Larguem os (nossos) corpos

Quase dois terços (64%) das mulheres inquiridas no estudo “Dove – Body Shaming”, divulgado nos últimos dias, “afirmam ser ou ter sido alvo de comentários depreciativos ou insultos sobre o seu corpo, em especial por parte dos amigos, familiares e conhecidos.”

Quem nunca?, apetece perguntar. De tal modo que até apetece dizer que o terço em falta está simplesmente distraído ou normalizou o body shaming. Os clássicos “estás mais magra” ou “estás mais gorda” são apenas a cereja do topo deste bolo que, diga-se, a maior parte das mulheres teria demasiada autoconsciência para comer sem culpas. Seja a forma de se vestir, de se comportar, de seguir os códigos estéticos associados à feminilidade (pelos, maquilhagem, etc.), ou partes do corpo, tudo pode ser motivo para juízos e julgamentos.

Os corpos das mulheres são tratados como sendo do mundo e não delas próprias. Um mundo patriarcal que impõe critérios, que subjuga a realidade em nome de um modelo inalcançável. Porque quando uma mulher é julgada (ainda mais por si própria) estará sempre aquém nalgum dos níveis.  

De acordo com a psicóloga Filipa Jardim da Silva no mesmo artigo, “estes resultados remetem-nos para esta generalização de como o nosso corpo e a nossa imagem se tornou um tópico que muitas vezes não conhece fronteiras, em que as pessoas perderam muitas vezes o discernimento do que é um comentário que têm legitimidade de fazer e um comentário que não tem legitimidade de fazer, porque entra no espetro da identidade e da individualidade do outro”.

Legitimidade parece-me ser a palavra chave.

Que legitimidade temos de julgar (e sobretudo de verbalizar esse juízo sobre) o corpo de outra pessoa? Mesmo com as “melhores intenções”, ou até de forma “elogiosa”, por que achamos legítimo comentar o corpo, a face, a roupa, as rugas, o peso? Os exemplos à nossa volta são evidentes, basta assistir a um episódio do Ídolos para ver o jurado Tatanka a dizer como algumas das concorrentes são “bonitas”. Como se isso fosse naturalmente material para se ser uma estrela da música, em vez da atitude ou, pasme-se, a voz.

Seja para denegrir, seja para elogiar, um comentário sobre o corpo pode ter sempre um impacto muito forte na auto-estima de uma mulher. E de qualquer pessoa, diga-se, porque os homens também não estão imunes a essa pressão e julgamento.

No entanto, a pressão nas mulheres é muito maior e, sobretudo nas raparigas, o impacto poderá ser muito mais destrutivo. Porque o body shaming é apenas um sintoma, tal como o assédio, de uma sociedade altamente punitiva para género feminino. A vergonha, o medo, a culpa, fazem parte do dia-a-dia das mulheres. E, através da objetificação e do não reconhecimento à auto-determinação do seu corpo, as raparigas constroem a ideia de si próprias nessa anulação, nesse modelo impossível, nessa vergonha.

É chato dizerem que estou mais gorda ou embaraçoso dizerem que estou mais magra? É inapropriado dizerem que estou vestida à lésbica ou lamentável que digam que tenho muitos cabelos brancos? Sim, mas isso pouco interessa perante o cenário de construção da autoimagem das raparigas. Se o inquérito da Dove se centrou em mulheres com mais de 18 anos, importa-me ainda mais o que está a acontecer antes disso. A todas as mulheres em formação, que todos os dias são assediadas nas ruas, nos transportes públicos, nas escolas. E que sofrem por não cumprirem um padrão qualquer.

Larguem as miúdas

Um olhar prolongado para o corpo, aproximação física não solicitada, imposição da presença, insinuações verbais, comentários, palavras, gestos, assédio, abuso… Tudo a acontecer enquanto raparigas se tornam mulheres. Num piscar de olhos, uma criança em transformação passa a ser objetificada e assediada por homens. E, tantas vezes, sob a passividade de tanta gente à volta.

Esta é uma realidade que todas as raparigas vivem, habituando-se a uma sociedade que invisibiliza esta questão, que não as protege e que deixa passar como se fosse algo normal. Uma realidade que se prolonga na vida adulta, expondo as mulheres a constante assédio com toda a normalização.

O body shaming faz parte desse universo. Aliás, um elogio não solicitado sobre o corpo faz parte desse universo. Temos de parar de falar sobre as características físicas das outras pessoas quando esse tema não for trazido pelas próprias. Pois essa conversa assenta no pressuposto que temos propriedade, legitimidade, poder sobre o corpo da outra pessoa e sobre o corpo das mulheres em particular.

Sejamos donas dos nossos corpos, incentivemo-nos umas às outras a fazer o mesmo. Tânia Graça, Psicóloga Clínica, Sexóloga e Coach que trabalha o empoderamento sexual e relacional para o empoderamento feminino, tem sido um bom exemplo nesse sentido, vocalizando o que tem estado tanto tempo silenciado. Além do excelente podcast “Voz de cama”, lançou também recentemente o mini-curso “Livres e soltas”, cujos lives estão disponíveis até 6 de maio no Youtube

Quando vamos ter/dar-nos uma oportunidade? Não simplesmente de não ligar ao body shaming. Ou de responder ao assédio com poder, força e sororidade. Ou de ser positiva e cuidar de si mesma. Mas sim ter/dar a oportunidade de simplesmente ser. Sem a merda toda à volta que nos intoxica por dentro.

É que assim ficamos mais feias, gordas e com mais rugas”.🖕

Photo by Alex Motoc on Unsplash

Por ana vicente

Sobre Ana Vicente Ana Vicente é uma mulher lésbica, feminista e ativista pelos direitos LGBTIQ+. Nasceu em 1977 em Lisboa, cidade que habitou a maior parte da sua vida adulta, antes de se render à vida do campo na zona Oeste. Licenciou-se em Filosofia, que equilibra ouvindo canções dos ABBA. É copywriter e estratega de comunicação na ana ana, da qual é sócia-gerente (podem adivinhar o nome da outra sócia). É voluntária da ILGA Portugal desde 2015 e colabora com outras associações e movimentos ativistas sempre que pode e/ou é convocada. Escreve há vários anos para o projeto esQrever. Escreve há vários anos. Escreve.

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