Quem tem, afinal, medo da drag queen?

A icónica Drag Queen Divine em Pink Flamingos (1972).

Parece que a extrema-direita portuguesa, tão nacionalista que é, pretende importar mais um movimento conservador estadunidense e lançar um pânico que não existe: drag queens e crianças.

No passado fim‑de‑semana, o partido LIVRE realizou a Festa da Espiga onde houve sessões de cinema, de poesia, concertos, conversas e um espetáculo drag. O partido denunciou que recebeu a “visita” de três “nacionalistas” em atitude provocatória após terem sido “irresponsavelmente incitados pelo líder e deputados da extrema-direita“.

O líder e a sua bancada da extrema-direita parlamentar “fizeram circular uma montagem fazendo crer que o espectáculo de encerramento com Drag Queens, depois das 22h, seria destinado a crianças“, referiu o partido. O espaço infantil, com atividades supervisionadas por educadoras do evento, encerrou pelas 22h. Ora, ignorar as restantes atividades e a hora do fim das atividades infantis é também alimentar o alarmismo que conservadores tanto gostam. Como costume, a informação passada por militantes da extrema-direita é enviesada e baseada em cherry picking e preconceito.

A leitura de histórias infantis por drag queens acontece há anos em Portugal

De notar que a leitura de histórias infantis por drag queens a um público jovem acontece há anos em Portugal, por exemplo, no Arraial Lisboa Pride. São eventos inseridos no Arraialito, um momento para famílias arco-íris e todas as que se queiram juntar. A miudagem adora e brinca, sem preconceitos. Tive o prazer de ajudar à organização de um momento de leitura por parte de uma artista drag no Arraialito há uns anos e foi,, obviamente, um momento pedagógico e apropriado às idades das crianças e jovens que ali se juntaram com as suas famílias para ouvir aquelas histórias. Acontece que naquele caso a leitora foi uma simpática drag queen que cativou o público e abrilhantou aquela tarde no Terreiro do Paço.

Este é apenas um exemplo de uma experiência que contrasta fortemente com o medo, a desinformação e a desconfiança lançados pela extrema-direita. Os seus argumentos são perigosos, uma vez que, além de falarem sob o manto da ignorância e do preconceito sobre o que realmente acontece nestes eventos, pressupõem também que artistas em drag não ajustam a sua performance ao público a quem se dirigem e ao horário do espetáculo.

Defender esta arte tem implicado receber acusações de grooming de crianças ou de defender a pedofilia. Sobre o primeiro, não existe aliciação no mundo que mude a orientação sexual ou identidade de género de uma pessoa. ‘Fizeram-me’ grooming heterocisgénero durante toda a minha vida e cá estou, não é verdade? Quanto à segunda, além de ser uma velha e desacreditada acusação, é uma insinuação que me fere particularmente.

As “visitas” de “nacionalistas” também têm acontecido em eventos do Pride, como forma de intimidação. Felizmente, a polícia tem feito até agora o seu trabalho de dispersar e afastar estes grupos dos eventos. Esta nova visita, neste caso a um evento de um partido político, embora não seja uma novidade, é um novo passo na intimidação, agora incitada por um líder partidário e restantes militantes. É essa a novidade que importa aqui reter para memória futura.

Ameaças e protestos contra a população LGBTI+ nos EUA alimentam-se das narrativas anti-drag

A narrativa de pânico visa, acima de tudo, atacar direitos da população LGBTI+ e, em particular, os das pessoas trans e não binárias. A mesma tem sido explorada nos Estados Unidos da América por entidades conservadoras e da extrema-direita e está a ter consequências como a proibição dos espetáculos drag no Tennessee e noutros estados. No entanto, o alcance destas proibições estende-se à vida das pessoas LGBTI+, uma vez que poderão afetar as celebrações do Orgulho LGBTI+ e pessoas trans e não binárias que estejam presentes em espetáculos de qualquer tipo.

De acordo com um relatório da GLAAD, houve pelo menos 141 protestos e ameaças anti-LGBTQ+ em 2022 em 47 estados dos EUA, números que ainda não contabilizavam o trágico tiroteio em massa no Club Q em Colorado Springs em novembro passado. Estes são números que tendem a subir a partir do momento em que o alarmismo sobe de tom e é promovido por discursos cheios de preconceito.

Mas, pior que isso, é narrativa que desumaniza as pessoas por detrás da arte e isso implica atacar não só a população LGBTI+ como qualquer pessoa que, de alguma forma, não se insere num determinado molde, geralmente bafiento, seja na forma de se vestir ou exprimir o seu género. Esta, sim, é uma história que não apetece ler.

Mais fosse preciso, a narrativa tem também sido abraçada por supremacistas do White Lives Matter.

Drag Queens e pessoas trans têm estado historicamente na linha da frente da luta pelos direitos LGBTI+

Não esqueçamos por isso que na linha da frente do movimento moderno da luta pelos direitos LGBTI+ estiveram pessoas trans e drag queens. Porque também eram elas que, mais uma vez, tinham menos a perder. Porque eram também elas as corajosas que muitas vezes deram o corpo às balas. E responderam atirando pedras e saltos-altos e tudo aquilo que tinham para que pudéssemos viver hoje com os direitos conquistados por elas.

Não é por acaso que a arte drag é um dos maiores símbolos de resistência e afronta ao status quo, ao patriarcado, ao machismo e à LGBTIfobia. Quem tem, afinal, medo da draq queen?

Por Pedro Carreira

Ativista pelos Direitos Humanos na ILGA Portugal e na esQrever. Opinião expressa a título individual. Instagram/Twitter/TikTok/Mastodon/Bluesky: @pedrojdoc

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