
Agentes ICE assassinaram Renee Nicole Good, desarmada, durante um raide e diante da sua mulher.
Na última semana, Mineápolis tornou-se o epicentro de uma das maiores operações recentes do Immigration and Customs Enforcement (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos, ICE) no estado do Minnesota.
Cerca de dois mil agentes federais foram destacados para uma vaga de rusgas anti-imigração conduzidas sem coordenação com autoridades locais. A dimensão da operação, o seu carácter ostensivo e a ausência de diálogo com a cidade criaram um clima de medo generalizado, sobretudo em bairros já marcados por vigilância policial intensa.
Organizações comunitárias e líderes locais alertaram desde cedo para o risco de confrontos e para a probabilidade de uso excessivo da força. A história recente de Mineápolis, profundamente marcada pelo assassinato de George Floyd, tornou inevitável a leitura política e simbólica desta presença federal. Foi neste contexto de tensão crescente, intimidação e desumanização que Renee Nicole Good perdeu a vida.
Quem era Renee Nicole Good?
Renee Nicole Good tinha 37 anos. Definia-se como mulher, mãe, poetisa e parte da comunidade queer. Vivia em Mineápolis com a sua mulher e os filhos de 15, 12 e 6 anos e construía a sua vida longe de qualquer protagonismo político ou militância organizada. A família descreve-a como uma pessoa profundamente empática, dedicada ao cuidado de outras pessoas e conhecida pela sua generosidade e afeto.
Na manhã da sua morte, Renee e a esposa limitaram-se a parar o carro para observar e filmar a atuação do ICE no seu bairro. Não participavam num protesto organizado, não confrontavam agentes e não representavam qualquer ameaça. Minutos depois, Renee foi baleada na cabeça por um agente federal, enquanto tentava afastar-se do local. Estava desarmada e viria a morrer no hospital, horas mais tarde.
“Mataram a minha mulher. Não sei o que fazer”, ouve-se a mulher através de soluços num vídeo amplamente partilhado, com um SUV danificado atrás dela. “Nós paramos para filmar e eles balearam a cabeça dela”, grita a mulher.
“Temos uma criança de 6 anos na escola”, diz, quase incapaz de respirar e perante uma cena caótica em que oficiais federais impediram que um médico auxiliasse a vítima. “Somos novas aqui”, diz a mulher em desespero.
Donna Ganger, a sua mãe, falou da filha como “uma das pessoas mais gentis que já conheci. Ela era extremamente apaixonada. Ela tem cuidado das pessoas toda a sua vida. Ela era amorosa, perdoadora e carinhosa. Ela era um ser humano incrível.”
O que mostram os vídeos e o que diz o governo federal sobre a morte de Renee Nicole Good?
As imagens que circularam nas redes sociais e em órgãos de comunicação social mostram o veículo conduzido por Renee a virar e a afastar-se lentamente do local. É nesse momento que um agente dispara, provocando a perda de controlo do carro e a colisão subsequente. Não há, nos vídeos disponíveis, indícios de agentes colocados à frente do veículo no instante dos disparos.
Apesar disso, o Department of Homeland Security afirmou que o agente agiu em legítima defesa, alegando uma tentativa de atropelamento e classificando o episódio como “terrorismo doméstico”. Essa versão foi rapidamente contestada por análises independentes, que não identificam qualquer risco iminente para os agentes envolvidos. A discrepância entre as imagens e o discurso oficial reacendeu críticas à credibilidade do DHS, que já foi acusado noutras ocasiões de divulgar informações enganosas ou politicamente instrumentalizadas.
Condenação firme das autoridades locais
A reação das autoridades locais foi imediata e pouco habitual no tom. O presidente da câmara de Minneapolis, Jacob Frey, rejeitou frontalmente a versão federal, classificando-a como falsa e irresponsável. Exigiu a retirada imediata do ICE da cidade, argumentando que a presença federal estava a gerar insegurança e a colocar vidas em risco.
