![Perseguição e assédio: como a inteligência israelita usa a vulnerabilidade queer palestiniana
[Na imagem: Soldado israelita com bandeira do Orgulho LGBTQ+ em Gaza, novembro de 2023.]](https://esqrever.com/wp-content/uploads/2025/09/perseguicao-e-assedio-como-a-inteligencia-israelita-usa-a-vulnerabilidade-queer-palestiniana.jpg?w=1024)
Israel apresenta-se muitas vezes como um refúgio para pessoas LGBTQ+ no Médio Oriente, mas essa imagem é parcial, propagandista, panfletária e, muitas vezes, serve ambições políticas. Nos últimos anos têm sido denunciados casos de vigilância, chantagem, assédio e de violência dirigida especificamente a pessoas queer palestinianas.
As vítimas desta perseguição estatal descreveram a forma como perfis anónimos em aplicações como o Grindr são usados para um contacto inicial. Posteriormente, já fora da aplicação, são confrontadas com fotografias de família, nomes e moradas. O objetivo é demonstrar conhecimento de informações pessoais e privadas para forçar a colaboração com as entidades israelitas.
Organizações internacionais documentaram práticas semelhantes em larga escala. Relatórios detalham como são usadas armadilhas digitais para extorquir informações.
Por exemplo, depois de parados numa operação-stop, Mohammed e o seu parceiro ficaram detidos durante cinco horas. Um oficial israelita percorreu as suas conversas e fotos íntimas no Grindr e questionou-os sobre encontros com outros palestinianos. Ele pediu a Mohammed para trabalhar como colaborador, oferecendo-lhe pagamentos em shekels e prometendo não prendê-lo. Quando Mohammed recusou, soldados israelitas espancaram-no durante duas horas.
Consequências pessoais e comunitárias
“Ao contribuírem para o apagamento dos corpos e das vozes palestinianas, contribuem para a desumanização das pessoas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza — tanto queer quanto heterossexuais — e tentam justificar a hierarquia de vidas que privilegia israelitas em detrimento da população palestiniana”, disse Sa’ed Atshan, professor associado do Swarthmore College que estuda género e sexualidade na Palestina.
Ex-oficiais israelitas confirmaram a estratégia: a recolha de dados íntimos para criar redes de suspeita. “Não se trata apenas de segurança, é uma forma de controlo social”, disse um antigo agente. Ao transformar a intimidade e as relações interpessoais numa arma, o resultado é uma comunidade queer fragmentada, onde a confiança se esvai e a solidariedade local enfraquece.
As consequências são devastadoras. Muitas vítimas arriscam a expulsão da família, a violência comunitária ou a prisão. Casos documentados mostram detenções, agressões e até execuções públicas em contextos de acusação de colaboração. “Vives com medo constante de ser apanhado em qualquer direção”, disse um homem palestiniano queer entrevistado pela Al Jazeera. Quem colabora, arrisca-se a ser acusado de traição; quem recusa, enfrenta perseguição física.
O paradoxo do “refúgio” e o fenómeno do pinkwashing

Israel promove-se como uma nação progressista em matéria LGBTQ+, e Tel Aviv é apresentada internacionalmente como “capital gay do Médio Oriente”. No entanto, ativistas denunciam a incoerência e pinkwashing, ou seja, acusam o governo israelita de usar conquistas LGBTQ+ para melhorar a imagem externa enquanto propaga violência e assédio contra essa população noutros territórios.
[Na imagem: Soldado israelita com bandeira do Orgulho LGBTQ+ em Gaza, novembro de 2023.]
A projeção e propaganda da tolerância em cidades como Tel Avive, embate violentamente em políticas que mantém estruturas repressivas contra a população palestiniana. Esta é, aliás, uma das incoerências encontradas pela investigadora Sarah Schulman no seu livro Israel/Palestine and the Queer International onde aponta que não se pode falar em direitos queer num lado e, ao mesmo tempo, usar a vulnerabilidade queer como arma noutro.
Apesar dos avanços legais, Israel não reconhece, por exemplo, o casamento igualitário civil dentro do país. Apenas casamentos realizados no estrangeiro podem ser aceites, mas a atual coligação governamental inclui partidos de extrema-direita que têm promovido ataques aos direitos LGBTQ+.
Internacionalização do debate: cultura, desporto e solidariedade
A escalada da violência em Gaza trouxe apelos à responsabilização de Israel em palcos culturais e desportivos mundiais. Artistas e países têm vindo a exigir a exclusão temporária do país de eventos internacionais.
