
Pillion estreia a 6 de março em Portugal, depois de chegar ao Brasil a 12 de fevereiro. Realizado por Harry Lighton, o filme propõe algo ainda pouco comum no cinema queer contemporâneo: uma representação frontal, não mediada e não moralizante do desejo BDSM entre homens.
Mas longe de funcionar como provocação vazia, Pillion constrói-se como um retrato íntimo de relação, poder e pertença. A sexualidade não é acessória, é linguagem, estrutura e, sim, política.
Uma narrativa queer que não pede licença
Grande parte da representação LGBTQIA+ no cinema continua marcada pela necessidade de tradução. Explicar ao público maioritário, suavizar conflitos, tornar o desejo “compreensível” ou aceitável. Pillion recusa esse lugar.
O filme conta com Harry Melling (Colin), no papel de um homem gay tímido, e Alexander Skarsgård (Ray), um enigmático motociclista que iniciam um relacionamento BDSM.
Mas aqui a relação entre Colin e Ray não é apresentada como problema a resolver, um trauma a justificar ou uma fase a ultrapassar. É antes uma relação consensual, negociada e emocionalmente complexa. O filme não se preocupa em educar quem observa de fora. Limita-se a observar por dentro.
Essa escolha é central para a sua relevância. Ao não domesticar o desejo, Pillion afirma que vidas queer não existem para validação externa. Existem, sim, porque são vividas.
BDSM e Kink como comunidade, não como desvio
O título, Pillion, refere-se ao assento de uma mota — metáfora para a posição submissa que Colin assume na relação, mas também para a viagem emocional que empreende.
O BDSM surge no filme integrado numa comunidade concreta, com códigos, rituais e cuidados. Não é um fetiche isolado nem um segredo vergonhoso. É espaço de pertença e reconhecimento.
Esta abordagem aproxima Pillion de uma tradição histórica frequentemente apagada. As comunidades BDSM e Kink estiveram presentes desde os primeiros momentos do movimento de libertação LGBTQIA+, incluindo nas primeiras marchas do Orgulho. Não como nota de rodapé, mas como força política que afirmava a autonomia dos corpos e do desejo.
A luta pela igualdade nunca se separou da liberdade sexual. Pillion inscreve-se nessa continuidade, recusando a ideia de que só algumas expressões de desejo são aceitáveis em espaço público.
Desejo, poder e intimidade sem moralismos

Um dos méritos centrais do filme é a forma como trabalha o poder. A dinâmica dominante/submisso não é simplificada nem romantizada. O poder circula, transforma-se, expõe fragilidades e exige comunicação constante.
O filme recusa a lógica binária de vítima e controlo. Mostra que consentimento é um processo e não um contrato fechado. E que intimidade pode existir em territórios que o olhar normativo insiste em patologizar.
Esta recusa da moralização aproxima Pillion de uma representação mais honesta da experiência queer adulta, longe da infantilização ou da limpeza simbólica que ainda marca muitas narrativas LGBTQIA+.
Contra a higienização do Orgulho
Num contexto em que o Pride foi institucionalizado, patrocinado e esvaziado de conflito, Pillion funciona como uma chamada de atenção incómoda. A história LGBTQIA+ não nasceu do conforto, nem da respeitabilidade.
O filme lembra que o Orgulho também foi, e continua a ser, sobre desafiar normas. Sobre corpos que não cabem, desejos que não pedem desculpa e comunidades que se organizam à margem.
Ao colocar o kink no centro da narrativa, Pillion recusa uma versão higienizada da experiência queer. E, nesse gesto, torna-se profundamente político.
Por que pillion importa agora
Num momento de ofensiva conservadora contra a diversidade sexual e de género, a existência de filmes como Pillion ganha um peso acrescido. Não por chocarem, mas por persistirem.
O filme afirma algo simples e radical: o desejo queer não precisa de ser respeitável para ser legítimo. E a representação importa precisamente quando incomoda.
Pillion é relevante porque amplia o imaginário queer no cinema. Porque recupera histórias, práticas e comunidades empurradas para a margem. E porque lembra que a luta por direitos sempre esteve ligada à liberdade de desejar.
Com datas de estreia a 12 de fevereiro no Brasil e 6 de março em Portugal, vê o trailer:
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