Um surto de varíola dos macacos não justifica a homofobia

Um surto de varíola dos macacos não justifica homofobia

Um surto de varíola dos macacos em Portugal, com 14 casos atualmente confirmados, tem estado a ser acompanhado por especialistas. No entanto, tal não impediu o surgimento de declarações de teor estigmatizante e homofóbico por parte de Vitor Duque, presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia. Ironicamente aconteceram um dia depois do Dia Mundial de Luta Contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia.

“Pode ser o início de mais uma epidemia entre os homossexuais ou alastrada a toda a população”

Crostas, febre e manchas no corpo e cara são alguns dos sintomas, normalmente ligeiros, da varíola dos macacos (também conhecida por monkeypox). Os sintomas tendem a desaparecer espontaneamente duas a três semanas após a infecção.

Além do contágio poder ser feito pelo simples contacto direto ou exposição a partículas e, como tal, sendo potencial a toda a população, há vários fatores e falácias que podem ser facilmente desmontados perante a declaração anterior.

Como explicou Luis Mendão, responsável nos serviços do Grupo de Ativistas em Tratamento, “está a investigar-se este cenário pois é a primeira vez que há um surto reportado em que o grupo principal atingido são gays”.

Margarida Tavares, infecciologista no grupo de trabalho da Direção Geral da Saúde para este caso, adiantou que “ainda é cedo” para ter informação completa sobre a origem do surto e o histórico das pessoas infectadas. No mesmo sentido, Mendão reforçou a importância de descobrir a forma como foi transmitida a varíola dos macacos, “perceber se foi só contacto físico ou através de relações sexuais”.

Quem tem lesões na pele deve evitar ter contactos físicos e relações sexuais”, aconselhou, deixando claro que abraços e beijos podem ser também momentos de contágio. Quem apresentar lesões deve pois procurar uma consulta médica.

O foco numa minoria pode ter efeitos nefastos e sabêmo-lo há décadas

O estigma associado às pessoas que vivem com VIH/SIDA teve o seu expoente máximo nas décadas de 1980 e 1990, quando o vírus e a doença foram associados à população gay e bissexual. E isso contribuiu para a desinformação sem qualquer fundamento científico e clínico no combate à pandemia, tendo exposto milhões de pessoas ao vírus por mero preconceito. Doença dos gays” ou “cancro gay” foram narrativas que perduraram durante anos na mente das pessoas, rejeitando e isolando uma comunidade para a morte.

Como bem sabemos, desde a décadas de 1990 que tem sido feito um trabalho tremendo para desconstruir a ideia de “grupos de risco” e tomar antes a cientificamente correta “práticas de risco“. Reforço, esta é uma expressão que começou a ser usada clinicamente desde pelo menos os anos 1990 e, inclusive, ensinada nas escolas portuguesas por essa altura. Três décadas passadas, não é admissível que uma figura de destaque na área use termos estigmatizantes, imprecisos e levianos sobre o surto da varíola dos macacos em Portugal.

Luís Mendão reforçou assim que a doença “não é exclusiva dos homossexuais”, tendo havido surtos noutros países que atingiram todas as pessoas, desde crianças a mulheres. “E nestes casos nunca foi de transmissão sexual”, acrescentou. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, em 2003, a maioria dos casos reportados foi por mulheres devido a contacto com animais.

O fator testagem e acompanhamento da saúde sexual pode influenciar números

A aposta na saúde sexual – quiçá influenciada precisamente pelo impacto da pandemia do VIH – é uma das preocupações de muitos homens homossexuais e bissexuais que “vão regularmente fazer check up aos nossos serviços“, referiu Mendão.

Este é um tipo de acompanhamento e preocupação que poderá influenciar o número de casos encontrados nesta população, uma vez que pessoas fora da comunidade LGBTI até podem estar infectadas, mas não se saber. Tal como em contexto da pandemia do VIH, muitas pessoas podem desvalorizar os sinais e não irão procurar apoio clínico.

Daí a importância de não focar um depoimento, ainda para mais em destaque no título, numa minoria. Uma minoria historicamente perseguida e humilhada também na doença e na morte. Porque essa narrativa pode desvalorizar a atenção do resto da população. Esta poderá interpretar a associação de “mais uma epidemia entre os homossexuais” a “uma coisa lá deles“, o que, além de pouco sério do ponto de vista científico, é prolongar o estigma de toda uma população minoritária e colocar também em risco potencial a restante.

Perante sintomas suspeitos, a Direção Geral da Saúde recomenda a procura de aconselhamento clínico, sendo que a pessoa deverá evitar contactos físicos directos até ser observada.


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Por Pedro Carreira

Ativista pelos Direitos Humanos na ILGA Portugal e na esQrever. Opinião expressa a título individual. Instagram/Twitter/TikTok: @pedrojdoc

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