
Lyle e Erik Menendez, hoje com mais de 50 anos, cumprem prisão perpétua pelos brutais assassinatos do seu pai e da sua mãe, José e Mary Louise “Kitty” Menendez, em 1989, mas o caso expõe a impreparação da sociedade para lidar na altura com casos de abuso sexual.
O documentário de Alejandro Hartmann, disponível na Netflix, apresenta uma visão detalhada do caso, explorando os fatores que os levaram a cometer o crime, os julgamentos subsequentes e a forma como o abuso sexual dentro da família moldou a sua trágica história.
José Menendez, um magnata da indústria musical responsável, por exemplo, pelo sucesso da boy band latina Menudo, parecia ter uma vida perfeita. Já Kitty desempenhava o papel da esposa submissa que se anulou perante a vontade e a ambição do marido. Contudo, por trás desta fachada de sucesso, escondia-se um ambiente de abuso e manipulação.
Lyle e Erik, então com 21 e 18 anos, assassinaram o pai e a mãe numa noite de agosto. Durante algum tempo, conseguiram evitar suspeitas, graças à pertença de uma família rica e influente em Beverly Hills. No entanto, a reviravolta judicial não tardou e ambos foram eventualmente considerados suspeitos, confessando os crimes quando se entregaram às autoridades.
A família Menendez e os abusos sexuais
Durante o julgamento, um dos primeiros a captar uma atenção mediática global, os irmãos revelaram os abusos sexuais continuados por parte do pai desde crianças. José controlava ferozmente os seus filhos, impedindo mais tarde, por exemplo, que Erik frequentasse uma universidade longe de casa para que não escapasse ao seu domínio. Kitty, por seu lado, era acusada de nada fazer para travar os abusos, permanecendo em silêncio enquanto a sua família se desmoronava.
Lyle, o mais velho, ao descobrir que o irmão mais novo também era vítima do pai, confrontou-o, mas sem sucesso. Sentindo-se sem saída, ambos decidiram matar o pai, acreditando que a mãe também não poderia escapar ao destino trágico, dada a sua cumplicidade passiva.
O caso capturou a atenção de milhões de pessoas, mas o sistema judicial estadunidense, dependente da unanimidade das pessoas juradas, não conseguiu alcançar uma decisão no primeiro julgamento. Foi necessário repetir o processo, agora em 1996 e logo após o controverso veredicto do caso O.J. Simpson. A pressão sobre o sistema judicial era imensa e o segundo julgamento foi acelerado. Muitas testemunhas de defesa não foram escutadas e as opções de veredicto extremaram-se: os irmãos seriam ou completamente inocentes ou condenados à pena máxima.
Assim, o julgamento terminou com ambos condenados à prisão perpétua. Durante anos, estiveram separados em diferentes prisões, sendo um dos seus poucos pedidos que fossem reunidos, o que só aconteceu recentemente.
A invisibilidade dos homens vítimas de abuso sexual

A questão do abuso sexual dos irmãos Menendez foi amplamente desconsiderada no segundo julgamento. As alegações dos irmãos sobre os abusos perpetrados por José Menendez foram ridicularizadas e minimizadas. Durante esses meses do julgamento inicial, as declarações dos irmãos foram parodiadas nos média e não foram levadas a sério pela sociedade que exigia a condenação daqueles dois homens que choravam diante do tribunal e das câmaras.
No segundo julgamento, o juiz chegou a afirmar que homens não podiam ser abusados, tornando o argumento irrelevante no tribunal. Este ponto é abordado no documentário com uma visão crítica, realçando que, nos dias de hoje, o caso provavelmente seria julgado de forma diferente, tendo em conta o impacto psicológico do abuso continuado.
Embora os irmãos tenham admitido a culpa pelos assassinatos, o documentário sugere que o contexto de violência e abuso poderia ter influenciado a gravidade da sentença, se devidamente considerado. Lyle, que encontrou na prisão um propósito como ativista contra os abusos sexuais, hoje ajuda outros homens sobreviventes a encontrarem apoio e refúgio, através da partilha das suas experiências.
Em maio de 2023, surgiu uma nova reviravolta no caso. Os irmãos solicitaram uma audiência com base numa alegação de Roy Rosselló, ex-membro dos Menudo, que afirmou ter sido abusado sexualmente por José Menendez quando tinha apenas 14 anos. Esta nova informação, juntamente com uma carta de Erik de 1988 onde descrevia os abusos, reabriu a discussão sobre o caso. A 3 de outubro de 2024, o promotor de Los Angeles, George Gascón, anunciou que está a rever o recurso, dando uma nova esperança aos irmãos, que já passaram 28 anos na prisão.
Uma visão crítica sobre a série Monsters: The Lyle and Erik Menendez Story

Confesso que, após conhecer a história dos irmãos Menendez, tenho reservas em relação à série Monstros, criada por Ryan Murphy e Ian Brennan para a Netflix. Ao contrário da polémica série Dahmer – Monstro: A História de Jeffrey Dahmer, a forma como a narrativa é envolvida e promovida num tom homoerótico, distorcendo o trauma de abuso sexual, parece-me inadequada.
Ao fetichizar os protagonistas, a série desvirtua a gravidade da questão dos abusos sexuais dentro das famílias, que são dos mais comuns e devastadores. O abuso sexual não deve ser romantizado, e a escolha de promover a história dos irmãos Menendez com contornos eróticos levanta questões morais e éticas profundas. Desta vez, a sua visualização não passa por aqui.
Quanto aos irmãos Menendez, talvez importe ter em conta que, embora, obviamente, não justifique o assassinato do pai e da mãe, as suas circunstâncias traumáticas possam atenuar a sentença. Tal como estava em cima da mesa no primeiro julgamento, talvez 28 anos depois seja este o momento de lhes reconhecer devidamente o que lhes foi feito.
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