O governador do Minnesota, Tim Walz, descreveu a morte de Renee Good como “evitável” e “desnecessária”. “Eu vi o vídeo, não acreditem nesta máquina de propaganda.” Comprometeu-se com uma investigação completa, justa e célere, sublinhando que operações concebidas para gerar medo e impacto mediático têm consequências reais e fatais. Ambos apelaram à contenção, receando que a escalada retórica federal pudesse justificar novas intervenções repressivas.
A retórica federal e a desumanização da vítima
Em contraste, a resposta federal seguiu um guião conhecido. O presidente Donald Trump descreveu Renee como “agitadora profissional”, enquanto a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, elogiou o agente responsável pelos disparos. Esta linguagem procura deslocar a responsabilidade do Estado para a vítima e enquadrar a violência como inevitável ou justificável.
Trata-se de uma estratégia recorrente: primeiro recorre-se à força letal, depois constrói-se uma narrativa que criminaliza quem morreu. Ao fazê-lo, normaliza-se a violência estatal e esvazia-se o espaço para responsabilização efetiva.
Luto, vigílias e memória
Na noite seguinte, centenas de pessoas reuniram-se em vigília no bairro onde Renee vivia. A sua companheira, em choque, resumiu a perda numa frase que se tornou símbolo do caso: “Mataram a minha mulher.” A mãe de Renee descreveu-a como uma pessoa carinhosa, generosa e profundamente humana, sublinhando que não era alvo de qualquer investigação nem representava ameaça para ninguém.
O contraste entre esta memória e a linguagem usada por responsáveis federais tornou-se central no debate público, revelando a distância entre quem vive as consequências da violência e quem a justifica à distância.
O alerta da Human Rights Campaign
Num comunicado à The Advocate, Kelley Robinson, presidente da Human Rights Campaign, foi inequívoca. “Hoje, uma mulher foi morta sem sentido durante uma ação do ICE — um lembrete brutal de que esta agência coloca todas as comunidades em risco, espalhando medo em vez de segurança.”
Robinson sublinhou que o facto de Renee poder integrar a comunidade LGBTQ+ evidencia como pessoas e comunidades já vulnerabilizadas acabam por pagar o preço mais alto. Exigiu uma investigação completa, responsabilização real e ação política decisiva: “Devemos remover o ICE e seu terror de todas as nossas comunidades antes que ocorra uma violência ainda mais evitável.”
Violência racial e policiamento seletivo
Nos Estados Unidos, a violência policial e federal tem atingido de forma desproporcionada comunidades negras e latinas há décadas, através de abordagens agressivas, rusgas frequentes e uso excessivo da força.
As operações do ICE inserem-se nessa longa história de policiamento racializado, em que determinados bairros e corpos são tratados como suspeitos à partida.
Ainda em março passado, Andry Hernandez Romero foi preso em El Salvador num centro de alta segurança, sem julgamento nem provas, por ser gay, migrante e ter duas coroas tatuadas.
Reconhecer a dimensão racializada desta violência sistémica não relativiza a morte de Renee; ajuda, sim, a explicar por que tantas outras mortes passaram anos sem atenção mediática ou justiça devidas.
Responsabilidade política e uma luta comum
A deputada estadual Leigh Finke responsabilizou diretamente o governo federal, alertando que a chegada massiva de agentes cria condições previsíveis para a violência. Dados recentes indicam dezenas de mortes sob custódia do ICE apenas em 2025, apontando para um problema estrutural, não para um incidente isolado.
A morte de Renee Nicole Good cruza lutas antigas contra o racismo estrutural, a violência policial e a perseguição de pessoas LGBTQIA+. Movimentos como o Black Lives Matter expuseram um sistema que decide a suspeição discriminatória antes de qualquer ato. O ICE replica essa lógica, agora aplicada também a quem observa, filma ou se recusa a aceitar a intimidação como normal.
A justiça para Renee Good não pode ser apenas individual. Tem de ser estrutural, intersecional e politicamente consequente. Sem verdade, responsabilização e limites ao poder policial, novas mortes ocorrerão e continuarão a ser justificadas em nome de uma “segurança” que nunca chega a quem mais precisa.

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