel. Quando lhe perguntei pelo presente de Natal, o Miguel endureceu o rosto, escondeu a cara tímida, e disse: “Não faz mal. Eu também não queria uma cozinha”. E assim tinha levado a lição 325 das noções erróneas de género: as cozinhas são para as meninas, Miguel. Não te estiques nos desejos.

Embora a cozinha nunca tenha chegado a casa do Miguel, na nossa sala de Jardim de Infância, o Miguel era livre para brincar com a nossa cozinha sempre que desejasse. Ou vestir os disfarces do faz de conta, ou os tutus de ballet, ou desenhar gatos pretos com laços arco-íris, ou brincar com um chupa-chupa gigante de cartão, que um dia se transformaria num chupa-chupa verdadeiro para ser lambido por toda a gente. 

É verdade que o Miguel foi muito importante para mim, mas a história do Miguel é só mais uma idêntica a tantas outras histórias de crianças e famílias, reféns de produções e reproduções simbólicas, na ilusão de pertença a uma chamada identidade de género natural e mais verdadeira que outras.

Obviamente que a escola tem um papel fundamental neste campo. Se temos como objetivo criar uma sociedade democrática e sustentável, precisamos de formar cidadãos e cidadãs que a ela pertençam: através de uma escola inclusiva, livre e multicultural, assente na premissa ensinar é criar cidadania. Por outro lado, se a escola tem obrigação de ser inclusiva e criar espaços de liberdade total de aprendizagem, é também feita de pessoas – pasmem-se! Pessoas que podem ser cruéis e terríveis, mas também bonitas e diversas, ou mesmo uma mistura de tudo; pessoas que são muitas vezes lançadas em ambientes educativos sem ferramentas que as capacitem a transmitir conhecimentos, não só curriculares-programáticos mas também sócio-educativos; pessoas que são também elas mães e pais de “Miguéis” em casa e profissionais de educação na escola.

O lugar da educação não é na escola mas em todo o lado. Educar é ser capaz de criar ambientes diversos e inclusivos, através de exemplos de visibilidade e de partilhas construtivas, onde quer que se esteja: na escola, em casa, no trabalho, no prédio, no supermercado, na rua, com amigos e amigas, com colegas. 

É responsabilidade de todos e todas criar condições para que nem mais um Miguel de 4, 24 ou 54 anos fique à espera de uma cozinha que nunca chegará.

(E obrigada, Miguel. Por todas as bolachas que partilhámos, mas principalmente por tudo o que me ensinaste.)

Por Cátia Sousa

Mulher, feminista, ativista, nerd, cáustica, #amnt, cheirosa nos dias em que toma banho.

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