Festival Política Coimbra traz Fado Bicha, A Garota Não e as Novíssimas Cartas Portuguesas ao tema da Pós-Democracia

Festival Política Coimbra traz Fado Bicha, A Garota Não e as Novíssimas Cartas Portuguesas ao tema da Pós-Democracia

Depois de um warm-up em fevereiro, o Festival Política acontece na cidade de Coimbra de 28 a 30 de Setembro no Convento São Francisco.

Sob o tema da Pós-Democracia, desenrola-se um programa inclusivo e de entrada livre, focado na defesa do sistema democrático a na promoção da cidadania, da intervenção cívica e dos direitos humanos.

Aos concertos de A Garota Não e de Fado Bicha, a “Edição quase quase política” dos Prémios Monstros do Ano, com Fernando Alvim e ao Cara-a-cara com pessoas deputadas, juntam-se debates, exposições, workshops e atividades para crianças.

São três dias de atividades do Festival Política Coimbra que pretende ser uma plataforma de resgate da “ideia de que os valores democráticos são inegociáveis, tendo na mira os casos crescentes de abraço ao autoritarismo e que levam os cidadãos a votar na sua própria negação”, explicam Bárbara Rosa e Rui Oliveira Marques, da direção artística do festival. Com o aproximar das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril, é tempo de agir e pensar sobre os perigos que a democracia enfrenta.

Festival Política Coimbra: Destaques esQrever

28 de setembro: 21h30

Fado Bicha – concerto
O que é o fado? Esta é uma pergunta feita ad nauseam às pessoas da comunidade do fado pelas próprias pessoas da comunidade do fado, num afã de perpetuar a romantização do fado como entidade artística sem definição possível (e, logo, controlada de dentro para dentro) e intrinsecamente nacional.

Uma resposta possível poderia ser: é um gênero musical urbano português de influência afrobrasileira, com génese em Lisboa no início do século XIX e caracterizado por melodias simples e melancólicas e um liricismo de expressão emocional.

Uma resposta mais complexa leva-nos pela história deste território a que chamamos Portugal nos últimos dois séculos, cruzando o império colonial que Portugal foi com a queda da monarquia e a ditadura fascista.
O que é que isto faz do fado hoje em dia?

Fado Bicha trazem um concerto intimista, de voz e guitarra elétrica, em que revisitam fados antigos e tradicionais e nos falam da história do fado e de histórias dentro do fado, evocando Hermínia Silva, Pedro Homem de Mello ou António Ferro, entre muites outres. Dar voz ao que ficou por contar, ao que significa tradição e o que ela necessariamente exclui para se impor. Nomear como forma de justiça poética – o passado convive com o presente e Fado Bicha tenta cozinhar um futuro em que toda a pluralidade humana possa ter lugar à mesa.

[Fotografia por Daryan Dornelles]

29 de setembro 18h

“1 + 1 =/= 2” – performance de Francis Salema

Projeto da responsabilidade de Francis Salema, vencedor do concurso de jovens criadores, artistas e ativistas, promovido pelo Festival Política e pelo Instituto Português do Desporto e Juventude. Num contexto de polarização política fomentado pelas redes sociais que, com o emprego de algoritmos inteligentes, nos alienam e compartimentalizam em diferentes fontes de conteúdo, os nossos entendimentos-base e informações sobre o mundo tornam-se cada vez mais distintos. Devido a tal, as mesmas notícias, ideias e até palavras suscitam diferentes interpretações e reações o que vai impossibilitar o diálogo plural e aberto necessário à democracia. Nesta performance, apresentamos uma reflexão visual e auditiva de como tal processo acontece e as consequências que o mesmo traz para as nossas relações interpessoais.

29 de setembro 19h

“Novíssimas cartas portuguesas” – cinema
Documentário de realização coletiva, 55’ (Portugal)

O julgamento das 3 Marias foi o primeiro momento do movimento feminista português com projeção internacional. Agitou as águas estagnadas da ditadura e foi um grito ensurdecedor para o mundo. Que impacto teve a obra pela qual foram julgadas? Quão diferentes são as nossas vidas hoje? No 50º aniversário do livro “Novas Cartas Portuguesas” um grupo de mulheres produziu este documentário para questionar em que ponto se encontra a luta feminista. Há novos problemas Quais são as novas opressões? Filme legendado em português.

