Como se constrói uma identidade sonora? Discussão sobre o vídeo musical LÈVRES ROSES, Electrosexual feat. Nicky Miller

Como se constrói uma identidade sonora? Discussão sobre o vídeo musical LÈVRES ROSES, Electrosexual feat. Nicky Miller.

Electrosexual tem-nos habituado a exercícios estéticos mordazes e atrevidos, o novo vídeo musical não é exceção. LÈVRES ROSES, ou os lábios rosa, tem realização, voz, letra e guião de Nicky Miller, além da participação de Ixa no ecrã. A premissa é dada pelos autores e lê-se no Youtube: “na sua ronda ao cemitério, um vigilante noturno tropeça num par de corpos mortos, vendados e trancados num beijo”. Mais fundo há ainda uma mensagem, a “ode dedicada a trans-amantes” e um “convite à auto-libertação”. A obra, que está a passar nos festivais de cinema queer como uma curta-metragem, merece a nossa atenção. O que significa, então, o beijo cor-de-rosa e a que soa essa libertação?

Abre-se uma cortina, desvela-se um corredor escuro e iluminado por holofotes verdes. O espaço é estranho e desconfortável, o guarda noturno/Electrosexual caminha, algo ansioso, até ao fundo. Aí, o verde substitui-se por vermelho, e a personagem cruza-se com dois corpos no chão, abraçados como uma estátua única. A câmara mostra-nos, como se fosse o olhar do guarda, o foco em várias partes destes corpos seminus, sensuais, até que a cena muda e o guarda observa Nicky e Ixa em cima de uma maca. Nesta introdução, a dissonância dos sons fazem-nos sentir o temor da história, há uma ambiguidade que trespassa. O som sintetizado sustido que se escuta, e que em linguagem de produção se designa de pad, é como o próprio termo inglês designa, um tapete ou almofada sobre o qual descansam os outros sons. Aliás, a metáfora não é despropositada, porque a sua natureza é vocal, como se fosse um requiem que sustenta as almas dos corpos mortos. No final do vídeo, o mesmo pad tem uma sensação diferente, agora no espaço exterior, recorda-nos um sopro do vento que uiva. Quer seja música, efeito sonoro ou vento, o importante é que serve não só para ambientar como conduzir à sensação de que existe algo escondido, que observa e nunca foi revelado.

Electrosexual designa esta música de acid e ambiente. O segundo é fácil de perceber, a sua qualidade é soturna, de uma batida suave que, se convocar à dança, é de um baloiçar vagaroso, mas não menos envolvente. Diria até que é oscilante, e por isso talvez seja sexualizado, o que coloca o corpo, os nossos que ouvimos e os dos atores, na música e no vídeo. Estar no género acid também traz conotações culturais decisivas para a obra. Discutem-se as origens do nome ‘acid house’, há quem refira que é uma referência comemorativa às drogas psicadélicas que os seus ouvintes consumiam, outros dizem que vinha de uma forma de calão depreciativo para ‘roubar’, devido ao uso de sons de outras artistas. Dado o contexto do vídeo, a primeira definição é a mais adequada, principalmente se considerarmos que o ‘ácido’, enquanto substância que corrói, pode servir de metáfora para imaginar como a experiência da escuta musical permite aos corpos uma libertação das suas correntes. 

Seria de esperar que temas sensíveis e estéticas desafiantes tocassem em tópicos ambíguos. Este não é exceção. O beijo, ou o toque em geral, está neste vídeo no centro de uma polémica da contaminação, quer se trate das várias doenças historicamente associadas à comunidade LGBTI+ (nem por acaso, a atual Monkeypox parece estar no mesmo caminho, se é que já não está, de se tornar mais um vírus associado à comunidade…), quer pela própria ideia de que ser queer “pega-se”. Curiosamente, a música, e as músicas e músicos, têm sofrido um estigma semelhante ao longo da história. Desde pelo menos a Grécia Antiga que já paira o receio de que certas músicas possam tornar as pessoas efeminadas. Por isso é que o musicólogo Philip Brett dizia que a música cai muitas vezes no espectro da “substância perigosa” que desvia as pessoas do seu caminho. Não há nada de natural nisto, há até uma leitura romantizada e mística que, se regressarmos a LÈVRES ROSES, é descrita de modo muito claro. Se é a música que ‘contamina’, ou o toque dos corpos, não sabemos, mas a discussão está lançada para que depois seja subvertida. 

