
A Sociedade Francesa de Endocrinologia e Diabetologia Pediátrica publicou um conjunto de diretrizes que representam o primeiro consenso nacional sobre cuidados de afirmação de género para pessoas trans. Este documento detalhado surge num momento de intenso debate sobre os direitos e a saúde das pessoas trans, particularmente jovens.
As diretrizes foram elaboradas de forma rigorosa, com cada secção avaliada por pequenos grupos de especialistas que contaram com colaboração externa. Posteriormente, o documento foi refinado por um grupo mais amplo de pessoas autoras, garantindo um trabalho baseado em evidências científicas.
O estudo apoia assim inequivocamente o uso de bloqueadores da puberdade e a terapia de reposição hormonal para menores trans, destacando a importância de um cuidado individualizado e baseado em evidências. O documento sublinha que permitir a transição precoce pode, em alguns casos, evitar a necessidade de cirurgias futuras. Este modelo prioriza o direito de jovens trans de explorarem a sua identidade de género e encontrarem o seu lugar ao longo do tempo.
Estudo rejeita o modelo de “esperar para ver” no que toca a jovens trans
As diretrizes rejeitam fortemente a abordagem de “esperar para ver”, defendida por alguns grupos anti-trans, comparando-a a uma forma de terapia de conversão. Segundo o estudo, esta abordagem não reduz o sofrimento psicológico; pelo contrário, aumenta o risco de suicídio e compromete o desenvolvimento psicossocial e cognitivo. Um estudo recente reforça esta posição ao mostrar que leis anti-trans aumentam a probabilidade de suicídio em até 72%.
O documento também rebate alegações de que bloqueadores da puberdade causam baixa densidade mineral óssea (DMO). O estudo aponta que jovens trans apresentam, em média, uma DMO inferior à população geral antes mesmo do tratamento, atribuído a fatores como disforia de género, menor atividade física e transtornos alimentares. Mais, com a terapia hormonal alinhada à identidade de género, os níveis de DMO tornam-se comparáveis aos da população cisgénero.
As diretrizes refutam também as conclusões do Cass Review, no Reino Unido, que alegam efeitos cognitivos negativos dos bloqueadores da puberdade. Segundo a equipa de especialistas, não há evidências de impacto negativo sobre a inteligência ou o sucesso académico.
Orientações práticas
O documento inclui informações úteis para jovens em transição, como técnicas de “binding” e “tucking“, além de cuidados específicos para diferentes etapas das suas vidas e das suas transições. Este detalhe reflete um compromisso com a saúde integral das pessoas trans ao longo de toda a sua vida.
Repercussões globais
Estas diretrizes chegam num contexto em que organizações como a OMS que, desde 2022, também recomendam cuidados de afirmação de género, evidenciando os benefícios para a saúde mental e física de jovens trans. Estudos recentes demonstram altos níveis de satisfação entre pessoas trans após cirurgias de afirmação de género e destacam a continuidade do uso de bloqueadores como um passo fundamental para o bem-estar.
Estas novas diretrizes representam um passo importante para proteger os direitos e a saúde das pessoas trans em França, especialmente jovens. Este torna-se assim um modelo de referência para outros países que procuram garantir cuidados de saúde baseados na ciência e na inclusão. Porque a transfobia não tem, nem pode ter, espaço nos cuidados de saúde.

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