Como Heated Rivarly ajuda a refletir no mercado literário

Muito provavelmente, quando estiverem a ler isto e se forem fãs da série Heated Rivarly, a mesma já terminou. Com a segunda temporada confirmada para após 2026, a probabilidade de se estar numa espera agoniante é, também, grande. Mas não é propriamente disto que vos quero falar neste início de ano. É antes de algo, talvez, mais triste. Realista, mas triste e preocupante.

A “importância” da série baseada no trabalho de Rachel Reid

A série, para os que têm acompanhado também as peças escritas aqui no esQrever, tem quebrado diversas barreiras. Com audiências gritantes na Crave, a sua casa mãe e que apoiou o projeto, assim como na HBO, que o comprou para distribuição internacional, a série, em cada episódio, foi crescendo em audiências, popularidade e falatório.

Quer esta popularidade advenha de determinados géneros ou não, aquilo que os números vieram mostrar foi que não só existe espaço para estas histórias, como os espetadores as querem. Desejam-nas não apenas pela representatividade de ver, no grande ecrã, cenas de sexo entre dois homens, mas porque estas os colocam em momentos de vulnerabilidade e crescimento — algo que parece estar a desaparecer ou que, em culturas tão fechadas ou machistas, é raro de encontrar. Mais ainda, veio demonstrar que não só há vontade de apostar nestas narrativas, como existe uma exigência clara de respeito pelo material original em que a história se baseia. E isto, isto tem um grande impacto.

O que se tem passado no mercado literário

Fonte: Smith Collection/Gado/Getty Images

Talvez muitos não o saibam, mas ao fazer um ano desde que Trump tomou posse, começa também a assinalar-se, infelizmente, um período particularmente intenso de ataques à liberdade de expressão e artística nos EUA e nos seus diversos territórios, sobretudo através da proibição e remoção de livros de bibliotecas públicas e escolares.

Segundo dados da American Library Association (ALA), 2023 e 2024 registaram números recorde de tentativas de censura literária, com milhares de títulos alvo de pedidos formais de remoção. A grande maioria destes livros partilha um padrão comum: obras que abordam identidade de género, orientação sexual, racismo, saúde mental ou experiências de vida fora da norma dominante. Em particular, livros com personagens LGBTQIA+, pessoas racializadas ou narrativas autobiográficas têm sido desproporcionalmente visados.

Editoras como a Penguin Random House avançaram mesmo com ações judiciais contra distritos escolares e estados norte-americanos, defendendo que estas proibições violam a Primeira Emenda da Constituição dos EUA, ao restringirem o acesso à informação e à diversidade de pensamento. Ainda assim, o impacto prático destas decisões legais é lento, deixando milhares de leitores, sobretudo jovens, sem acesso a livros que refletem as suas vivências.

Ao mesmo tempo, organizações como a PEN America alertam que estes book bans não são casos isolados, mas parte de uma estratégia mais ampla de controlo cultural, que visa limitar o tipo de histórias consideradas “aceitáveis” no espaço público. Este cenário torna-se ainda mais preocupante quando observado em paralelo com o crescimento da popularidade de séries e adaptações que celebram exatamente aquilo que está a ser censurado no papel.

Por isso, ao olhar para fenómenos como a popularidade da série Game Changers, não consigo deixar de questionar o que 2026 poderá trazer para o mercado literário internacional. Entre o sucesso evidente destas narrativas noutros formatos e a repressão crescente no circuito editorial e educativo, cria-se uma tensão clara entre aquilo que o público procura e aquilo que determinadas estruturas tentam silenciar.

Voltando para Portugal, é certo que a venda de livros tem aumentado, mas continuamos a assistir a uma baixa taxa de traduções de livros LGBTQIA+ por parte dos grandes grupos editoriais. Mais ainda, preocupa-me não só a publicação destes títulos — algo que a Secret Society tem vindo a fazer, enquanto chancela do grupo Penguin Random House Portugal — mas a diversidade de géneros dentro deste universo literário. E isso, isso sim, inquieta-me.

Um novo ano

Não sou pessimista. E, apesar de adorar o otimismo e de o incorporar, procuro que o realismo faça também parte da equação. Nesse equilíbrio, a esperança parece-me ser a grande solução. A esperança de começarmos este novo ano não só com força renovada, mas com uma maior preocupação em dar ainda mais destaque aos livros. Às vozes que eles representam. Em mostrar ao mercado que é o leitor quem deve ordenar, e não o medo ou a repressão.

Convém, com isto, recordar outras adaptações bem-sucedidas que tivemos nos últimos anos. Desde a série Overcompensating, da Prime, Heartstopper, em formato de série e jovem-adulto, até ao filme Vermelho, Branco e Sangue Azul, ambos exemplos claros de como estas histórias encontram público, impacto e longevidade quando são respeitadas e bem trabalhadas. No entanto, o panorama recente também revela o seu lado mais frágil. Este ano assistimos ao cancelamento de séries como Boots, alvo de fortes críticas por parte de setores políticos norte-americanos, e Olimpo, ambas da Netflix — uma produção americana e outra espanhola — que, apesar do sucesso e da receção positiva, não passaram da primeira temporada.

Ou seja, por mais representação que exista, continuamos a ver como determinados serviços de streaming optam por encerrar estas narrativas, reduzindo, na prática, a presença de histórias queer no panorama audiovisual global. A representação existe, sim, mas permanece instável, condicionada e, muitas vezes, descartável.

Que todas as histórias merecem, efetivamente, ser contadas. Para que, ao longo das publicações deste ano, vos possa falar cada vez mais de títulos que chegam à nossa língua. Ao nosso país. Para que estas histórias tenham, assim, a possibilidade de chegar às bibliotecas físicas e digitais e para que, no final do dia, cada pessoa possa ter a oportunidade de descobrir uma parte de si representada numa narrativa.

E vocês, quais são os vossos desejos para 2026?


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