“Todos os géneros são bem-vindos, também os musicais”: faz ou não sentido haver um LGBT+ Music Festival?

Antes de sair a notícia oficial do LGBT+ Music Festival, cruzei-me com alguns rumores sobre o evento e que foram adiantados na rede social de uma revista de música portuguesa. O que chamou a minha atenção foi o facto de encontrar tantos comentários de utilizadores que se queixavam com o que apelidavam de “espetáculo de nicho” que “excluía pessoas não queer” quando “a música deveria ser de todos e para todos”. Talvez seja importante debruçar-me sobre o facto da música ser feita por pessoas com identidades diversas e essa variedade tem repercussões no que se cria e em quem ouve.

Todos nós atribuímos identidades às coisas e muitas vezes isso acusa-se logo pelo pronome usado. Um computador é masculino (ele), caneta é feminino (ela) (até aqui tudo muito bem). Além disso, (in)conscientemente as coisas recebem traços que as tornam antropomórficas (dar ou adquirir características humanas), por exemplo, se sairmos do festival e dissermos que ‘foi emocionante’, a ideia de ‘emoção’ é uma qualidade humana e reflete o que nós sentimos no evento, não o que ele é. O mesmo tem acontecido com a música ao longo dos séculos. Na sua forma mais imediata, figuras mitológicas ligadas à música têm género: o Orfeu e as Sereias encantam através da música, ou a Santa Cecília que é padroeira da música e dos músicos. Mas os géneros musicais também passam por processos de construção identitária semelhantes, ainda que abstratos estes adquirem género, sexualidade, raça, classe social, religião, ideologia política, entre outros. Deixem-me elaborar o que quero dizer.

Ao longo da história a música foi sempre um objeto funcional. Era composta para ser produzida na igreja porque era um veículo de ligação ao divino (religião) e nos reinos e casas de monarcas demonstrava o poder e o estatuto social (classe). Se saltarmos para o romantismo, com o surgimento dos movimentos nacionalistas a música começa a estar ligada aos países e a servir para a revolução (com ideologias políticas e classes sociais). Na América do Norte, o gospel, ragtime, soul, são tudo géneros que começam por ser criados por afrodescendentes e dificilmente negamos os seus processos de racialização. O mesmo acontece com a música popular, basta olharem para os vossos vídeos musicais preferidos para perceberem que as representações de género e sexualidade marcam as músicas. O rap e o funk expressa sérios problemas de misoginia, subgéneros do metal estão enraizados na masculinidade tóxica, a dança gosta de objetificar os corpos e explorar múltiplas sexualidades (são generalizações que têm, evidentemente, as suas exceções que confirmam a regra!).

Qualquer um destes aspetos serve para evidenciar que quando ouvimos música existem marcadores interseccionais que estão expressos, ou que acreditamos que existem e, por isso, usamo-los na produção de quem somos. O sentimento de pertença e orgulho existe quando nos afirmamos parte de uma comunidade de fãs de música, e isso não está desligado das identidades dos géneros musicais. Às vezes sentimos até desconforto em dizer aos nossos amigos ou familiares que ouvimos certas músicas, bandas ou estilos, precisamente por receio que nos olhem de lado pois as identidades que representam não são vistas com bons olhos.

A ‘música queer’, e suas variantes como ‘música LGBT+’, são talvez dos primeiros rótulos que afirmam explicitamente uma orientação sexual no nome. Para mim isso acontece porque assume a sua agenda, diz-nos quem o faz e/ou para quem o faz, precisamente porque pretende ser uma ferramenta de luta política. Os géneros musicais são definidos por duas perspetivas: como soam (a visão musicológica) e pelas pessoas que o fazem, definem, consomem e comercializam (a sociológica). Atualmente a música queer soa a alguma coisa? Não sei, precisaria de outro texto para refletir sobre o assunto. Mas uma coisa é certa, a música tem identidade porque é feita por pessoas para pessoas (todas com as suas identidades). Parece-me inútil tentarmos ignorar o tópico advogando o discurso da neutralidade/homogeneização, todos os géneros são bem-vindos, também os musicais!

Nota: “todos os géneros são bem-vindos, também os musicais” é uma frase brilhante dita pelo grande Pedro Carreira!


