Como se constrói uma identidade sonora? Discussão sobre o vídeo musical SENTADINHA MACIA, Lia Clark

Como se constrói uma identidade sonora? Discussão sobre o vídeo musical SENTADINHA MACIA, Lia Clark.

No trabalho artístico de pessoas queer brasileiras tenho-me deparado com um tema muito comum: os corpos sexualizados, de forma explícita, na ficção científica. Pode parecer que não é nada demais! Só que, culturalmente, a ficção científica ainda é um território heterossexual e normalizado, tanto por quem faz como pelo que representa. Precisamente por isto, nas últimas três décadas começaram a surgir movimentos alternativos como a ficção científica feminista, e a queer, para dar voz a outros artistas, histórias e experiências. Acho, mas posso estar enganado, que a cultura musical brasileira está a desenvolver-se neste sentido. Isso faz dela um espaço excelente para ouvir, sentir, desejar e pensar a sexualidade na música. Lia Clark e o seu vídeo musical SENTADINHA MACIA, realizado por Gabriel Riccieri, é um funk eletrónico com influências do tecno, e com muita sensualidade. Nesta rubrica, vamos discutir o que a ficção científica traz para o campo da sexualidade, e vice-versa, e como o prazer e o erotismo podem ter uma expressão nos seus sons e imagens.

O vídeo começa com uma introdução de Lia a jogar no seu telemóvel e a equipa de produção observa-a, já sem paciência. As câmaras, luzes e tripés que se vêm na sala, e a visualização de uma claquete, fazem o vídeo parecer um filme. Com os bastidores do vídeo musical, a cantora elimina a divisão entre a realidade e a encenação, então, a questão coloca-se: ela é ou não uma personagem no vídeo e, da mesma forma, a sexualidade que apresenta é a sua ou não? O caráter virtual intensifica-se com o aparecimento de pixéis, texto e figuras no ecrã. Um filtro colorido que inunda o ecrã é o que o realizador vê através da câmara que filma, é um computador por onde alguém observa a atuação, ou simplesmente um modo de situar o vídeo na ficção científica? Fica ao vosso critério. Contudo, uma das funções dos vários textos que vão aparecendo na imagem é a de dar pistas sobre coisas que Lia Clark está a comentar/criticar. Por exemplo, o vídeo está carregado de desenhos em cor verde néon, tipo graffiti. O néon aparece porque é um símbolo do capitalismo na ficção científica (são as luzes dos anúncios publicitários) e o graffiti porque é a arte de rua que proclama a liberdade de expressão. Neles, é possível ler “Free Britney” (já regresso a Britney Spears daqui a pouco) e “Fora Bolsonaro” (pausem no minuto 2’32 e olhem para o canto superior esquerdo), e que só podem ser lidos se tivermos atenção e pausarmos o vídeo. Uma interpretação possível, é o facto desta quantidade de referências se assumir como ruído, no seu duplo sentido. Por um lado, o ruído é um som intenso e desagradável e o mesmo acontece à imagem, numa espécie de inarmonia visual (demasiado texto) e sónica (há dissonância e distorção na voz em algumas situações). Por outro lado, demasiadas informações dispersam a minha atenção e perturbam a comunicação. Fico sem saber onde me concentrar, o que olhar ou ouvir, e preciso de várias visualizações para captar todas as referências.

Nesta intensidade audiovisual, Lia Clark é um corpo sexualizado e poderoso. Dá uma palmada no próprio rabo, e isso é tão potente que provoca uma redução na temporalidade. O ecrã começa a ficar negro e a música sofre uma distorção. Sabem quando nos filmes tudo fica em ‘câmara lenta’ e as vozes agudas ficam mais graves? É isso que acontece, mas o vídeo dá a entender que é Lia a responsável. Quando, logo a seguir, Lia canta “Let’s Go” e depois entra o solo, é exatamente o mesmo que Britney Spears diz antes do seu solo na música “Circus”. Vejam o vídeo musical e comparem as situações, até o tipo de coreografia dos dançarinos é baseada em muitos movimentos dos braços! Em SENTADINHA MAÇIA, todos têm raios à sua volta e os seus olhos brilham levemente como se fossem robôs. Os movimentos são rápidos, há um pontapé (Britney levanta a perna de modo semelhante) de Lia em direção à câmara e aparece um vidro digital verde que é estilhaçado pelo seu golpe, um sinal do seu poder no ciberespaço. Alem disso, no ecrã aparece “no signal” que nos lembra uma vez mais que estamos a ver uma realidade virtual ou uma gravação. A cena é tão forte que se ouve um chicote (Britney usa um chicote em “Circus”) para acentuar a sexualidade. Será o fetiche que a sentadinha macia representa? 

Como não podia deixar de ser, precisamos de falar sobre o erotismo deste vídeo musical. Na voz de Lia, em especial quando termina as frases, eu sinto um prazer sexual. Por exemplo, segundos antes desta passagem para o solo em que ‘o som estoura’, ouvimos cantar “Duvido que não vicia” e sussurra o ‘a’ final até que esta letra se funda com o som de ruído. Na imagem, a cantora está de boca aberta, indiciando um orgasmo provocado pelo vício ou, talvez, seja o começo de um clímax sonoro que provoca a ejaculação (ups). O ‘arrastar’ de sílabas ou letras, como este ‘a’, acontece novamente no final do vídeo em que o seu corpo sensual e apenas em roupa interior é coberto por um líquido viscoso. A sua voz agora é modificada digitalmente, o som parece surgir ao fundo como um fantasma, e o arrastar das sílabas faz sentir que suspira e geme.

Para concluir, durante o refrão há a pergunta de um homem, julgo que é o DJ Thai, às investidas da sentadinha macia. Ele diz “Ai, caralho, que é que é isto?”, durante uma melodia repetitiva em que talvez se possa imaginar uma oscilação da sentada. O subir e descer – de sentar numa cadeira ou sentar de outra forma, e sabem bem do que estou a falar –, pode estar a levar a pessoa que profere aquelas palavras ao êxtase. Afinal, uma identidade musical tecnológica e sexual é esta combinação de efeitos e afetos, de sensações e materiais, que se envolvem nos corpos queer. Lia Clark e os seus bailarinos são exibidos pelas câmaras e computadores que os observam, mas nunca se contentam em ser apenas submissos, marginalizados, subjugados ou objetos de um fetiche virtual. E, quando o são, será que é porque querem ou não têm essa consciência?

Por André Malhado

Socio-musicólogo, músico e acafã de ciberpunk.

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