O gosto não se discute? A música queer como ato político em Portugal

O gosto não se discute? A música queer como ato político em Portugal - por André Malhado
Imagem baseada na de Caleb George.

Desde 1982 que a homossexualidade deixou de ser um crime em Portugal. Antes, os mecanismos de repressão estatal policiavam e puniam publicamente as identidades dissidentes face à norma: a heterossexualidade. Entre os aparelhos de regulação e ‘justiça jurídica’, havia formas de censura à música que tentavam impedir a representação do que apelidavam de ‘sexualidades dissidentes’. Com a despenalização, a expressão pública de sexualidade em Portugal passou a ser permitida e, com isso, aumentaram as manifestações musicais ligadas à comunidade LGBTI+. A expansão das linguagens artísticas que usam imaginários queer, das musicais ou audiovisuais às dramáticas, puderam assim iniciar um longo percurso de afirmação social e de mostruário de outras políticas identitárias. Dito por outras palavras, a representatividade na música, onde me irei centrar neste texto, forneceu uma âncora de resistência mas não suprimiu a violência, esta tornou-se mais perspicaz. E quem ouve esta música? A maioria de nós conhece o provérbio português: o gosto não se discute. Será? Então porque os ouvintes quando defendem que as músicas que gostam são queer manifestam o que é e não é, o que pode ou deveria ser? Uma pista: gostar de música também é um ato político.

As subtilezas do preconceito através da arte

A representatividade é a ideia de que há pessoas a quem lhes é consignada a tarefa de agir em nome do grupo social que as escolheu. Na música, parte-se do pressuposto que se Lila Fadista ou Filipe Sambado são queer, então, representam um público igualmente queer. Os papéis desempenhados pelas artistas e os seus ouvintes forjam então laços emocionais, e a música serve uma necessidade social evidente, a de ser a voz de uma comunidade cujos corpos nem sempre têm um espaço para se expressar. Não é por acaso que um dos primeiros estudos musicológicos dedicados a este tema tem o título Queering the Pitch, numa metáfora algo provocadora de que é necessário incluir aquilo que a sociedade considera que é desafiador e desafinador. Agora, além de defendermos o que é a boa e a má música para cada um de nós, defendemo-la publicamente com base na ideia de que ‘é boa sim, porque é feita por um corpo queer, como o meu’.

A discussão pública sobre a sexualidade em Portugal é uma atividade social relativamente recente. Em 2004, o termo ‘orientação sexual’ aparece na Constituição Portuguesa através a “Lei de Revisão da Constituição” de 2004. Num estudo de 2015 levado a cabo por Filipe Vendrame, diz-nos que isso foi fundamental por mostrou finalmente que o Estado português passaria a reconhecer esse marcador identitário dos cidadãos. Contudo, isso não significa que todas as sexualidades tenham significados positivos na nossa sociedade. No estudo de Patrícia Bota, com trabalho de campo realizado entre 2013 e 2016 em Portugal, fica evidente que “o preconceito contra as pessoas não heterossexuais tornou-se mais subtil, ou seja, assume atualmente formas menos explícitas, para se adaptar ou ‘escapar’ às normas sociais igualitárias”. Como sabemos, cada música pode significar várias coisas para diferentes pessoas, e também por isso é fortemente marcada por situações de discriminação, mesmo onde menos se espera. 

Alguns dados mostram-nos que uma das subtilezas é a invisibilização feita pelos meios de comunicação social. Em 2007, Paulo Côrte-Real, então membro da direção da ILGA, declarava que “a publicidade [portuguesa] está claramente aquém do cinema, da televisão ou da música neste aspecto”, de dar visibilidade e representação à comunidade LGBTI+. O seu ponto mantém-se anos mais tarde, quando em 2017 os músicos João e Luís dos Viva La Vida dizem numa entrevista que o seu casamento não teve qualquer cobertura mediática. Aliado a este apagamento da história dos que fazem a música há, por outro lado, atos de violência em que a música é usada como arma. No relatório de 2013 fornecido pelo Observatório da Discriminação da ILGA, pode ler-se que existe a “[p]rodução massiva de literatura ou música abusiva e que é enviada para mais do que um/a destinatário/a, incluindo casos de mailings massivas ao invés de um só caso de email discriminatório (que deveria ser enquadrado em comportamento abusivo ou ameaça dependendo do seu conteúdo)”. Ou seja, uma música que é contrária aos gostos, ideologias e posicionamentos no mundo, serve para oprimir e ofender.