Ep. 255 – A estreia de Heated Rivalry em Portugal; Rússia e EUA atacam direitos LGBTQ+; e o regresso de Robyn com Sexistential Dar Voz a esQrever: Notícias, Cultura e Opinião LGBT 🎙🏳️‍🌈

O DUCENTÉSIMO QUINQUAGÉSIMO QUINTO EPISÓDIO do Podcast Dar Voz a esQrever 🎙️🌈 é apresentado por nós, Pedro Carreira e Nuno Miguel Gonçalves.Abrimos com leveza e cultura pop. Falamos de “grandes rabos” no pequeno e no grande ecrã. A estreia de Heated Rivalry em Portugal. A série The Lowdown, com Ethan Hawke. E o filme Martin Supreme, com Timothée Chalamet. Representação, desejo e marketing andam de mãos dadas 🍑🫦Fazemos também uma pequena atualização das Presidenciais 2026 que coloca António José Seguro contra André Ventura.Depois, aprofundamos política internacional. A administração de Donald Trump decidiu alargar a chamada “política da Cidade do México”. Esta medida restringe financiamento a organizações ligadas a direitos sexuais e reprodutivos. Analisamos o impacto global e a dimensão ideológica desta ofensiva.Seguimos para a Rússia. O Ministério da Justiça classificou a ILGA World como “organização estrangeira indesejável”. Enquadramos esta decisão na perseguição sistemática a pessoas LGBTI+ e a quem defende direitos humanos. Falamos das consequências práticas e do efeito de intimidação internacional.Terminamos na música. Robyn está de regresso com o álbum Sexistential. Exploramos o conceito, a sonoridade e o lugar político da artista na pop contemporânea.Artigos Mencionados no Episódio:Do livro ao pequeno ecrã: como Heated Rivalry transformou um romance queer num fenómeno culturalPresidenciais e a cobardia política: quando a neutralidade rima com cumplicidadeVoto Antecipado, inscrição até dia 20 de janeiroRússia intensifica repressão LGBTI+ e declara a ILGA World “organização indesejável”Ajuda externa sob ataque: Trump declara guerra à igualdade de género e às políticas DEIEUA: ICE mata Renee Nicole Good, uma mãe queer, desarmada a tiro#LGBTQ #Portugal #Presidenciais #HeatedRivalry #DireitosHumanos #Robyn
  1. Ep. 255 – A estreia de Heated Rivalry em Portugal; Rússia e EUA atacam direitos LGBTQ+; e o regresso de Robyn com Sexistential
  2. Ep. 254 – Presidenciais 2026 (1ª volta), Sexo Homossexual em Primatas & KPop Demon Hunters
  3. Ep. 253 – Renee Nicole Good, casas de banho (outra vez), Heated Rivalry & Bones and All

O Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈 está disponível nas seguintes plataformas:
👉 Spotify 👉 Apple Podcasts 👉 Youtube Podcasts 👉 Pocket Casts 👉 Anchor 👉 RadioPublic 👉 Overcast 👉 Breaker 👉 Podcast Addict 👉 PodBean 👉 Castbox 👉 Deezer


A esQrever no teu email

Subscreve e recebe os artigos mais recentes na tua caixa de email

One response to ““Todos os géneros são bem-vindos, também os musicais”: faz ou não sentido haver um LGBT+ Music Festival?”

  1. […] é apresentado por nós, Pedro Carreira e Nuno Gonçalves. Começamos por falar do LGBT+ Music Festival no Porto, dos concertos de Diego Bragà e da morte do ícone que é Monica Vitti. O tema central do […]

    Gostar

Deixa uma resposta

Apoia a esQrever

Este é um projeto comunitário, voluntário e sem fins lucrativos, criado em 2014, e nunca vamos cobrar pelo conteúdo produzido, nem aceitar patrocínios que nos possam condicionar de alguma forma. Mas este é também um projeto que tem um custo financeiro pelas várias ferramentas que precisa usar – como o site, o domínio ou equipamento para a gravação do Podcast. Por isso, e caso possas, ajuda-nos a colmatar parte desses custos. Oferece-nos um café, um chá, ou outro valor que te faça sentido. Estes apoios são sempre bem-vindos 🌈

Buy Me a Coffee at ko-fi.com