
Durante décadas, o Super-Homem representou o ideal masculino: força, retidão, heterossexualidade. Mas, por detrás da capa e dos punhos cerrados, há muito que se insinua um subtexto queer na história deste ícone.
Com a chegada aos cinemas do novo Superman de James Gunn, interpretado por David Corenswet, reacende-se o fascínio global por uma das figuras mais icónicas da cultura pop. Dos voos espetaculares e aos salvamentos de última hora, há, ainda assim, uma outra narrativa menos visível que acompanha o Super-Homem desde os seus primórdios: a sua ligação com questões de identidade, masculinidade e, mais recentemente, representação LGBTQIA+.
A identidade dupla do Super-Homem como metáfora do armário


Clark Kent e Super-Homem são a mesma pessoa. E no entanto, vivem em mundos opostos. Clark é tímido, desajeitado, apagado. Super-Homem é confiante, poderoso, desejado. Esta separação, presente desde os anos 1930, é lida por muitas pessoas como uma metáfora do armário: o disfarce para esconder quem realmente se é.
Lois Lane apaixona-se por Super-Homem, mas ignora Clark. Ele, por sua vez, parece não se importar com isso. Esta dinâmica — onde a atração romântica e sexual é desviada — alimentou, já nos anos 1950, as críticas homofóbicas de Fredric Wertham, que acusava os super-heróis de promoverem a homossexualidade, em especial através das relações entre homens (como Batman e Robin).
Masculinidade idealizada… e frágil
A masculinidade de Super-Homem, vendida como ideal, é, na verdade, instável. O herói evita ligações sentimentais, especialmente com mulheres, como se estas o enfraquecessem. Em “Superman II” (1980), chega a abdicar dos seus poderes por amor — e o filme trata isso como um erro. Amar, nesse universo, é sinal de fraqueza.
Em substituição, as narrativas canalizam emoção para a violência. As rivalidades entre Super-Homem e vilões como Lex Luthor ou Batman têm mais carga emocional do que a relação com Lois Lane. A violência torna-se o substituto aceitável para o afeto.
Jon Kent e o novo paradigma

Mas, em 2021, a DC Comics anunciou que Jon Kent, filho de Clark e Lois, é bissexual na série Superman: Son of Kal-El. Esta revelação, feita no Dia Nacional de Coming Out, foi recebida com entusiasmo por fãs — e com ameaças por grupos anti-LGBTQIA+, ao ponto de os autores precisarem de proteção policial.
Mais do que uma questão de identidade, Jon Kent questiona o papel do herói. Como lutar contra robôs gigantes e ignorar a crise climática? Como ter super-ouvidos e não ouvir os gritos de quem é deportado? Nas palavras do argumentista Tom Taylor: “Que causas deve defender um Super-Homem de 17 anos hoje em dia?”
Jon apaixona-se por um rapaz e preocupa-se com o mundo à sua volta. É um herói mais empático e ativista. Em vez de fugir da intimidade ou da política, abraça ambas. Ao contrário do pai, não tem medo de amar nem de mudar.
O anúncio da bissexualidade de Jon Kent foi simbólico. Mas também mostrou os limites da indústria: a revelação chegou antes da história, através de um comunicado de imprensa. Foi uma jogada de marketing ou uma tentativa de normalizar a personagem? Talvez ambas, mas, tendo em conta que o coming out deseja-se por iniciativa própria, talvez houvesse espaço e tempo para que Jon, a personagem, se assumisse a seu tempo.
Super-Homem é um símbolo que evolui com o tempo
Super-Homem é mais do que um personagem. É um símbolo. E, como todos os símbolos, pode e deve ser reinterpretado. O legado do Super-Homem mostra como até os símbolos mais rígidos podem transformar-se. De ícone de uma masculinidade intocável, ele passou a espelhar dilemas reais sobre identidade, amor e justiça social.
Ao longo das décadas, o personagem evoluiu de forma desigual, mas constante — e com Jon Kent, essa evolução ganha uma nova coragem: a de existir plenamente, de amar abertamente e de lutar por um mundo mais justo. Ser super não é esconder quem se é — é, precisamente, o contrário.
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