Está tempo para temporais

Há dez anos e 1 dia, publiquei online o conto “in_temporal_2012”.

Hoje, 26 de abril de 2022, no Dia da Visibilidade Lésbica, decidi voltar a olhar para o texto para ver se ainda fazia sentido e quanto de “temporal” havia nele.

O conto parte desse conflito tão atual com o efémero e, salvo alguns apontamentos mais datados e a linguagem pouco inclusiva, permanece ainda como uma bonita viagem de descoberta e transformação. Em 2012, vivíamos num país regido pela troika, havia muita contestação social e vários episódios de carga policial abalavam os dias. As fake news ainda não eram tão evidentes e talvez se acreditasse mais no poder da verdade e da informação. Muitas eram as pessoas que se sentiam perdidas e sem esperança, presas àquele lugar e tempo, sem a perspetiva da mudança. Hoje, mal recuperávamos a esperança, depressa voltamos a sentir a ameaça da mudança.

Controlamos pouco e essa também é uma descoberta da protagonista desta história. Uma mulher que sofre o seu próprio temporal interior, tão agarrada estava ao seu desejo de intemporalidade.

Volto a partilhá-la hoje, aqui na esQrever, porque me lembra a importância da luta. Da luta que ontem celebrámos novamente nas ruas e da luta de hoje, das mulheres lésbicas pela sua visibilidade, em mostrar-se como são, em fazer ouvir a sua voz, em trilhar o seu caminho.

E, claro, a minha luta pela minha visibilidade, pela minha voz e pelo meu caminho, como mulher lésbica, como ativista, como pessoa que escreve. Convido-vos hoje a lerem, ou a relerem este texto, e continuarem a nossa revolução. Uma revolução do amor, da liberdade e da igualdade.

Deixo a premissa e uma pequena amostra do texto abaixo, sendo que a leitura integral pode ser feita aqui.

“Num tempo pouco dado a intemporalidades, em que tudo muda a cada cinco minutos em permanente atualização, que espaço existe para mudar realmente o rumo das nossas vidas? Neste conto, somos transportados/as para o espaço de tempo entre 22 de março e 25 de abril de 2012 da vida de Teresa. Tudo se passa agora. E o agora que se passa mudará o depois?
Cada pessoa tem um papel neste tempo. Em tempos de temporais, tempos perdidos, tempos novos, “in_temporal_2012” é o que dele fizermos, como tudo o resto. Estes são tempos para viver.”
Pequeno excerto

E o que é o “isto” que vamos fazer resultar, sabes dizer-me?” Teresa riu-se com a pergunta de Irene. “Não, não faço ideia. Neste momento, a única coisa que sei mais ou menos é que estou num lugar novo e improvável que não sei como ocupar. E preciso de ti para me ajudares.” As palavras pareciam sair da boca de Teresa contra a sua vontade, lentas e de rajada, impostas. Não entendia como podia confiar-se tanto àquela miúda.

“Sabes, não tinha página no facebook até ao momento em que te pedi amizade. E, nestes últimos dias, minto, nestes últimos anos, tenho sido atravessada pela evidência do efémero, no qual não me sei situar. Tudo aquilo que estudei, que sei, está escrito há milhares de anos, só muda nos olhos de quem o lê. E eu também estava escrita como se há milhares de anos. Mas o mundo insiste em atirar-me novas coisas à cara e eu, o meu corpo, a minha mente, vagueia entre o intemporal que assimilei e o mundano que me puxa. Não consigo acompanhar, percebes? O facebook é a materialização dessa minha incapacidade porque é exatamente como uma plataforma movediça e instável, como sinto agora o chão que piso. E tudo se mistura na minha cabeça, a caverna, os cassetetes, os comentários, o teu olhar, a troika, as notícias de algibeira que aparecem nos jornais sem rigor, sem dano, tu de novo, aulas que são psicoterapia em vez de filosofia, fazes ideia do que é isso para uma platónica como eu? Tudo se mistura, a minha filha que é inteligente e linda, e que cresce e se atira de frente para a vida sem eu fazer ideia do que se está de facto a passar, um homem que amei e que saiu de casa sem eu sentir outra coisa se não raiva por a vida ser incompetente, e tu novamente, de repente, sem eu saber porquê apareces-me assim. Não consigo acompanhar.”

“Não apareci de repente e acho que sabes disso. Já estou lá há uns meses, a falar contigo, a ouvir-te, a sorrir-te. Tu simplesmente não estavas preparada para ver. Que tem estar tudo misturado? Não é suposto ser para isso que a filosofia serve? Estar escrita há milhares de anos só conta se der para agora. E tu, tu não estás escrita, estás a escrever-te agora mesmo.”

Teresa gostaria de poder chamá-la ingénua, assumir uma posição natural de maturidade, de mestra e discípula, mas não era possível. Não era nada disso que se passava ali. Era outra coisa. E Teresa interrogava-se como, tão perdida tão cansada, não era capaz de sentir outra coisa senão vontade de estar mais perto.

Por ana vicente

Sobre Ana Vicente Ana Vicente é uma mulher lésbica, feminista e ativista pelos direitos LGBTIQ+. Nasceu em 1977 em Lisboa, cidade que habitou a maior parte da sua vida adulta, antes de se render à vida do campo na zona Oeste. Licenciou-se em Filosofia, que equilibra ouvindo canções dos ABBA. É copywriter e estratega de comunicação na ana ana, da qual é sócia-gerente (podem adivinhar o nome da outra sócia). É voluntária da ILGA Portugal desde 2015 e colabora com outras associações e movimentos ativistas sempre que pode e/ou é convocada. Escreve há vários anos para o projeto esQrever. Escreve há vários anos. Escreve.

Deixa uma resposta Cancel reply

Exit mobile version
%%footer%%