“Só recusando o silêncio”: as vozes de Fado Bicha na cena musical queer lisboeta

“Só recusando o silêncio”: as vozes de Fado Bicha na cena musical queer lisboeta
Fotografia por ⓒ Daryan Dornelles

No passado dia 29 de junho, pelas 14H00, tive oportunidade de entrevistar, com o Pedro Carreira, as artistas que formam a banda Fado Bicha. Com Lila Fadista e João Caçador, falámos sobre um conjunto de matérias atuais e muito pertinentes para a música portuguesa e o que significa a sua cultura. É importante regressar a esta conversa. Este texto que vos apresento não é um exercício de transcrição, mas antes uma reflexão posterior, conduzida por citações. É também, ou acima de tudo, um modo de estabelecer um diálogo entre o que tem preocupado os estudos científicos da música (em que me incluo) e a realidade das coisas. De que é feita, então, a arte musical portuguesa? Em que moldes certas vozes queer são capazes de a habitar?

O exemplo de Fado Bicha mostra que a cultura do silenciamento na sociedade portuguesa ainda persiste no pós-25 de Abril. Visto de fora, parece que o número de artistas que fazem música em Portugal a partir de perspetivas queer, ou abordando tópicos de género e sexualidade em geral, é reduzido. Mas talvez isso não seja um facto. É, precisamente, uma visão de fora, perpetuada devido à fraca difusão que existe. Quando questionadas sobre se existe uma cena musical queer em Portugal, Fado Bicha não tiveram qualquer dúvida em identificá-la e rever-se nela: “Há artistas LGBTI a fazer música em Portugal desde sempre, mas um conjunto de pessoas que cria música a partir dessas identidades não as escamoteando, antes pelo contrário, assumindo-as e usando-as plenamente enquanto ferramenta e objeto de trabalho é algo recente tanto em Portugal como no Brasil.” Não é por acaso que neste álbum, Ocupação, se abrem as portas à diversidade e à força coletiva, pois é disso que este meio musical se trata. Com a articulação possível e profícua entre trabalho calculado e espontaneidade, as pessoas que trabalharam nestas músicas refletem, de certo modo, o que é fazer ‘música queer’ (se quisermos usar o termo para simplificar a identificação do fenómeno) em Portugal. Ou pelo menos em Lisboa. Juntar-se e fazer música, algumas vezes sem partilhar as intenções, é o que Lila explica na sua relação com Gisela João“foi bonita a forma, sem saber o significado original [da minha letra] e dar-lhe uma visão minha.” Da união das pessoas e a entreajuda forjam-se alianças, dá-se, até, uma nova função à curadoria musical. Se, no museu, o termo enaltece o espaço porque se assume a presença de um profissional que sabe como escolher e reunir obras, porque não havia a cultura queer de fazer o mesmo? “Fizemos no Finalmente, no período de restrições pandémicas à atividade artística, curadoria de concertos de artistas queer todas as semanas. Foram 20 concertos onde fizemos os convites e também uma parte da produção dos concertos.” Fado Bicha é também isto, são um farol que, em Lisboa, aponta caminhos na direção de quem faz música, daquelas artistas que também merecem ser ouvidas. 

Talvez por isso sintam de forma tão intensa o modo como alimentam mutuamente arte e política. João Caçador diz que “essa é uma preocupação que temos muito presente. Trazemos para nós uma responsabilidade daquilo que fazemos. Sentimos isso muito nas entrevistas que fazemos, grande parte delas centram-se à volta da questão política e menos da questão musical.” Mesmo que existam pessoas cujos valores ou referências sejam alicerces de esperança em que comunidade LGBTI+ se apoia, o silêncio é forte. Isso nota-se em Fado Bicha, “tal como ir ao Festival da Canção, permite-nos romper a ilusão e a falácia de que a aceitação das pessoas LGBTI+ em Portugal já foi conseguida e que está tudo bem. Só recusando o silêncio é que qualquer pessoa LGBTI+ consegue de facto escancarar e pôr a nu todas as tensões e toda a violência que ainda existe. Não dá para mudar nada se isso não for do conhecimento de toda a gente.” 

