
A edição de Caderno proibido recupera um projeto que ficou por cumprir em vida de António Botto. Reúne poemas inéditos, organizados e fixados por Victor Correia. A publicação surge pela editora Guerra e Paz e expõe uma dimensão ainda mais crua da escrita do autor.
Estes textos foram concebidos sem disfarces retóricos. O desejo aparece direto, corporal e assumido. A linguagem aproxima-se do limite do que cada época define como obsceno. Essa frontalidade é parte essencial do seu valor literário e histórico.
O livro inscreve-se no período brasileiro do autor, já no exílio, no Brasil. O clima, a paisagem e a experiência de deslocação atravessam os poemas. Há intensidade sensorial, mas também solidão, memória e perda. O erotismo convive com vulnerabilidade emocional.
António Botto, uma das primeiras vozes da poesia portuguesa queer
António Botto foi uma das primeiras vozes da poesia portuguesa a afirmar o desejo entre homens de forma lírica e não caricatural. Pagou um preço elevado por isso. Foi alvo de escândalo público, censura moral e marginalização literária. Caderno proibido reforça essa linha de rutura, agora sem qualquer véu simbólico.
A leitura contemporânea não deve reduzir o livro ao choque. O interesse está na fusão entre erotismo, estética e subjetividade. O corpo é linguagem, mas também território de afeto, ciúme e necessidade de reconhecimento. O desejo não surge isolado, surge ligado à experiência humana completa.
Caderno proibido como documento histórico
Há também um valor documental. Estes poemas ajudam a compreender a continuidade da obra de Botto. Mostram que a ousadia não foi um episódio, foi um percurso consistente. Revelam uma escrita que recusava a vergonha imposta às dissidências sexuais.
Esta edição preenche uma lacuna importante na história literária portuguesa. Recupera um autor frequentemente citado, mas nem sempre lido na sua totalidade. Para quem estuda literatura queer, modernismo português ou censura cultural, o livro é uma fonte relevante.
Caderno proibido não é uma leitura neutra nem confortável. Também não pretende ser. É um livro sobre desejo vivido no limite, escrito por quem já tinha sido empurrado para a margem. Essa tensão dá-lhe força, desconforto e permanência.
Caderno Proibido de António Botto encontra-se disponível nas livrarias pela editora Guerra e Paz.
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