Ou morre a Eve ou a Villanelle. Juntas e felizes é que não pode ser

Ou morre a Eve ou a Villanelle. Juntas e felizes é que não pode ser

(Avançar com cuidado – inclui mulheres e muitos spoilers) 

Disclaimer: este texto está a ser escrito por uma mulher lésbica com opiniões. Se esta frase não vos faz sentido, voltem mais tarde.  

Quem me conhece sabe que tenho um soft spot por mulheres loiras, complexas, cheias de personalidade, com histórias fodidas e a precisar de amor. Parece ficção mas é mesmo realidade. Portanto, só precisei de 20 minutos do 1.º episódio de Killing Eve para chegar à cena em Itália, em que a Villanelle salta da mota e esmaga um tomate para cima de um pedaço de pão, come o pão, e a seguir vai matar um gajo rico. Apaixonei-me ali. 

Eve, uma agente do MI5, entediada e entediante, e Villanelle, uma assassina profissional, são as protagonistas desta história de amor, com quatro temporadas recheadas de tensão, tesão, obsessão, encontros e desencontros, algum sangue pelo caminho, e muitas mulheres – o que é refrescante. 
Claro que com estes ingredientes, Killing Eve nunca seria uma série para durar muitas temporadas, nem para agradar à maioria. 

Ignorando obviamente a parte das mortes, que acho serem verdadeiramente acessórias, Eve e Villanelle têm a história de amor que muitas de nós têm, ou já tiveram. Histórias de amor complexas, entusiasmadas, intensas, dramáticas, bonitas, confusas, com mais tensão ou menos tensão, sexuais ou não, obcecadas ou não. Somos mulheres: matéria com muitas camadas, formas e feitios, e isso só nos torna mais interessantes.

O episódio em que a Villanelle mata a mãe (literal e figurativamente), o episódio em que faz psicoterapia, ou mesmo a relação com o personagem Konstantin, mostram bem a complexidade de que falo. Não teremos todas um bocadinho de Villanelle em nós? Bem, eu pelo menos sei que tenho. 

Levámos quatro temporadas a acompanhar o jogo da gata e da rata (ups!) entre estas duas, para finalmente chegar ao fim – e quando eu digo fim é mesmo fim: 2.ª metade do último episódio – e ver as duas juntas e felizes. 
O momento em que a Villanelle dá um beijo tímido na bochecha da Eve, e as duas se beijam a sorrir, era o final da série que precisávamos. 

Naquele momento estavam juntas, finalmente unidas, após um longo xixi lado a lado à beira da estrada, seguido da sacudidela necessária. 
São namoradas e estão a namorar. Abraçam-se e riem, como todas fazemos (ou queremos um dia poder vir a fazer), beijam-se e olham-se com ternura. Dizia-me uma amiga que elas não tinham química. Permite-me discordar, amiga. Aquilo é um casal de mulheres com química. Mas amigas como dantes, ok? 

Claro que, da mesma forma que o filme Carol não teve o protagonismo que merecia e não ganhou o óscar de melhor filme, Killing Eve não teve direito a um final feliz. 

Na mesma série, o inútil ex-marido da Eve sobrevive a uma forquilha espetada nas costas, mas a namorada lésbica tem de morrer. Não deixa de ser interessante chegar a este final no mês da visibilidade lésbica. A cultura mainstream continua a querer matar as personagens queer femininas e já ninguém tem paciência para isso.

Posto isto, tenho algum medo que os argumentistas de Killing Eve me vejam feliz a abraçar a minha mulher na rua – mas se morrer, pelo menos que seja nos braços dela. 

Por Cátia Sousa

Mulher, feminista, ativista, nerd, cáustica, #amnt, cheirosa nos dias em que toma banho.

1 comentário

  1. Estou absolutamente de acordo: esta vaga de matar personagens queer femininas tem de acabar! Não obstante, achei a série absolutamente brilhante, dei por mim a rir, chorar, chorar a rir, e nunca pensei que durasse tantas temporadas e sempre com qualidade. Para mim, esta vai ser uma história que irei lembrar até ao momento em que ficam juntas na caravana, o resto do episódio são migalhas adicionais e um “final alternativo” que prefiro nem lembrar.

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