Se o espetáculo pouco importa, porque estamos sempre a falar dele? Junior Eurovision 2023 e a prestação de Júlia Machado

Se o espetáculo pouco importa, porque estamos sempre a falar dele? Junior Eurovision 2023 e a prestação de Júlia Machado
Júlia Machado (divulgação Junior Eurovision Song Contest)

Júlia Machado representou Portugal no Junior Eurovision Song Contest de 2023 e durante a prestação teve um problema técnico. A jovem artista não repetiu a atuação e em comunicado oficial emitido pela RTP, os responsáveis pela decisão deram dois motivos: por não ter prejudicado a sua prestação vocal e porque existia uma janela curta até ao início da votação final. Não me interessa discutir se a prestação foi ou não afetada por um cintilar de luzes mais ou menos sincronizado, mas antes pensar um pouco sobre como o comentário mostra-nos algo sobre pontos de vista preocupados em definir o que é a música, os espetáculos e quais são os protagonistas que importam.

Já tive a oportunidade de discutir no esQrever que a valorização do espetáculo visual é uma espécie de requisito (para o bem e para o mal) do Festival RTP da Canção e da Eurovisão. É portanto essencial não varrer para debaixo do tapete a realidade cultural em que vivemos porque a performance é, há décadas, uma fonte de prazer musical. Aliás, se o espetáculo visual não fosse assim tão importante para estes concursos então porque são cada vez mais imponentes e elaborados técnica e artisticamente? É porque não dão votos? E se não têm relevância nenhuma porque, afinal de contas, a execução vocal é o que importa, então porque os jornalistas, comentadores, públicos, e tantos outros discorrem tanto sobre a encenação?

A Eurovisão é mais palco de espetáculo do que de talento musical?

Quero fazer um desvio que nos ajuda a perceber o “problema” com a afirmação de que o aparato cenográfico nada tem a ver com a música, porque tem tudo a ver. É relativamente consensual a ideia de que o Festival RTP da Canção e a Eurovisão tornaram-se espaços de representação e representatividade LGBTI+. Não posso deixar de referir uma corrente de críticas negativas (sem lhes dar protagonismo, se tiverem interesse podem ir ao Google e estou certo que as encontram rapidamente) incluindo em Portugal, por parte de “ilustres” figuras públicas que afirmam uma e outra fez que este tornou-se um território mais preocupado com a “espetacularização”, as “luzes” e “as cores do arco-íris” do que da demonstração das alegadas “qualidade” e “talento” musicais (seja lá o que isso for para essas pessoas). Então, de novo: estes indivíduos conseguem localizar marcadores de “queerness” na música porque têm como pontos de referência outros aspetos para além da prestação musical dos artistas. 

Nem é preciso ir tão longe, podemos ficar-nos por aqueles que valorizam os espetáculos. Se falarmos em pessoas dentro da comunidade LGBTI+, em especial daquelas que se identificam com estas prestações artísticas, tenho a certeza que o fazem não só pela música que ouvem, mas também por causa de cenários, figurinos (as roupas), posturas, luzes e tantos outros elementos que lhes intensificam as suas respostas emocionais.

Ou seja, acho que com este comentário a delegação portuguesa (ou quem quer que teve a brilhante ideia de dizer que, basicamente “pouco importa” o espetáculo) está a dar a entender que menospreza a capacidade e o valor que o aparato tem/teve para a atuação musical. Obviamente que, enquanto musicólogo, aprecio os pontos de vista daqueles que atribuem importância à prestação musical, e também não quero declarar que o comentário reflete a opinião da RTP e de todos seus trabalhadores, pode ter sido um deslize infeliz. 

Contudo, mesmo enquanto deslize é um comunicado que, no fim, acaba por desvalorizar o trabalho dos profissionais técnicos e criativos que arduamente pensaram, prepararam e concretizaram o espetáculo que fazia parte da atuação de Júlia Machado. Se tomarmos como válido este comunicado então o esforço destes técnicos e artistas acrescenta pouco à prestação de Júlia Machado, algo com o qual não concordo.

A música não é um objeto, mas sim um processo

Evoco, a este respeito, as palavras de musicólogos como Christopher Small e Antoine Hennion que nos recordam que a música não é um objeto, mas sim um processo, um verbo, é uma atividade cooperativa para a qual contribuem muitos atores sociais. Dos vendedores de bilhetes aos técnicos de som, dos operadores de câmara aos realizadores, até aqueles que pressionaram “send” quando publicaram o vídeo da atuação no YouTube: todos merecem o respeito que a sua profissão exige. As artes do espetáculo vivem (como aliás os outros setores da sociedade) de hierarquias mantidas entre as celebridades que ficam à frente das câmaras e os habitantes dos bastidores sobre os quais pouco se sabe. Contudo, deixo à vossa reflexão a seguinte pergunta: se a legitimidade dos ofícios não começar “por dentro” como podem ser plenamente apreciados “de fora”?


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