
Rock Hudson, uma das maiores estrelas da era de ouro de Hollywood, através da sua masculinidade e charme naturais tornou-se num dos protagonistas mais procurados em clássicos do cinema nas décadas de 1950 e 1960. As mulheres queriam casar-se com ele, e os homens queriam ser como ele.
No entanto, o que o mundo não sabia na época era que o seu ídolo era gay. A sua homossexualidade foi propositadamente escondida por Hollywood para vender a sua ilusão de american pretty boy. A sua presença dominou o cinema estadunidense nas décadas de 1950 e 60.
Na verdade, a sexualidade do ator era conhecida nos circuitos internos de Hollywood, mas permanecia um segredo cuidadosamente guardado pela indústria numa época em que a homossexualidade não era aceite e vista como uma doença.
“A vida dele foi completamente fabricada“, diz Stephen Kijak, realizador do documentário “All That Heaven Allowed”. “Ele era o que chamavam de ‘ator contratado’. Não temos realmente isso hoje. Ele estava sob contrato na Universal, então a sua biografia, cada resposta que ele dava numa entrevista, cada fotografia… tudo era encenado, tudo era cuidadosamente selecionado para apresentar essa imagem.“
Até mesmo o nome artístico Rock Hudson lhe foi dado por transmitir esse ideal de masculinidade ao público.
Assumir a homossexualidade de Rock Hudson não era opção para o estúdio
Hudson e seus chefes de estúdio sabiam que assumir publicamente a sua homossexualidade simplesmente não era uma opção. Naquela época, ser descoberto como gay seria o fim da carreira em Hollywood, especialmente para alguém com uma imagem tão americana. Tablóides da altura procuravam histórias para promover escândalos e, de certa forma, perseguir estrelas queer forçosamente armariadas.
Apesar da sua vida dupla, Hudson não deixou de partilhar momentos com amigos íntimos como um escape para o seu papel de galã no grande ecrã. Numa época em que as câmaras eram menos presentes no dia-a-dia, pôde sustentar esses momentos sem o conhecimento do grande público.
A imagem de Hudson sobreviveu mesmo quando sua carreira cinematográfica começou a declinar e fez a transição para a televisão nas décadas de 1970 e 1980, tendo sido a estrela de clássicos como “McMillan & Wife” e “Dynasty”.
O diagnóstico de VIH/SIDA de Rock Hudson mudou tudo

O ator era um conservador orgulhoso na sua vida privada, tendo feito amizade com figuras como o colega ator e presidente republicano Ronald Reagan, e sua esposa Nancy. Na verdade, foi a própria Nancy quem instou um Rock Hudson visivelmente abatido a verificar uma mancha no seu pescoço, após ficar chocada com a sua aparência numa festa na Casa Branca em maio de 1984.
O diagnóstico de VIH/SIDA e a doença levaram o Rock Hudson a procurar desesperadamente por um tratamento. O seu desaparecimento repentino da esfera pública suscitou intensas suspeitas nos orgãos de comunicação. O ator ainda apareceu em alguns episódios da popular série Dinastia, mas com uma aparência muito fragilizada que chocou o público. Em julho de 1985, Hudson — já gravemente doente num hospital de Paris — revelou que estava com uma doença fatal.
“Foi uma notícia enorme em todo o mundo. Ele foi a primeira pessoa famosa a morrer de SIDA e, ao mesmo tempo, a assumir-se gay“, diz Kijak.
A lendária estrela de Hollywood morreu três meses depois, em sua casa em Los Angeles, pouco antes de completar 60 anos. A morte de Hudson e as ondas de choque que ela provocou ajudaram o tema do VIH/SIDA a ser, por fim, abordado abertamente na opinião pública.
A resistência política do conservador Ronald Reagan deixou milhares ao abandono com VIH
Apesar da proximidade de Rock Hudson com Ronald e Nancy Reagan, o casal virou-lhe costas, política e pessoalmente, quando perceberam que se tratava de uma infeção por VIH. O presidente dos EUA é precisamente considerado um dos maiores culpados políticos pela falta de apoio que recusou dar nos primeiros anos apesar dos pedidos desesperados das pessoas seropositivas. Pelo caminho, morreram milhares de pessoas sem verdadeiro apoio clínico e apenas contando com a ajuda da sua família escolhida, uma vez que muitas eram abandonadas pela família biológica. Este atraso na resposta permitiu também que o vírus continuasse a espalhar-se, bem como a desinformação sobre o mesmo e o estigma que lhe estava associado.
“Foi um momento enormemente crucial“, destaca Kijak. “As pessoas esquecem-se desses anos. A crise da SIDA já tinha cerca de cinco anos naquela altura, e ninguém realmente sabia o que estava a acontecer. [A sua morte] elevou a conversa para o mainstream de uma maneira que não tinha acontecido antes, e isso foi culturalmente muito importante, mas também permitiu mais captação de recursos e pesquisa.”
Como podemos relembrar Rock Hudson agora?
“Não acho que ele seja lembrado“, diz Kijak. “Sinto que muitas pessoas mostram-se indiferentes quando mencionamos o seu nome. Ele não é um James Dean, não é uma Marilyn Monroe que morreram jovens e bonitos. São os verdadeiros deuses e deusas do cinema. Hudson teve um legado diminuído, por isso acho que é um bom momento para reavaliar e realmente olhar para o seu trabalho.”
Esta reflexão e este reconhecimento sobre a vida de um dos maiores ator de sempre de Hollywood, tanto no grande ecrã quanto fora dele, poderão trazer a Rock Hudson algum merecido amor póstumo.


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