O saudosismo

Fotografia por Moritz Schumacher.

Para muitas pessoas, o Holocausto é um tema estudado na sala de aula, que é e/ou foi apenas memorizado para o teste de avaliação. Para outras é algo que, deve ser ignorado ou simplesmente não pode ser assunto para discussão. Ainda assim, algumas de nós dedicam parte do seu tempo a trabalhar ativamente para que jamais algo desta natureza volte a se repetir.

A verdade é que, independentemente de crermos, conhecermos e ignorarmos, esse momento abominável de facto existiu.

O antissemitismo já estava instaurado e foi estrategicamente incutido até à ascensão ao poder de Adolf Hitler. A crença de que o povo alemão era superior e tinha o poder absoluto levou ao genocídio de inúmeras vidas. Os grupos perseguidos, aprisionados e aniquilados pelos nazistas foram os judeus, ciganos, portadores de necessidades especiais psicomotoras e mentais, poloneses, afro-germanos. Igualmente eram considerades opositores políticos os homossexuais e as Testemunhas de Jeová.

Por vezes temos a sensação de que aconteceu num tempo remoto, mas a linha cronológica indica-nos que é bastante recente.

Igualmente podemos entrar num processo de autossabotagem coletiva, digamos, fazendo-nos acreditar que foi um período isolado ou único. Lastimavelmente não foi a única ditadura que assolou milhões de vidas, mas certamente foi uma das mais cruéis na face do planeta.

Experimentos médico-científicos aplicados em diversas pessoas, nos campos de concentração foram um dos marcos horrendos do nazismo. Trabalho escravo e forçado, câmaras de gás, entre outras formas de aniquilação e abate humano compuseram as estratégias do grande plano, a solução final.

Atualmente levantamos a questão: Como tudo isto aconteceu? De que forma é algo desta dimensão se instala? Vejamos, em algumas zonas do globo, a direita e a extrema-direita ganham força, de forma dissimulada. Como exemplo, nos Estados Unidos da América, as eleições manipuladas pelo ex-presidente Donald Trump, assim como o golpe de Estado do ex-presidente Jair Bolsonaro. E não, não deveríamos ficar tão surpreendidos com o ocorrido, afinal, Bolsonaro já ameaçava instaurar uma ditadura há muito tempo, bem antes até de assumir a presidência da república. Durante uma entrevista à Jovem Pan (emissora brasileira), em julho de 2016, Jair Bolsonaro afirmou: “O erro da ditadura foi torturar e não matar”. Naturalmente que jamais o ex-presidente iria reconhecer a derrota nas eleições presidenciais de 2022, mesmo que ela tenha sido alvo de tentativa de manipulação dos votos e/ou impedimento de eleitores comparecerem às urnas. Em setembro de 2022, o ex-presidente (Jair Bolsonaro) foi condenado pelo Tribunal Internacional Permanente dos Povos por crimes contra a humanidade cometidos durante a Pandemia Covid-19 e indicou que uma outra política teria salvo pelo menos 100 mil pessoas.

A ideologia totalitária manifesta traços muito complexos e insalubres, levando a crer que a pessoa tirana é absoluta e portadora do poder único e capaz de governar. Assim sendo, em território nacional, partidos como o Chega propagam fake news e discursos de ódio, na tentativa de, assim como Adolf Hitler fez, implementar uma ditadura.

Entre outros grandes tiranos, além dos acima citados, Benito Mussolini, Francisco Franco, António Salazar, Josef Stalin, Idi Amin Dada e Muammar Gaddafi compõem a lista dos maiores ditadores da história.

Estaríamos nós completamente livres de uma nova ditadura? De forma alguma, pois a extrema-direita atua de forma presunçosa, silenciosa e engenhosa e, não raro, nem nos apercebemos.

Vale lembrar que, no Parlamento Nacional, o partido liderado por André Ventura aos poucos ganha mais seguidores e notoriedade. Será que o Hitler e o Mussolini ascenderam de forma diferente? 

Entre outros traços e semelhanças desse período encontra-se a Pandemia da Gripe Espanhola… Afinal, não estamos nós a vivenciar a Pandemia da Covid-19? 

Na Itália, Giorgia Meloni, conquistou a terceira maior economia da União Europeia, nas eleições legislativas, país que, pela primeira vez desde 1945, está a ser governado por uma liderança pós-fascista. Ressalto que, Giorgia Meloni é uma admiradora assumida de Benito Mussolini, líder do regime fascista italiano. 

O nacionalismo é um dos traços comuns de uma ideologia totalitária e este circula entre nós de forma plácida e astuta.

“O nacionalismo é um processo de isolamento que provoca guerras, miséria e destruição.” – Jiddu Krishnamurti

Insistimos no retorno da ditadura salazarista, pois afinal “ele foi um bom homem” e/ou “naquela altura, não havia nem metade destes problemas.” Sublinho que o salazarismo foi a mais longa ditadura da Europa Ocidental, no século XX (48 anos).

Ressalto que, no Estado Novo algumas das suas características foram: antidemocrático, anticomunismo e antiparlamentarismo, entre outras. Durante a ditadura, o Estado (administrado pelo tirano Salazar) colocou-se como mediador das relações entre empregador e funcionário, de forma a enfraquecer os sindicatos e os conflitos entre as classes.  

A PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) exercia duas funções essenciais, a a da repressão e da administração. Esta polícia prendia todes que se manifestassem contra o regime em vigor, bastando apenas uma denúncia sem sequer confirmar a veracidade do facto. Neste órgão do estado, as pessoas detidas eram interrogadas e martirizadas nas “Salas de Risco”. Alguns recursos eram utilizados, dos mais simples aos mais sofisticados, entre eles, as algemas elétricas e as salas de tortura. Muitas vezes as pessoas detidas eram esquecidas em cavernas sem quaisquer condições, sem luz, cheias de humidade e ainda sem qualquer espaço para as necessidades básicas.

As torturas mais frequentes eram a tortura do sono e da estátua. A pessoa detida, em ambas as formas, era proibida de adormecer ou fechar os olhos e obrigada a manter-se dias e noites na mesma posição. Os espancamentos e interrogatórios acompanharam sempre as sessões de torturas.

Após uma rápida e breve análise perguntamo-nos: Como poderíamos solicitar um retorno a períodos tão cruéis? Como evitar um regime ditador? De que forma nos livramos do controlo e da repressão?

Simplesmente adotando e praticando o pensamento crítico, a reflexão e a informação/aprendizagem, pois o processo educativo e pedagógico é a base fundamental para o progresso civilizatório de uma nação.

A responsabilidade é nossa, enquanto seres individuais e coletivos? Certamente que sim… Vejamos, a palavra democracia é de origem grega, demokratía, composta por demos (que significa “povo”) e kratos (que significa “poder” ou “forma de governo”). Por outras palavras, a democracia é a voz/poder do povo. 

O objetivo da educação totalitária nunca foi incutir convicções, mas destruir a capacidade de formar alguma. – Hannah Arendt.

Por fdiniz

Fábio Diniz é um militante político, defensor do progresso social e do direito à vida para todas as espécies do ecossistema planetário. É estudante na Universidade da Madeira e regularmente escreve, em colaboração com outras plataformas, como a Tribuna da Madeira. Facebook / Instagram: @fabiodiniz.85

1 comentário

Deixa uma respostaCancel reply

Exit mobile version
%%footer%%