Estreia esta semana, dia 26 de Maio, o filme “Uma Nova Amiga“, realizado pelo prestigiado François Ozon e com os notáveis Romain Duris e Anaïs Demoustier nos principais papéis.
Conta a sinopse que, “após o falecimento da sua melhor amiga, Claire entra numa profunda depressão, mas uma surpreendente descoberta acerca do marido da sua amiga irá devolver-lhe o gosto de viver“. É esta surpresa o mote para a intriga e introspecção do filme. Mas não se trata de um segredo relevado apenas no final do filme, apenas o seu ponto de partida. Mas comecemos pelo trailer que espelha essa visão:
Após a visualização do trailer não será difícil entender que surpresa é essa, mas para quem quiser descobrir o filme sem a revelação – que ocorre no início do filme – deverá parar de ler aqui. E depois de visto o filme – que altamente recomendamos – volte a este ponto, pois claro!
A nova amiga de Claire é Virginia, que não é mais que David (re)descoberto, vestido com as roupas da falecida mulher enquanto cuida da própria filha bebé. Virginia não é apenas um pai enlutado a confortar o seu bebé com uma presença feminina e as roupas, o cheiro da mãe. Virginia é, na realidade, uma questão de género.
E embora Claire, segundo o realizador, seja “uma personagem complicada a partir da qual todos nós seguimos o seu ponto de vista“, ela é, acima de tudo, “espectadora da metamorfose de David/ Virginia. É a partir do seu rosto que seguimos a sua evolução: os seus desejos, os medos e as suas mentiras a Gilles [o marido], mas também a si própria“.

São estas mentiras que permitem a Claire um envolvimento com Virginia, inicialmente tímido e apenas doméstico, escondidas do mundo, mas mais tarde arriscam viver fora de paredes, num desafio excitante que as une. É um processo para ambas, de curiosidade e de descoberta. A subtileza da história, seja na compra de roupas femininas, seja na fuga para um espectáculo dramático de travestismo onde se afirma, repetidamente, que se é só e apenas mulher, leva-nos atentos à descoberta de Virginia.
Mas que não fiquem dúvidas, esta Virginia existe porque Romain Duris tem neste filme provavelmente uma das suas melhores interpretações. É impossível não fazer paralelismos com o recente desempenho de Eddie Redmayne em “A Rapariga Dinamarquesa“, mas sentimos que, enquanto Eddie criou uma caricatura do que é ser feminino, Romain Duris transforma-se desde o primeiro instante numa mulher. E não são os traços mais rectos, a barba mais apertada, ou o sorriso mais torto que lhe negam essa afirmação irrefutável: sim, Virginia é mulher! No mais delicado dos gestos, no mais cúmplice dos olhares, no andar suave mas seguro. Duris é absolutamente fenomenal numa caracterização desprovida de estereótipos e que provoca em nós a reflexão do quão errado é um rótulo identitário de género, quando na realidade existe no ser humano uma fluidez natural que recusa constrições.
“O Romain destacou-se, não por ser “a mulher mais bonita”, mas porque provinha dele uma grande alegria em travestir-se. Era evidente uma encarnação, um prazer fetichista de vestir os vestidos, sem ironia ou distância“, explica Ozon.
Este é um filme de dois seres humanos que tentam amar, abrir-se um ao outro, para além das suas diferenças, e do peso do conformismo e do interdito. É um filme que levanta as questões universais e que qualquer pessoa pode e deve fazer: “Amamo-nos? Temos o direito de nos amar?” A resposta parece ser aqui, orgulhosamente, mais óbvia que nunca.
“Uma Nova Amiga” tem antestreia hoje, 23 de Maio, pelas 21h30 no Cinema Medeia Monumental e terá apresentação da Joana Cadete Pires da ILGA Portugal. A estreia nos restantes cinemas será na Quinta-Feira, dia 26. A não perder!

Nota: Obrigado à Leopardo Filmes pelo contacto 🙂

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