Comportamento homossexual em primatas tem raízes evolutivas profundas, revela novo estudo

Comportamento homossexual em primatas tem raízes evolutivas profundas, revela novo estudo

Fotografia por Thomas Fuhrmann:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mountain_gorilla_(Gorilla_beringei_beringei)_in_Bwindi_Impenetrable_09.jpg
Fotografia de gorila-da-montanha por Thomas Fuhrmann.

O comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo é comum em várias espécies de primatas e cumpre funções sociais relevantes. A conclusão é de um novo estudo científico que reforça a ideia de que esta diversidade comportamental faz parte da história evolutiva das espécies.

A investigação, publicada na Nature Ecology & Evolution, analisou dados de 491 espécies de primatas não humanos. Em 59 delas, foram identificados comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo, incluindo lémures, macacos e grandes símios de África, Ásia e Américas.

Segundo o estudo, a ampla distribuição deste comportamento indica uma “raiz evolutiva profunda”, contrariando a visão histórica de que se trataria de uma anomalia biológica.

Do “paradoxo darwiniano” à vantagem evolutiva

Durante décadas, o comportamento homossexual em animais foi descrito como um “paradoxo darwiniano”. A lógica era simples: não conduz diretamente à reprodução, logo não poderia ser favorecido pela seleção natural.

Essa leitura tem vindo a ser desmontada com estudos recentes a mostrarem que estes comportamentos podem ser parcialmente herdados e trazer vantagens indiretas, sobretudo ao nível social.

A diversidade de comportamentos sexuais é muito comum na natureza, entre espécies e em sociedades animais. É tão importante como cuidar da descendência, afastar predadores ou procurar alimento”, afirmou Vincent Savolainen, biólogo do Imperial College London, em declarações à AFP.

Alianças, stress e sobrevivência

Savolainen estuda macacos-rhesus em Porto Rico há oito anos. A sua equipa observou que machos que mantêm comportamentos sexuais entre si tendem a formar alianças mais fortes.

Essas alianças podem traduzir-se em maior acesso a fêmeas e, consequentemente, em mais oportunidades reprodutivas. Em 2023, o mesmo grupo concluiu que cerca de 6% destes comportamentos são herdados, dependendo de vários fatores sociais e ambientais.

O novo estudo cruzou estes dados com características ecológicas e sociais das espécies. O comportamento é mais frequente em primatas que vivem em ambientes hostis, com escassez de alimento, ou sob forte pressão de predadores.

É o caso dos macacos-de-gibraltar, que habitam regiões áridas, ou dos macacos-vervet, frequentemente ameaçados por grandes felinos e serpentes.

As equipas de investigação sugerem que o sexo entre indivíduos do mesmo sexo pode funcionar como regulador social. Ajuda a reduzir tensão, gerir conflitos e manter a coesão do grupo em contextos de stress elevado.

Hierarquias, competição e laços sociais

O comportamento é também mais comum em espécies com grandes diferenças de tamanho entre machos e fêmeas, como os gorilas-da-montanha.

Estas diferenças estão associadas a grupos sociais maiores, maior competição e hierarquias mais rígidas. Já espécies com dimorfismo sexual reduzido tendem a viver em pares ou pequenos núcleos familiares.

Segundo o estudo, o comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo “pode funcionar como uma estratégia social flexível, usada para reforçar laços, gerir conflitos ou construir alianças, consoante as pressões ecológicas e sociais enfrentadas por cada espécie”.

Estima-se que, no total, mais de 1.500 espécies animais envolvem-se em comportamento homossexual e parentalidade homoparental, mudam de sexo ou formam matriarcados.

E os humanos?

A investigação admite que fatores semelhantes possam ter influenciado os antepassados humanos. Ainda assim, sublinham limites nesta comparação.

Os nossos antepassados tiveram certamente de enfrentar as mesmas complexidades ambientais e sociais”, explica Savolainen. “Mas existem aspetos completamente únicos nos humanos modernos, que têm uma complexidade de orientações sexuais e preferências que este estudo não aborda”.

O artigo alerta ainda para interpretações abusivas dos resultados. Em particular, rejeita a ideia de que maior igualdade social pudesse eliminar comportamentos ou orientações não heterossexuais em humanos.

Um avanço na compreensão evolutiva

A investigação foi elogiada por especialistas independentes. Para a antropóloga Isabelle Winder, da Bangor University, o estudo representa um avanço metodológico importante.

A demonstração de que métodos comparativos modernos conseguem, talvez pela primeira vez, iluminar de forma realista algumas das complexidades da evolução de comportamentos ‘semelhantes aos humanos’ é o aspeto mais entusiasmante deste trabalho”, escreveu.

O estudo reforça uma conclusão cada vez mais sólida na ciência: a diversidade de comportamentos sexuais não é exceção na natureza. É, sim, parte integrante da vida social, da sobrevivência e da evolução.


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