
Misia Butler interpreta a personagem Caeneus, um homem trans preso no Purgatório, na nova série da Netflix “Kaos”.
“Kaos” mistura mitologia grega com uma abordagem moderna e humorística. Jeff Goldblum interpreta Zeus, um deus inseguro e paranóico que, ao descobrir uma ruga na testa, teme que o fim de seu reinado esteja próximo. A série explora a luta dos deuses para manter o seu poder enquanto humanos começam a descobrir as falhas divinas.
A série é uma ousada reinterpretação da mitologia grega, onde encontramos a história profundamente emocionante de Caeneus, um homem trans interpretado por Misia Butler. A narrativa traz à tona uma das personagens mais complexas e ricas da série, explorando não só a sua identidade de género, mas também as suas lutas pessoais, paixões e relacionamentos, num contexto onde o divino e o humano se cruzam.
Caeneus, no Purgatório, carrega o peso da traição da sua mãe, que o deixou à mercê das Amazonas que o assassinaram e o enterraram sem a moeda necessária para atravessar o rio Estige. Agora, no submundo, ele guia os mortos através de um processo de regeneração, um ciclo infinito de renascimento e solidão.
Misia Butler defende uma representatividade inclusiva e fiel das vivências trans
Misia Butler nasceu no Reino Unido e tem explorado a sua identidade de género trans na vida pessoal e na sua carreira, interpretando personagens trans em papéis complexos e ricos em nuances. Ele tem enfatizado a importância da visibilidade e representação autêntica de pessoas trans na indústria do entretenimento. Em Kaos, destaca-se por não apenas retratar a transição de Caeneus, mas também os desafios emocionais e relacionamentos que moldam o personagem. Butler é conhecido por defender uma representatividade inclusiva e fiel das vivências trans, acreditando que estas histórias devem ser contadas com profundidade e autenticidade.
A série não traz apenas uma nova perspectiva sobre o mito de Caeneus, originalmente um herói que nasceu mulher e foi transformado em homem pelo deus Poseidon, mas também oferece uma visão moderna e inclusiva. Como explica Misia Butler, a transição de Caeneus é parte da sua essência, mas não o define completamente. “A transição dele não é ignorada nem instrumentalizada. É parte de quem ele é, mas a sua história vai além disso”, diz o ator. Para Butler, foi uma experiência empoderadora interpretar uma personagem cuja transição é tratada de forma orgânica, sem ser o centro da narrativa.
Kaos destaca como as pessoas trans sempre existiram
A inclusão de Caeneus em Kaos destaca um ponto essencial: as pessoas trans sempre existiram, desde os tempos mais antigos da humanidade e da mitologia. O criador da série, Charlie Covell, relembra que figuras como Caeneus fazem parte da história. O mito do herói trans prova que a sua identidade não é uma moda contemporânea, mas algo profundamente enraizado na condição humana. Ao centrar Caeneus numa história de amor e de sobrevivência, a série subverte as expectativas ao mostrar um homem trans cuja luta não se limita à sua transição. Este é, sim, um homem à procura de pertença, amor e redenção.
Esta abordagem inovadora é fundamental para o retrato autêntico de personagens trans nos dias de hoje. “Personagens trans masculinas podem ser frequentemente dessexualizadas”, aponta Butler. “Para mim, foi uma oportunidade empoderadora. Sempre fui um romântico incurável, e poder interpretar alguém apaixonado foi algo que realmente ressoou comigo.” Este lado romântico, muitas vezes ausente nas representações de personagens trans, enriquece a história de Caeneus e reforça a importância de contar histórias complexas e variadas sobre pessoas trans.
Kaos oferece, assim, uma narrativa que não só expande a mitologia grega, mas também dá visibilidade a personagens e histórias trans de forma sensível e empoderadora. A série mostra-nos que, tal como Caeneus, as pessoas trans sempre fizeram parte do ADN da Humanidade.

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