Salvador Sobral, vencedor da Eurovisão em 2017, afirmou recentemente: “Está na hora de Portugal acordar. […] Desde que o genocídio é declarado, é óbvio que Israel não pode estar na Eurovisão a cantar canções de circo, não faz nenhum sentido.”
Ativistas queer sublinham que boicotes culturais não são contra indivíduos LGBTQ+ israelitas, mas contra a instrumentalização da sua visibilidade. Há, pois, que não confundir os regimes com os povos.
Porque convém não esquecer que Israel vive um regime liderado pelo governo de Benjamin Netanyahu onde fazem parte um autoproclamado “homofóbico fascista” como ministro das Finanças e um ministro da Educação que defende as práticas de conversão. E que, ainda recuando a um dos maiores palcos culturais do mundo, a Eurovisão, o próprio governo financia campanhas de promoção à canção israelita (e não a emissora, como acontece com várias canções de outros países). Porque é a narrativa de Israel que, com a ajuda do pseudo-bloqueio político do festival, prevalece no fim. Talvez não por muito mais tempo.
Israel fala para vários públicos e como mais lhe convém
“O Estado israelita tem públicos diferentes“, explica novamente Sa’ed Atshan, que é também autor do livro Queer Palestine and the Empire of Critique. “Se se dirige a públicos domésticos favoráveis à comunidade LGBTQ em Israel ou globalmente, então recorre a um discurso de pinkwashing, tentando retratar Israel como um paraíso gay.”
Por outro lado, se fala para públicos homofóbicos, incluindo no país e cristãos sionistas no exterior, “apresenta um discurso homofóbico sobre conservadorismo religioso e adesão aos ‘valores familiares’ e repulsa pela diversidade sexual”.
Também Phillip Ayoub, da University College of London, acompanha esta visão na dualidade de critérios do governo de Israel perante as comunidades LGBTQ+ da região. “Não existe uma “porta cor de rosa” na parede para que pessoas palestinianas queer possam sair de Gaza e construir uma vida em Israel“, afirmou. Pior, “a retórica israelita apenas torna tudo ainda mais difícil para a população palestiniana LGBTQ, porque reforça a ideia de que a diversidade sexual não existe em mais lado nenhum… Apaga o facto de que existem ativistas queer da Palestina.”
Mesmo para a maioria judaica na comunidade LGBTQ+, o histórico de Israel em matéria de igualdade de direitos é, assim, suplantado pela sua propaganda oficial.
“A Palestina é uma sociedade patriarcal e homofóbica, mas Israel também o é. Existem mais direitos queer em Israel do que noutros países do Médio Oriente, mas ainda são limitados e não é uma grande história de sucesso“, afirmou Ayoub.
Como contextualizar a realidade sem apagar a complexidade
É essencial separar três planos. Por um lado, está o direito das pessoas LGBTQ+ em Israel a viverem com segurança e a beneficiarem de proteções legais. Em simultâneo, é necessário denunciar as práticas de inteligência que visam pessoas palestinianas queer, transformando vulnerabilidades em instrumentos de controlo. E, por fim, deve ser reconhecido o risco de instrumentalização da visibilidade queer para fins geopolíticos, uma prática que fragiliza a luta universal pelos direitos humanos.
Assinalar abusos não significa negar espaços seguros dentro de Israel, significa, sim, exigir coerência ética e moral. Ou seja, a defesa de direitos num dos lados não pode servir para encobrir violações noutras frentes.
Pessoas palestinianas queer com voz própria
A resposta passa por dar prioridade às organizações queer palestinianas, como a Al Qaws, apoiando a sua liderança local. Também é essencial exigir investigações independentes sobre as denúncias de vigilância e chantagem.

Da mesma forma, reconhecer o genocídio de um povo, cada vez mais unânime no mundo, é vital para que ações possam ser devidamente tomadas e responsáveis chamados à justiça. Não é por acaso que o Tribunal Penal Internacional tem um mandado de captura a Netanyahu, ao ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, bem como ao chefe do braço militar do Hamas, Mohammed Diab Ibrahim Al-Masri, mais conhecido como Deif.
No plano cultural e desportivo, importa sensibilizar instituições para as implicações éticas das suas escolhas. E, em última análise, é fundamental defender os direitos LGBTQ+ de forma universal, sem permitir que sejam instrumentalizados por agendas políticas ou bélicas.
Esta é uma realidade verdadeiramente complexa. Importa assim reter que, além de ser essencial não confundir os povos com os regimes, falar sobre chantagem e assédio não é simplificar o conflito: é proteger quem está mais vulnerável e exigir coerência na luta pelos direitos humanos que se desejam, sempre, sempre, universais e uma questão de princípio e de fim em si. A hora de ação, ainda que já tardia, é agora.
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