21h30 | Palco do Grande Auditório

A Garota Não – concerto-manifesto
“Seleção Portuguesa: 10 milhões de convocados”
Com interpretação para LGP.

“No 25 de abril de 74 eu não estava no quarto de nenhuma amiga a trocar ideias sobre livros proibidos. Não estava a ouvir rádio, não sabia de senha nenhuma. Não andei pelas ruas a celebrar a queda de um regime faminto e repressor, não levantei o braço segurando um cravo. Não estava sequer no plano dos meus pais, que só se conheciam de se olharem à janela. Com a agravante da minha mãe ser uma mulher casada – com outro marido.

No 25 de abril de 74 eu não era nascida. Isso só aconteceu alguns anos mais tarde. E fui crescendo a ouvir falar de eleições, manifestações, democracia. Primeiro sem fazer grande ideia dos seus significados. Mais tarde a tentar compreender o seu pulsar através da vida do meu bairro e da vida do país – que via pela televisão.

Fui percebendo que entre o sonho da democracia e a sua concretização há muitas mangas por arregaçar. E que nos cabe a nós o compromisso de cuidarmos desse campo tão fértil, cheio de flores e de espinhos, de caminhos verticais e horizontais, becos sem saída, de avanços e retrocessos, que é a democracia.

Que nos cabe a nós a sua continuidade – o seu cuidado.

Por isso, quando me convidaram para participar neste Festival Política, não pude senão – orgulhosamente – aceitar. Mais do que isso: dar o meu melhor para que projetos como este, que buscam um melhor presente e futuro do conjunto que somos, possam ter uma vida tão forte e longa quanto os caminhos que a cidadania e a democracia percorram.

Mas vir aqui falar sobre quê? 

Pensei então que se é para botar palavra, que seja sobre o que sei, sobre alguns dos assuntos que ora me gastam ora me incendeiam. E por isso peguei na história da minha vida e num punhado de canções que fui escrevendo pelo tempo fora. Algumas falam de amores desfeitos, de abusos e morte. Outras daquele quotidiano sem glamour da gente que passa o cabo dos diabos todos os dias para ter uma casa e um prato de comida na mesa. Trabalhos precários, empresas milionárias, governos aos quais entregamos os nossos votos e a nossa crença de um país soberano, empenhado, transparente, justo. Para depois tantas vezes nos sentirmos desiludidos, sem uma verdadeira alternativa à vista. 

Só que a desilusão – como o ciúme – é uma das coisas mais inúteis da nossa vida – se não vier acompanhada de uma vontade maior do que ela. Caso contrário será estéril. Dará para alimentar conversas de café, almoços de família e publicações nas redes sociais. Mas não será a força motriz de nenhuma mudança boa – de nenhuma bonança.

E por isso vim, vim para falar de mudanças em que acredito.”

Não é um concerto d’ A garota não. É um manifesto dela.

30 de setembro, às 10h30

Um passeio feminino em Coimbra – visita guiada
“Um passeio feminino em Coimbra” pretende homenagear o protagonismo de mulheres nas suas trajetórias individuais e lutas coletivas. A ideia é percorrer a cidade numa espécie de ligue-os-pontos, à procura dos recantos repletos de histórias. Esta é uma caminhada especial para tornar visível a voz de algumas mulheres na construção da memória feminina: Isabel de Aragão, Vataça Lascaris, Domitila Carvalho, América do Sul Fontes Monteiro, a Rua das Padeiras e o lugar onde muitas mulheres foram condenadas pelo Tribunal do Santo Ofício estão no roteiro. Ponto de encontro: Largo D. Dinis. Visita conduzida por Vilma Reis. Parceria: Coimbra Coolectiva. Inscrições: participa.politica@gmail.com. Com interpretação para LGP mediante solicitação prévia.

Toda a programação do Festival Política Coimbra pode ser consultada no site do festival.

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