A história de Karim, um homem gay de 24 anos que pediu asilo a Portugal

A história de Karim, um homem gay de 24 anos que pediu asilo a Portugal

Esta é a história do Karim, um homem gay de 24 anos que pediu asilo a Portugal em junho de 2021.

Eu chamo-me Karim, há muita gente que não conhece o meu país, é um país pequeno, no este de África. Estou em Portugal desde há cerca de um ano, acho que desde junho. 

E ya, sou um requerente de asilo em Portugal, e sou homossexual, parte da comunidade LGBTQ. E agora vivo em Lisboa, e trabalho aqui. 

Na família onde cresci… para mim era assim uma espécie de tristeza. Posso dizer isso. Assim um bocado… não exatamente uma prisão, mas uma mentalidade, contra tudo o que eu estava a pensar. A infância que eu vivi lá não foi… não foi a melhor. 

Não nasci numa família grande, duas irmãs, um irmão, eu e os meus pais. Os meus pais, como o resto da família, eram muito presos às tradições, muito religiosos, e eu cresci nesse tipo de ambiente. E na minha infância, não era fácil, porque eu tinha umas maneiras, tipo a maneira como falava, quando era criança, e eles estavam sempre lá para me educar, como devia falar, o que devia dizer… tinha de ficar junto dos meus tios, tinha de ficar com os homens, não com as mulheres.

Lembro-me ainda hoje destas calças que eu tinha, mesmo lindas, com flores e tudo, que tinha comprado com o meu dinheiro, e a minha mãe pegou nas calças e cortou-as com umas tesouras, porque, “não, é para raparigas, como é que podes usar uma coisa destas?

E a casa não era bem a coisa normal, a mãe, o pai… eles estavam sempre de volta do meu irmão mais velho, porque na nossa tradição, na minha família, os homens valem mais do que as mulheres, e por essa razão, o meu irmão mais velho era o menino dos olhos dos meus pais, e eu era aquele que… não. 

A única pessoa de quem era próximo na minha família era a minha irmã, ela era como uma psicóloga, estava sempre a partilhar coisas com ela, e ela estava lá para me motivar.

Quando estava a crescer, naquela família, eu era sempre aquele que fazia imensas perguntas. Eu sou Árabe, consigo entender o sentido das palavras no Corão. E quando comecei a entender o significado do Corão, comecei a fazer perguntas. Foi aqui que começaram os problemas. Eu era uma criança, 10, 11 anos, e tenho este exemplo, quando rezas, como muçulmano, há uma parte em que se fala das pessoas que vão para o inferno, e eu dizia que isso não tinha lógica, e a resposta deles era, “estás a rejeitar as palavras de deus, estás contra deus”, e nesse dia a minha mãe deu-me uma bofetada, para me educar. 

O que eu vivia em casa era diferente da minha vida na escola, porque quando andava na escola, quando era criança, eu tinha as melhores notas, era o melhor aluno da turma, e assim tinha quase dois mundos na minha vida. 

A casa e a escola.

Agora posso dizer que a única coisa que me ajudou, que realmente me ajudou, foram os comentários dos professores, do estilo, “tens sempre ideias”, faziam sempre comentários positivos, não eram como a minha família.

Desde a infância que sei que não sou como os outros homens, que dizem, “ah aquela rapariga, que bonita”. Lembro-me que o meu irmão mais velho tinha um melhor amigo, e ele era atraente, e eu adorava brincar com ele quando era pequeno, e não era bem uma amizade como as outras para mim. Talvez ele tenha sido o meu primeiro amor. 

O sentimento que eu tinha quando via rapazes era um bocado estranho, não era um sentimento normal, não era como na amizade, e então é claro que me questionava, o que é este sentimento, e comecei à procura. Descobri que há outras pessoas como eu no mundo. Descobri que há gays, uma coisa que se chama gays.

Foi assim que fiquei a saber que a homossexualidade existe e percebi que a homossexualidade não é um crime. Sempre me disseram que os homossexuais são “Gente de Lut”, que vão ser mortos por deus, que cometem um crime grave. Não acredito nisso. 