Fonte: “E se fosse contigo” de Carlão e Boss AC

Pode o valor político sobrepor-se ao gosto musical no hip hop?

Nos seus estudos, o investigador Fabian Holt identifica que a música popular tem uma relação direta com o dia-a-dia de várias pessoas. Um sítio onde isso se verifica é nos textos do hip hop, muitos estão focados em problemas e disputas sociais. Apesar do hip hop estar, aos poucos, a tornar-se um espaço de nuances e diversidade, ainda não é o género mais evidente quando pensamos na comunidade LGBTI+. “E se fosse contigo” de Carlão e Boss AC é um caso paradigmático português porque afasta-se da norma e discute a violência exercida nos corpos segregados. Num artigo de opinião, o ativista dos direitos LGBTI+ Nuno Miguel Gonçalves considera que a música é um dos exemplos de uma posição política de apoio à comunidade, ainda que continue um “género maioritaria e historicamente homofóbico”. Se lermos os comentários de Youtube feitos ao vídeo musical desta música, alguns utilizadores dizem desejar que a obra seja usada no sistema de ensino português. Outros, que consiga promover uma transformação social que ainda é necessária e urgente. Questiono-me: estas pessoas gostam da música, do vídeo, do tópico em que se revêm, ou de outras coisas? Numa das opiniões, vi uma pessoa que dizia que não gosta da música, mas valoriza-a pela sua posição política. Se fazer e ouvir música assenta numa teia complexa entre estética e ética, fica por esclarecer qual é mais valorizada, por quem e porquê. 

Fado e o problema de gostar de uma ‘tradição’ cultural (heteronormativa) portuguesa

Não é novidade para ninguém se disser que o fado tem uma base cultural normativa, já que muitos dos seus códigos foram construídos durante o Estado Novo. Estereótipos aparte, hoje assistimos à sua expansão com fenómenos como Fado Bicha que rasgam o padrão e tentam afirmar-se no interior de uma cânone a que não pertenciam. Para mim, isso é muito evidente quando estas artistas se apresentam e são apresentadas por expressões como “silêncio, que se vai cantar o Fado Bicha” ou “tudo isto existe, tudo isto é bicha, tudo isto é fado”. As duas frases, chavões do fado há vários anos, são reconhecidas pelos seus amantes e, ao mesmo tempo, criticadas por muitos por se atreverem a incluir uma palavra (bicha) com uma história forte na língua portuguesa, e que tem servido para acusar, violentar verbalmente e humilhar homens homossexuais.

As Fado Bicha sabem disso e isso também as motiva. O que acontece quando se substitui a história d’O Namorico da Rita por uma história gay, “O Namorico do André”? Para os mais puristas, mexer nos clássicos do fado é uma afronta à tradição. Para quem gosta de fado, a música até pode ‘soar bem’, mas a homossexualidade entra em conflito com a sua forma de ver o mundo. Para estes, é o agridoce na boca dos que não gostam de amargo. E a partir do momento em que estas pessoas vão para o Youtube falar abertamente sobre o que gostam ou não, abrem-se as portas para a discussão sobre o que é afinal fado. Será que “O Namorico do André” deixou de ser fado porque os personagens da história são dois homens? Se sim, porquê? Talvez seja necessário recordar que a ‘tradição’ é uma construção social, nada ‘nasce espontaneamente das árvores’ (pelo menos para os que não acreditam no mito da criação), é criado por um grupo de pessoas e repetido até que se aceitem os seus rituais. 

