Surto de Monkeypox em Portugal: Associações LGBTI reagem a narrativas preconceituosas

Associações LGBTI reagem a narrativas preconceituosas ao surto de Monkeypox
Secção de foto por Chris Johnson.

Depois do conhecimento de um surto do vírus Monkeypox em Portugal e que veio a ser encontrado em outros países como em Espanha ou Bélgica, houve várias associações e entidades que vieram mostrar a sua preocupação e repúdio à forma como o assunto foi tratado por alguns orgãos de comunicação.

O secretário de Estado Adjunto da Saúde Lacerda Sales afirmou que o vírus é “uma doença de comportamentos de risco” e não de “grupos de risco”, à qual todas as pessoas estão sujeitas, e que os casos confirmados em Portugal “estão todos estáveis”.

O contágio da “varíola dos macacos”, como também é conhecida, poder ser feito pelo simples contacto direto ou exposição a partículas e, como tal, sendo potencial a toda a população. Crostas, febre e manchas no corpo e cara são alguns dos sintomas, normalmente ligeiros e tendem a desaparecer espontaneamente duas a três semanas após a infecção.

O que disseram então algumas das entidades pelo direitos das pessoas LGBTI+ em Portugal?

ILGA Portugal: Irresponsabilidade na comunicação alastra discriminação

Um dos focos da Associação ILGA Portugal foi a postura de alguns orgãos de comunicação social, relembrando que estes “têm responsabilidade acrescida na forma como tratam as notícias” quando vivemos num ambiente social e político polarizantes. Tal especial cuidado deve ser igualmente tido em conta por parte de “profissionais e autoridades de saúde na partilha de dados e informações sobre mecanismos de proteção e prevenção“.

A associação recordou que “as manchetes que fizeram associação direta do surto do vírus Monkeypox ao “início de mais uma epidemia entre os homossexuais” são científica e clinicamente falsas e eticamente reprováveis“. Reforçou também como “a orientação sexual em nada está relacionada com a Monkeypox“, e lamentou que “em pleno século XXI se continue a empurrar as pessoas LGBTI+ para contextos de estigmatização” promovendo assim o recúo dos “avanços conquistados nos últimos anos.”

Ainda assim, a ILGA Portugal felicitou a forma como muitos meios de comunicação e jornalistas “souberam tratar a informação de forma ética e responsável“, não caindo em “escolhas editoriais orientadas para o clickbait e para a partilha lucrativa de conteúdos“.

A ILGA Portugal anunciou que, com as demais organizações da sociedade civil, “estão em diálogo com a Direção-Geral da Saúde para que as normas e informações emitidas sobre este surto sejam claras e direcionadas a todas as pessoas“. Por fim, a associação reforçou que “associar um vírus a um grupo ou minoria é estar a colocar em risco não só as pessoas vítimas dessa discriminação, como toda a população.”

Associação IPA: Não voltemos aos fantasmas do passado!

A Associação IPA mostrou-se surpreendidacom declarações que correlacionam o surto da apelidada “varíola do macaco” em Portugal com a comunidade homossexual“, dado que estas “não foram proferidas por um desconhecedor em virologia, nem por um comentador utilizando o senso comum, foram sim declarações proferidas pelo Presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia” e, considerou, “seguidas por um responsável do Grupo de Ativista em Tratamento (GAT).

Esta falsa correlação entre o Monkeypox e um grupo minoritário tem sido usada como arma de arremesso à comunidade LGBT+ e tem fundamentado novos ataques de ódio, num momento que relembra outros “fantasmas do passado, em que havia por parte da comunidade medico-científica e por parte da sociedade a criação da ideia de que o VIH e a SIDA eram “doenças gays”“. Importa, por isso, esclarecimento sobre a transmissão do vírus, “Para que não fiques com macaquinhos no sotão!

A associação de Torres Vedras considerou alarmista e precoce “proferir qualquer tipo de declarações” que incentivem à discriminação por orientação sexual, promovendo assim também “uma crescente onda de crimes de ódio“.

Neste sentido a IPA – Associação para a Promoção da Igualdade repudiou as declarações mencionadas e apelou à DGS – Direção-Geral da Saúde, ao Instituto Ricardo Jorge e ao Ministério da Saúde “uma postura de seriedade e a prática de uma comunicação esclarecedora e rigorosa que não comprometa a segurança da comunidade LGBT+“.

Grupo de Apoio a Pessoas Queer: Carta de Repúdio

Através de uma carta de repúdio, o Grupo de Apoio a Pessoas Queer considera vergonhosa e uma difamação a caracterização do Monkeypox como uma “epidemia entre homosexuais”, relembrando que a doença “não escolhe géneros nem orientações sexuais“. A disseminação de ideias preconceituosas contra a população LGBTI levam à sua discriminação, considerou o grupo vimaranense.

O grupo exigiu assim um sistema de saúde com respostas devidas à população LGBTI e, igualmente importante, não LGBTfóbico, uma vez que “num estado democrático e livre não se pode continuar a permitir o discurso de ódio e a divulgação de fake news“, rematando que “ser LGBTI não é ser doente.

2 comentários

  1. A Comunicação Social deve sempre primar pela verdade nua e crua, doa a quem doer. Nunca deveria ser tendenciosa.
    No entanto, Ninguém…mas ninguém mesmo tem o direito de julgar isto ou aquilo. Podemos tirar lições de tudo na vida…mas nunca julgar ou discriminar. Se há “comportamentos de risco” devemos saber quais…Mas ninguém se ria do vizinho…

  2. Preconceito que nos faz refletir, o que diria ser minha tese: “hetero é utopia”! Aqui no Brasil, primeiro ano da Covid-19, “escancarou” muitos casamentos “falidos” há anos, em que o Home Office trouxe a tona, que aqueles que dormiam todo dia juntos, Não se “aturavam” durante o dia, compartilhando a sala da residência como de trabalho, também! Já o ambiente de trabalho, na empresa, mesmo competitivo é sabido que muitos colegas transavam, especialmente homossexualmente!

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