Jogos Olímpicos: Como as Drag Queens da Cerimónia de Abertura se tornaram “Lé-gen-daires”

Jogos Olímpicos: Como as Drag Queens da Cerimónia de Abertura se tornaram "Lé-gen-daires"

Na passada sexta-feira ocorreu a Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Paris e, na secção intitulada Festividade, surgiram Drag Queens numa cena icónica. Ou como a própria Nicky Doll diria: Légendaire!

Por falar em ícone, a palavra tem origem etimológica no francês (icône) e no grego (eikón, -ónos). E também aqui tem a sua influência, vejamos na representação da cerimónia a Última Ceia de Cristo (popularizada por Leonardo da Vinci) ou a Festa de Dionísio, deus grego das festividades, do vinho e do teatro (ou ambas).

O tableau vivant da Cerimónia de Abertura foi amplamente criticado por, alegadamente, gozar com o cristianismo e ser interpretado como uma paródia da Última Ceia. Aqui importa entender de onde surgem estas críticas e, talvez, não seja difícil de entender o seu intuito. Por exemplo, Javier Tebas, presidente de La Liga espanhola, considerou o momento “inaceitável, desrespeitoso, infame“. Não por acaso, Tebas é também apoiante da extrema-direita e, acredito que também não por acaso, foi acusado pelo jogador Vinícius Júnior de inação perante reiterados casos de racismo nos estádios.

Organização dos Jogos Olímpicos fala em diversidade e inclusão

A organização dos Jogos Olímpicos afirma que o momento é uma representação do deus grego Dionísio. Já o diretor de arte da cerimónia, Thomas Jolly, por sua vez, explica que só queriam exibir inclusão: “O nosso objetivo não era a subversão. Queríamos falar sobre diversidade. Queríamos incluir todas as pessoas, simples“.

Jogos Olímpicos: Como as Drag Queens da Cerimónia de Abertura se tornaram "Lé-gen-daires". Festa de Dionísio.

Em França não nos curvamos a extremistas religiosos de qualquer tipo, por qualquer motivo. Somos um país tolerante e aberto que defende os ideais do Iluminismo, levem o vosso preconceito para outro lugar“, escreveu após a enchente de críticas preconceituosas.

O próprio Jolly desmentiu, por fim, a cena ser inspirada na Última Ceia, mas nem me parece que esse seja o ponto, porque a arte é também aquilo que vemos. Ou melhor, aquilo que queremos ver. Seja uma representação cristã ou pagã, o que simboliza aquela imagem viva?

O que simbolizam as drag queens e artistas Queer nos Jogos Olímpicos de Paris?

Numa cidade que deu ao mundo o burlesco e o Cancan, a inclusão e a diversidade é precisamente uma das suas imagens de marca. E numa cerimónia que durou mais de 3 horas e em vários pontos da cidade, talvez um ataque tão fervoroso contra 3 minutos da mesma seja demonstrativo da cegueira que o preconceito pode ter.

E que não restem dúvidas, aqui o preconceito tem tons LGBTQIAfóbicos. De todas as representações pop da última ceia e afins, esta foi – repito, não por acaso – aquela que mais impacto teve. Serem drag queens e pessoas queer a representá-la nos Jogos Olímpicos não é um mero detalhe.

Nicky Doll é hoje uma das drag queens mais populares em França. E, além de ter participado na secção aqui tratada, carregou também a chama olímpica usando saltos de 15 cm em Bouches-du-Rhône.

Nicky Doll é hoje uma das drag queens mais populares em França. E, além de ter participado na secção aqui tratada, carregou também a chama olímpica usando saltos de 15 cm em Bouches-du-Rhône. Gostava ver tal empenho à causa por haters…

Piche é uma drag queen de origem argelina e cigana que foi expulsa de casa pelo pai quando tinha apenas 13 anos por ser gay. Numa vida de luta contra o preconceito, tornou-se numa dançarina profissional e já pisou os palcos do Ballet National de Marseille, do Opera Grand Avignon, do Folies Bergères e do Paradis Latin. Esta semana esteve no maior palco do mundo na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris. Como não amar a sua história?

Piche é uma drag queen de origem argelina e cigana que foi expulsa de casa pelo pai quando tinha apenas 13 anos por ser gay. Numa vida de luta contra o preconceito, tornou-se numa dançarina profissional e já pisou os palcos do Ballet National de Marseille, do Opera Grand Avignon, do Folies Bergères e do Paradis Latin. Esta semana esteve no maior palco do mundo na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris.

No meio disto tudo, não deixa de ser deliciosamente irónico que tanta celeuma esteja a acontecer perante uma nova interpretação queer de um fresco do Vaticano por um pintor também ele queer, Leonardo da Vinci.

Que obstáculos ainda enfrentam atletas queer nos Jogos Olímpicos?

Há mil e uma razões para incluir pessoas que normalmente são invisíveis, em especial em eventos desportivos e à escala dos Jogos Olímpicos. E talvez a milésima segunda razão seja simplesmente para poder fazer o trocadilho “La Cène sur une scène sur la Seine” (“A Última Ceia num palco no Sena”). Mas, importa também entender como atletas queer, ainda que estejam cada vez mais a sentir-se em segurança para se afirmarem como tal, ainda existe o risco de outing e de perigo para quem vive em países que perseguem ou criminalizam a homossexualidade.

Também atletas trans têm-se deparado com obstáculos que condicionam a sua participação no maior evento desportivo do mundo. É-lhes exigido um novo requisito de terem concluído a transição antes dos 12 anos para poderem competir. Ou seja, é-lhes imposto o acesso e o uso de bloqueadores de puberdade quando os mesmos estão a ser-lhes retirados por políticas que não promovem o seu bem-estar.

A pintura viva não é sátira, é amor

A representação icónica, que entrou na cultura pop moderna inúmeras vezes em programas como os Simpsons, os Sopranos ou outros, não me pareceu sátira, nem sequer uma crítica gratuita. Aquela imagem pareceu-me, tão simplesmente uma nova expressão, tão fabulosa como orgulhosa, de uma imagem icónica.

Traz com ela um novo subtexto a um símbolo usado por uma instituição historicamente opressora das próprias vivências retratadas. A este novo caminho ou olhar, vejo e chamo de arte. A reinterpretação é assim um ato de amor. Um ato de amor sem qualquer mas. O impacto que teve é também a sua maior vitória como arte ao promover reações, emoções e discussões. E isso é absolutamente lé-gen-daire!




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Respostas de 2 a “Jogos Olímpicos: Como as Drag Queens da Cerimónia de Abertura se tornaram “Lé-gen-daires””

  1. […] por isto que, do ponto de vista da comunidade queer, é irrelevante que a performance tenha sido sobre os deuses do Olimpo ou sobre a última ceia. A comunidade queer tem toda a legitimidade para montar uma paródia sobre a última ceia, ela […]

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  2. […] de abertura dos Jogos Olímpicos a 26 de julho de 2024, as artistas que atuaram na ponte Debilly sofreram uma onda de ódio sem precedentes e enfrentaram a banalização de insultos devido à sua o…. Os advogados da Stop Homophobie receberam inúmeros relatos de incitação ao ódio, insultos, […]

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