No meu país, ser homossexual, tu nem sequer podes dizê-lo, não podes pronunciar essa palavra. É mais ou menos proibido ser homossexual, e a palavra homossexual não existe nas bocas deles, é sempre, como é que posso dizer, tipo paneleiro, palavras muito homofóbicas. E se tu falares como as raparigas falam, e alguém te insultar, te magoar, te bater, te fizer mal, tu não podes ir fazer queixa e dizer, por exemplo, “ele é homofóbico, ele fez-me isso”, vai ser a pessoa, vai ser o homossexual que vai acabar preso. Porque deves ser um homem, e não deves dizer estas coisas. Talvez a própria polícia te bata na esquadra. 

Eu conheci um rapaz quando andava na escola e éramos amigos, tornámo-nos amigos. Por essa altura, eu tive de adotar uma maneira diferente de falar. Torna-se cansativo estar sempre a ouvir, “não fales dessa maneira”, então tens de te conformar, para viveres em sociedade. 

Mas o Hasan, o nome dele era Hasan, ele não conseguia fazer isso, era a sua maneira de ser, a sua maneira de falar. Eu lembro-me que na escola estavam sempre a chamar-lhe “Hasna”, a versão feminina de Hasan, só para o insultar. E quando nos tornámos amigos, foi quando fui falar com ele, e ele ficou uma bocado… foi estranho, eu respeitei-o, do tipo, “por que é que estás a falar comigo?”,  ao contrário dos outros. 

Quando o conheci, eu entendi, e é claro que ele também entendeu.

Lembro-me de uma vez em que ele foi à minha casa, como um amigo normal, e lembro-me de a minha mãe e toda a gente dizerem, “como é que tens um amigo destes?”, ya, foi mau. 

Depois disso ele teve grandes problemas.  A família dele vinha de uma vila muito, muito pequena, e levaram-no para lá, se calhar para mudá-lo. Depois disso, nunca mais o vi. 

Eu estava só a tentar encontrar uma maneira de ir embora e não voltar, não viver mais aquela situação. Porque podes respirar, mas não há oxigénio. Quando eu vivia lá, para mim era assim. 

Fui estudar para a Turquia. Foi o melhor dia da minha vida.

Quando me mudei para a Turquia, comecei a viver um bocado a minha sexualidade. A primeira coisa que procurei no google foi encontros com rapazes. E a coisa boa, posso dizer que é mesmo uma coisa boa, é que eu não era muito religioso, não como a minha família. Na minha vida, conheci muçulmanos homossexuais que não se aceitam completamente a si próprios. Estavam sempre a rezar, conheci muitos rapazes assim na Turquia, por exemplo, quando fazíamos sexo, depois perguntavam-se, “mas por que é que fiz isto?” 

E eu não era assim, porque a cada ano que passava eu percebia melhor a religião, e que não é um pecado ou errado, ou alguma coisa que me vai levar para o inferno, por ser “de Lut”. Percebi que eles é que estão errados, eu não. E expliquei isto a todos os gays muçulmanos que conheci, e alguns deles sentiram algum conforto e viram que aquilo que eu dizia tinha alguma lógica. 

A minha melhor amiga, na Turquia, andava comigo na universidade, e depois de dois anos de amizade ela continuava a perguntar-me, “não estamos nos nossos países, porque é que não tens uma namorada, sê livre”, e eu olhava para ela, digo, não digo, digo, não digo, e um dia disse-lhe.

Ela ficou muito tipo “wow”, e fez-me imensas perguntas, do estilo, o que é que sentes quando vês uma rapariga, o que é que sentes nanana, esse tipo de perguntas, porque para ela era uma coisa nova, porque falávamos o mesmo dialeto. Ela estava assim, “um que fala como eu, com as mesmas tradições que eu, e é assim, existe mesmo?

Conheci um rapaz quando estava na universidade e comecei uma relação com esse rapaz. Nessa altura, a minha família não sabia com clareza que eu era homossexual. Quando as coisas não deram certo com o meu ex-namorado, e ele também era um rapaz Árabe, e conhecia bem as tradições de famílias Árabes, como a situação é… e para me magoar… não fui eu que fiz o meu “coming out” à minha família, foi ele

E desde esse dia, há talvez 2 anos, que não falo com nenhum deles, com a minha família. A última frase que me lembro de ouvir a minha mãe dizer – nesse dia, eu falei com a minha mãe, não falei com o meu pai, foi algo assim, “preferia que não tivesses nascido”, “preferia ver-te morto”. Foi uma coisa assim. Desliguei o telefone e continuei com a minha vida.   

