Quando as histórias clássicas chegam à literatura queer

Considero-me um leitor ávido. Tenho lido muito nos últimos anos e, apesar de no meu repertório faltarem algumas obras clássicas, há algo que percebi no ano passado e quero partilhar convosco.

Todos conhecemos os romances de amor à primeira vista e as inúmeras adaptações para o grande ecrã dessas histórias. Como 99% delas giram em torno de casais heterossexuais, estas narrativas raramente são associadas à comunidade LGBTQ. As nossas histórias, aquelas que chegam (quando chegam!) ao cinema, estão quase sempre envoltas em sofrimento, morte e insegurança; personagens que enfrentam problemas de saúde mental decorrentes dessa própria experiência; um ciclo de relações que intensifica o estigma e raramente conduzem a algo real ou palpável.

Será que estas histórias não existem? Claro que existem. Mas sabem o que também falta? Representação em enredos lineares — aqueles em que o sofrimento é ultrapassável, a autodescoberta segue caminhos luminosos e que, afinal, refletem aquilo que já é possível na sociedade.

Conhecemos a história da Cinderela, certo? Então, por que razão não a vemos tantas vezes retratada em obras LGBT comerciais ou nas suas adaptações? Porque “não são verdadeiras”? É um facto que o mundo não é perfeito, mas, para quem se está a descobrir — muitas vezes em sofrimento —, não seriam estas narrativas um refúgio de paz interior? Histórias que afirmem a normalidade da nossa identidade?

Foi isso que reparei ao ler dois dos livros LGBTQ mais populares do ano passado e que apresentam precisamente isto: narrativas amplamente comerciais, distribuídas e difundidas que são amorosas, ternas, e celebram a amizade e o amor de forma genuína.

Os 99 Namorados de Micah Summers – Adam Sass

A sinopse do livro não poderia ser mais indicativa do que vos falo, ao dizer:

Um rapaz à procura do boy perfeito, numa comédia romântica cheia de cultura pop, arte e imaginação.

O conto de fadas de que todas as pessoas queer precisam… claro, com um final feliz.

Quer dizer, como pessoa queer, precisar de um conto de fadas de tempos a tempos é assim tão mau? Desnecessário? Pois bem, no mundo existente pode, na verdade, ser um acalmar a pensamentos ou ideias tão confusas e foi o que descobri nesta narrativa young adult publicada pela Secret Society (Penguin). O como ri com o protagonista à procura do rapaz perfeito para, no fim, perceber que por mais que o tivesse, essa perfeição não era só o que procurava.

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Um Namorado para Levar, Please! – Sher Lee

Este foi o primeiro livro que li do catálogo LGBT da Secret Society e, apesar de não me ter cativado tanto, consigo ver como esta história consegue agregar diversas das cenas que vemos nos grandes romances, e dar as mesmas, e essa possibilidade, aos protagonistas da história. Segue um dos maiores clichés literários: duas personagens desconhecidas que se tornam acompanhantes num casamento para depois nunca mais se encontrarem. Mas todos sabemos como acaba isto, certo?

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Sei que existem outros livros, um deles foi das minhas primeiras recomendações, mas estas duas histórias foram as que me levaram a refletir em como a representação tem, e deve, chegar a todas as esferas, mesmo que essas histórias para muitos pareçam utópicas, porque na utopia está, muitas vezes, a salvação e a felicidade deveria ser assim: simples, fácil e acessível.

Já leram estes livros? Conhecem-nos?



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