Fonte: “O Namorico do André” das Fado Bicha

Os choques sociais: entre a explicitude, o prazer musical e o desgosto queer

Um dos fenómenos que garante que uma forma de queerness é aceite e outras não, é a diferença entre representação e experiência. O musicólogo Stan Hawkins chama isto de “ser o queer” e “representar o queer”, e são mecanismos que ora são imediatos, ora são cuidadosamente calculados por campanhas de marketing musical. Nisto, se é evidente que o ‘ser’ queer pertence às artistas que se assumem publicamente como tal, o ‘representar’ é mais instável. Diz o mesmo estudioso que a queerness na música popular é aceite publicamente quando a sua presença coabita e não entra em conflito com códigos normativos. No fundo, é manter no mesmo espaço a norma e o desvio, o que até é útil quando se pretende subverter: primeiro mostra-se o que é socialmente reconhecido, e depois dá-se uma machadada e mostra-se outra perspetiva! Outra metáfora equivalente é o corte de uma das cabeças da hidra, ao mesmo tempo coloca-se lá um conjunto de sementes para que, quando voltar a crescer, seja diferente do que era.  

Ao longo da história da música, inúmeros relatos de autores insistiam no poder e perigo da música. Lembra-me, por exemplo, a República de Platão que acautelava sobre o uso de músicas que saíssem fora das regras, porque conduzia “inevitavelmente à libertinagem nos costumes e à anarquia na sociedade”. Esta dimensão de perigo iminente, que a musicóloga Sheila Whiteley identifica também na aceção de desejo sexual, aparece constantemente nos debates sobre gostar ou não de música dita queer. Só que, nos vídeos musicais desde a MTV, a beleza e a sexualidade tornaram-se fatores primários na carreira das artistas. Então chegamos ao dilema do ‘ser ou não ser, eis a questão’, ou antes: mostrar-me ou não mostrar-me, eis a questão. 

Em Portugal, o grau de representatividade da comunidade LGBTI+ em vídeos musicais tem vindo a crescer exponencialmente na última década. Contam-se artistas como SLR, Filipe Sambado, Rodrigo Vaiapraia, pássaromacaco, The Happy Mess, Mara Nunes, As Docinhas, Symone de la Dragma, e muitos outras propostas. Mas para discutir o problema do ‘ser demasiado explícito’, regressemos a”O Namorico do André” das Fado Bicha. O Youtube não permite conteúdos sexualmente gratificantes, o que é pornográfico ou mais explícito é normalmente denunciado e removido da plataforma. Portanto, a nudez dos atores e a sugestão de sexo oral e anal do vídeo estão enquadrados nos parâmetros do Youtube. Mas isso não impede os muitos comentários que insurgem-se contra o seu conteúdo. Dizem que é de ‘mau gosto’, uma ‘falta de respeito’, que ‘não se vêm heterossexuais a fazer estas figuras’. Há até quem afirme que a música é boa ‘mas a cena dos gays não curti muito’, outra forma de ir ao encontro do que tínhamos no hip hop: a posição política e o gosto musical entram em conflito. 

Um dos principais fatores de choque é quando quem gosta de fado acha que a sexualidade não é um tema que pertença ao género musical. Por exemplo, ‘pegar em fado e fazer um videoclip de 2 homens a ter sexo é desrespeitar a nossa cultura’ porque a dita ‘tradição’ do fado está a ser subvertida. Para uns, gostar de fado é lutar pela manutenção de uma cultura heteronormativa que é baseada num conjunto de valores. Para outros, é a formação de outros gostos, no interior das pautas e agendas da comunidade LGBTI+. Reforce-se que a ideia de ‘nossa cultura’ é uma falácia porque não é a de todos, é só de alguns. Assim, forma-se um ‘desgosto queer’ que assume o seu duplo sentido (e o meu jogo de palavras é propositado). Por um lado, é ‘não gostar’ destas mensagens, imagens e do que a música lhes comunica. Por outro lado, é uma ‘mágoa’ provocada pela ferida nos sentimentos e ideologias, aspetos interligados e indissociáveis, que uma pessoa tem e não aceita serem contrariados. Resumindo, os gostos discutem-se, sim, porque nunca são apenas individuais e subjetivos, mostram uma visão e posição no mundo, são sociais, logo, são políticos.

Por André Malhado

Musicólogo, músico e comentador cultural.

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