É claro que nessa altura eu não era muito forte psicologicamente, mas era como estar num ringue de box, e levas um murro da pessoa à tua frente, e aguentas, mentalmente. Eu era assim.

Sempre tive a motivação de que tudo vai correr bem, de que tudo vai correr melhor, como quando tinha a minha irmã, e ela dizia-me que um dia tudo ia ficar bem, para não me preocupar.

Quando tinha uns 18 anos, perdi a minha irmã para as tradições da família, ela foi casada, sem escolha, foi a minha família que escolheu.

Depois da Turquia, vim para Portugal, mas passei uns meses no Luxemburgo. Foi lá que conheci o psicólogo errado, era um homem mais velho, nunca me vou esquecer dele. Ele disse-me, “o teu país é como o Irão, há pena de morte para homossexuais?”, e eu disse, “não, é um crime, mas podes ir para a prisão”, e ele disse-me, “talvez a prisão seja um bom lugar para ti”.

Eu olhei para ele e fui-me embora daquele psicólogo, e quando não consegui resistir a esta situação, tudo na minha vida… Comecei a pensar em suicídio. Nunca penso nisso a sério, às vezes na escola secundária pensava nisso, mas não era a sério. Lembro-me que naquele dia foi a sério. E passei um mês e uma semana no departamento de psiquiatria para tratar da minha depressão. 

Esse mês foi um dos bons momentos da minha vida, conheci muitas pessoas, e muitos bons enfermeiros, que me entendiam, que estavam do meu lado. Estava a descobrir pessoas que eram boas. Não viam nada de errado em mim. 

Esse sentimento, quando explicas uma coisa, e tens a sensação de que não és uma pessoa errada no mundo, é a melhor sensação que um ser humano pode ter. 

Depois do departamento psiquiátrico, conheci uma psicóloga, uma mulher mais velha, às vezes ainda falo com ela, ela foi boa para mim, e ajudou-me muito. 

E em junho do ano passado, quando vim para Portugal, também comecei a conhecer esse tipo de pessoas, por exemplo no CPR [Conselho Português para os Refugiados]. A psicóloga não era como uma psicóloga, era como uma amiga. 

A coisa nova é, todas as pessoas, todos os gays que conheci, portugueses, eles dizem, “tinha um ex-namorado que ia lá casa, blablabla, e a minha mãe sabia”, para mim isto foi estranho. Tipo, como assim? A tua família sabe que és gay? Foi uma coisa nova. Mas ao mesmo tempo boa e tranquila. Porque até hoje, quando digo que sou requerente de asilo, ou que sou homossexual, e eu digo isso abertamente, nunca tive uma reação mesmo má

Quando vives com pessoas que não são tóxicas, que têm mais ou menos a mesma mentalidade, isso é o que significa viver tranquilamente. 

Hoje tenho 24 anos. Descobri alguns talentos ao longo disto tudo, por exemplo, consigo entender os outros, ajudar pessoas que têm problemas. 

E hoje, ao contrário de antigamente, quando alguém que não me conhece diz, “aquela rapariga é bonita”, eu consigo dizer facilmente, “não gosto de raparigas”. Antigamente eu não imaginava que um dia viria a dizer esta frase facilmente, ser abertamente homossexual. 

Ao longo da minha vida, quando saía com rapazes do médio oriente, que conhecia nas aplicações, nas gay apps, e quando falávamos, eu via e sentia que não era o único a viver esta luta, com a nossa comunidade e família. O que eu quero fazer um dia, é fazer alguma coisa pelos homossexuais destes países. Porque os homossexuais de países abertos, Portugal, a Europa, não é bem a mesma coisa, não é a mesma luta que é a oriente. E eu desejo vir a ajudar todas estas pessoas LGBT um dia, e desejo que elas não percam a esperança.  

Não devia haver um único homossexual na Terra a sentir-se triste. Todos os homossexuais deviam ser felizes. Toda a comunidade LGBTQ+-. É tudo. 

Karim

Nota: texto originalmente publicado pela ambigular, onde poderão também escutar a voz de Karim.

Por Participante

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