Faz-se, nesse gesto de recusa, uma apologia da história, mas não é uma história qualquer. É um recontar do que está nos livros de história da música, e a musicologia tem, aqui, uma responsabilidade. Ocupação é isso feito pela pena das próprias artistas. Para devolver à história o que nela faltava, escava-se, lembra-se, cria-se uma espécie de cancioneiro do século XXI que possa ser recordado no futuro. Ocupação olha para o futuro, sem esquecer o passado que ficara por cantar/contar. É uma questão de justiça, mas também de fantasia. De cura, e igualmente de catarse. É formar um outro cânone musical, validado por quem se revê nele: “achámos que seria interessante artisticamente convocar essas pessoas. Se não podemos mudar o passado podemos fazer uma justiça poética, simbólica, histórica, como é o caso do Valentim de Barros em que ele numa canção em 2022 pode dançar para sempre. Poder resgatá-lo do hospital e pô-lo a dançar no disco.”

Uma das função da comunicação social deveria ser, e é até certo ponto, estar a par destas matérias. “Ficamos felizes por hoje em dia (com o lançamento do álbum) os meios de comunicação social em Portugal nos reconhecerem às duas como vozes legítimas a reflectir sobre uma série de questões relacionadas com os temas queer. E não é que nós precisemos dessa legitimação, mas dada a escassez tão grande de oportunidades das pessoas queer falarem das suas questões e fazerem reclamações no meios de comunicação social generalistas, é óbvio que para nós é muito bom darem-nos essa possibilidade e nós podermos fazê-lo.” Ainda assim, e a meu ver algo de lamentar, as entrevistas feitas a este grupo são quase sempre centradas nesta sua ação política, deixando de parte o seu rico trabalho musical. A sua música é um veículo político muito potente, por exemplo, quando falamos das mensagens que estas transmitem. O que são, então, as chaves de leitura do seu álbum Ocupação? Aqui, coloca-se a questão se a arte deve ou não ser explicada, ou, antes, se as artistas devem lançar a primeira pedra na formulação desse saber. Por um lado, a utilidade destes textos foram, no backstage, uma parte do processo criativo com que Lila Fadista explicava a João Caçador alguns aspetos das suas letras: “É a Lila que escreve as letras e eu tenho acesso privilegiado pois ela explica-me coisas que não percebo. E acho tão interessante as letras que ela faz como a forma como as explica. E então achei que era uma oportunidade perdida não haver essa explicação.” Por outro lado, são também uma ferramenta política e de ativismo, porque é a relação entre a música, a palavra e o significado que comunica aos públicos várias mensagens. 

É curioso salientar que Fado Bicha identificam que o álbum é um ponto de viragem na sua carreira. No início, a música era fundada numa maior liberdade, o erro a experimentação e a espontaneidade formaram a linguagem musical exploratória que definia, e ainda define Fado Bicha. As artistas reconhecem isso: “Havia espaço para o erro e para a experimentação. às vezes tenho saudades de simplesmente pegar na guitarra 5 minutos antes do concerto começar, amplificador no chão, cabo ligado e se nos enganassemos recomeçavamos a música.” Se, por um lado, “o erro é a experiência queer”, explica-nos Lila, há um conjunto de fatores que devem agora ser tidos em consideração. O que se explica pela dimensão de profissionalização que agora faz parte do seu percurso profissional, com mais pessoas envolvidas na criação artística, também é porque “Hoje em dia os concertos são preparados de uma outra forma, temos uma terceira pessoa em palco connosco e uma panóplia de instrumentos o que torna essa experiência menos espontânea e exploratória, no entanto conservamos ainda esses aspetos com a aceitação das nossas próprias limitações.”

Então, se a cena musical queer lisboeta existe, por que as suas pessoas não são, então, mais conhecidas? Fado Bicha traçam algumas razões: impedir o acesso aos espaços ou às condições para criar; continuar a perpetuar um “manto de invisibilidade”; a existência de uma “rede de pessoas e instituições que não são muitas delas particularmente sensíveis à música feita por pessoas queer”; a “falta de brio em saber o que está a ser feito na música em Portugal, talvez uma falta de autoestima”. Em suma, há um condicionamento do que valorizamos, sobre o que falamos e, mais do que isso, o que decidimos ouvir. Ou seja, o que parece evidente é a necessidade de termos escolhas conscientes sobre o que ouvir, porque a cena musical não se constitui apenas pelas artistas, faltam as suas ouvintes, nós. Portanto, é imperativo que a comunidade LGBTI+ e as pessoas aliadas trabalhem para dar voz à arte musical, para que juntas possam recusar e romper com o silêncio.


As primeiras datas do concerto de apresentação do álbum OCUPAÇÂO já são conhecidas: dia 27 de outubro, no Porto, no M.Ou.Co, e dia 2 de novembro, em Lisboa, no Teatro Maria Matos! 

Por André Malhado

Socio-musicólogo, músico e acafã de ciberpunk.

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