Só é possível voltar a coisa pelo avesso se, como na camisola, soubermos onde está o interior e o exterior. Ou melhor, se soubermos como se deve vestir (porque o avesso da camisola é uma convenção das nossas sociedades, nada me impede de começar a vestir ao contrário!). Portanto, e as feministas insistem muito nesta ideia, só posso subverter o patriarcado, a heteronormatividade e, no limite, os discursos de poder, se primeiro pegar neles – o exterior –, para depois os subverter. Neste caso, é estratégico que Nicky Miller no vídeo, e Electrosexual na música, não esqueçam este estereótipo da contaminação, pois só assim são capazes de reverter a sua conotação pejorativa. É aqui que aparece a dimensão de auto-liberação, de que o toque não é uma contaminação, mas antes uma abertura do cadeado: como a música que leva ao êxtase (com ou sem drogas, não importa para o caso). Do medo e do receio, surge a possibilidade de acesso a outras características identitárias, a uma descoberta do eu que as pressões externas da sociedade tendem a impedir. Não é uma produção e deflexão do problema, nem naturalização do fenómeno, policiamento dos limites do corpo ou um pânico trans. É, sim, um questionamento do que significa o sistema binário, sexo/género, homem/mulher. Há uma aceitação de tudo o que ultrapassa os limites, os limites até da morte, e a construção de uma tensão narrativa e dramática que é reforçada pela estabilidade musical que a acompanha. Somos levados numa viagem que nunca termina, porque a identidade é isso mesmo, uma viagem, de preferência rosa e cheia de beijos…

O beijo de batom, as unhas de gel, a maquilhagem, ou a cor rosa, ainda transportam muitos de nós para o campo da feminilidade. Electrosexual, Ixa e Nicky envolvem-se nestes códigos, sensualizam-nos, erotizam-se com eles, sem querer fixar uma norma, sem afirmar abertamente, nem negando, se o rosa beijo torna-nos mulher. Salienta-se, através da música instrumental, da voz, das imagens, o que estaria e está anexo ao corpo, os traços históricos e biológicos que dizem, assim que nascemos, ‘esta é mulher’, ‘aquele é homem’. A voz de Nicky é aqui um veículo do desejo, da identificação, e de um levar para além desta história. Na sua reverberação, coloca-se no plano do sonho, do irrealizado que se espera ver concretizado. A musicóloga Elizabeth Wood chamaria a esta voz que nos desafia para a transgressão da binaridade de género uma “bivocalidade”, “ilusão bissexual”, e até sugere o termo de “transformismo sónico”. Nenhuma destas palavras pretende abusar de termos que definem as nossas posições no mundo, apenas quer colocar a música também ao serviço de uma reflexão sobre quem nós somos.

Para isso, talvez se justifique a presença, na descrição do vídeo, de adjetivos como “sultry”, o quente ou sedutor. Também há o “poetic”, o que é relativo à arte da poesia, aos atos inspirados, sublimes ou ideais. Com eles, o ouvinte é desafiado a escutar representações sónicas de luxúria, a pensar como a música pode conter ou ser uma história, participar nesta história. LÈVRES ROSES é tudo isto e muito mais. Poderíamos questionarmos se os corpos de Ixa e Miller, desnudados e tocados por Electrosexual, não reificam o que é ser trans, não os põe ‘a jeito’ de um olhar sexualizador, patologizante, medicinal, repressor. Para uns talvez seja, para outros (como eu) não o é. Como diz Judith Butler, é necessário arriscar para subverter, ‘pôr o dedo na ferida’, e nas artes mais abstratas e abertas a interpretações, como é a música e o vídeo musical, nada é apenas uma coisa só.

Por André Malhado

Socio-musicólogo, músico e acafã de ciberpunk.

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