
A cena de coming out de Will Byers, no penúltimo episódio da temporada final de Stranger Things, tornou-se um dos momentos mais discutidos de toda a série. Para algumas pessoas, foi excessiva ou desnecessária. Para os criadores, foi o culminar inevitável de uma narrativa construída ao longo de nove anos.
No episódio Chapter Seven: The Bridge, Will revela à mãe, Joyce, e ao seu grupo mais próximo que Vecna tem explorado os seus medos mais profundos. A resposta não surge através de mais silêncio ou contenção, mas da verbalização daquilo que sempre esteve presente. A verdade passa a ser, literalmente, uma arma contra o mal.
Em entrevista à Variety, Ross Duffer sublinhou que esta não foi uma decisão súbita ou oportunista. “É uma cena que temos vindo a construir há nove anos. Era fundamental, não apenas do ponto de vista temático, mas também narrativo.”
Para os irmãos Duffer, Vecna representa mais do que um vilão sobrenatural. Representa medos internalizados, violência social e tudo aquilo que empurra as pessoas para a negação de si próprias. Derrotá-lo exige, por isso, um gesto de autoaceitação.
Matt Duffer explicou essa lógica de forma particularmente clara. O percurso de Will faz-se em dois momentos distintos: primeiro, aceitar-se internamente; depois, encontrar coragem para o dizer em voz alta.
“O volume 1 é realmente sobre auto-aceitação, certo? Isso é uma espécie de passo um. E então no segundo vemos Will a falar com Robin – é algo que ele quer fazer“, explicou.
A cena não funciona como manifesto externo, mas como resolução de um conflito interno que atravessa toda a série.
“Ele está a tentar descobrir como se assumir e sabe que precisa fazê-lo, que esse é o seu passo final. Encontra então a coragem para o fazer. E é realmente a melhor ‘f*** you’ para Vecna. Essa era a intenção”, rematou Duffer.
Críticas que trazem homofobia nas entrelinhas
Ainda assim, a receção foi marcada por forte polarização. O episódio registou a pontuação mais baixa de toda a série no IMDb, contrastando com os restantes episódios da temporada.
Nas redes sociais, em particular no X/Twitter, surgiram comentários abertamente homofóbicos, muitos deles acusando a série de “agenda” ou “excesso de wokismo”.
Outras críticas, menos ideológicas, centraram-se em opções de escrita, questionando o facto de Will partilhar o momento com personagens menos centrais na sua vida.
O foco esteve sempre na proteção de Noah Schnapp
Para os criadores de Stranger Things, porém, o foco nunca esteve na reação externa, mas na proteção de Noah Schnapp que se assumiu gay aos 18 anos. “Acho que sou mais parecido com o Will do que pensava“, escreveu na altura.
Ross Duffer descreveu a interpretação como “muito corajosa” e “profundamente vulnerável”, reconhecendo que o tema tocava diretamente a experiência pessoal do ator, que se assumiu publicamente em 2023. A prioridade foi garantir que Schnapp se sentia confortável e representado de forma honesta. Quando isso aconteceu, a cena cumpriu o seu propósito.
Matt Duffer admitiu não ter antecipado o backlash. “Não somos subtis”, afirmou, lembrando que o arco de Will sempre esteve à vista. Em Stranger Things, nunca foram os monstros interdimensionais o maior perigo. O verdadeiro terror reside no medo de existir plenamente num mundo que insiste em punir a diferença.
No fim, o coming out de Will não é apenas um momento íntimo nem uma resolução emocional. É um gesto político no sentido mais básico e mais profundo do termo. Num mundo que insiste em transformar a diferença em fraqueza, dizer a verdade sobre quem se é torna-se um ato de resistência.
Em Stranger Things, Vecna alimenta-se do medo, da culpa e do silêncio. Ao recusar esconder-se, Will retira-lhe precisamente esse poder. Não derrota o monstro com força bruta, mas com autoaceitação e ligação ao seu círculo de amizades. Num tempo em que a existência queer volta a ser tratada como ameaça, este gesto não é excessivo nem gratuito. É coerente, necessário e, acima de tudo, profundamente político.
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