
Entre 27 de fevereiro e 1 de março, o Teatro do Bairro Alto acolhe Mandakí, o primeiro solo performativo de Larie. A peça cruza poesia, experimentação sonora eletroacústica e movimento para construir um espaço onde identidade, memória e transformação acontecem em tempo real, diante do público.
Do Brasil para as Caldas da Rainha, Larie tem desenvolvido um percurso artístico marcado pela fusão entre a esfera sónica e a palavra. Em Mandakí, esse território expande-se para um gesto assumidamente autobiográfico, onde a transmasculinidade, a não-binariedade e a migração se entrelaçam como camadas de um mesmo corpo em mutação.
Em agosto de 2025, ao apresentar-se publicamente como pessoa não binária, Larie escreveu que esteve “muito torte tentando caber” num modelo binário e descreveu a transgeneridade como “possibilidade de construção, investigação, mergulho profundo”. Perguntámos de que forma esta performance nasce desse processo de nomeação e afirmação.
“Esse trabalho vem me localizando nesse espaço-tempo onde começo a experienciar mudanças mais marcadas com relação ao uso da T e isso tem sido lindo de se vivenciar ao mesmo tempo que posso documentar esse processo em um projeto como esse.”
A dimensão documental é central. A transição não surge como conceito, mas como experiência vivida e partilhada. A voz, elemento estruturante do trabalho de Larie, torna-se marca sensível dessa passagem.
“Acho que o marco mais profundo pra mim aqui vem sendo a minha voz mudando e como isso vem sendo experimentado nessa performance, a voz sendo um core do meu trabalho, ter sido tão caracterizade pela voz doce e aguda e hoje marcar a despedida desse registro vocal com Mandakí, tem sido bem bonito mesmo.”
Há, assim, uma despedida inscrita na própria matéria sonora da peça. A mudança vocal, provocada pelo uso de testosterona, transforma-se em arquivo performativo de um momento específico da vida. Mandakí fixa essa transição sem a congelar, deixando-a vibrar no presente.
Viagem do Brasil para Portugal traz perspetivas além género
A construção do corpo em cena não se limita, porém, à dimensão de género. A experiência migratória atravessa igualmente o espetáculo.
“Vindo do Brasil para Portugal existe sempre isso de sermos vistes como excesso, como deslocades na nossa forma de expressar, de ser e estar, postes como corpos que a modernidade europeia não consegue ler sem reduzir, exótiques ou ameaça, assim como ser trans e o bicho do mato do qual também tratamos no espetáculo.”
O corpo trans e o corpo migrante partilham a condição de excesso aos olhos de uma norma que insiste em reduzir ou exotizar. Em palco, Larie escolhe esmiuçar essa tensão, recusando simplificações.
“Esmiuçar isso ao experimentar me deixar ser o corpo que eu sou, o corpo possível hoje, com suas liberdades e podas – venham de onde vierem, tem sido esse o caminho.”
Estar só em cena intensifica essa escolha. A exposição é assumida como gesto ético e estético, não como espetáculo de vulnerabilidade, mas como partilha consciente de uma travessia.
“A doçura e a dor de buscar ser o que realmente se é, enquanto se despede do que um dia foi, enquanto se retorna às raízes que se perderam nos movimentos da vida ou por normas que não fazem sentido aqui, é uma partilha honesta dessa travessia.”
A arte experimental como expansão dos corpos e das ideias, mesmo quando não a entendemos por completo
Num contexto internacional marcado por crescente hostilidade face às identidades trans, a dimensão política da obra torna-se inevitável. Para Larie, a arte experimental não responde com slogans, mas com expansão sensível.
“Acho que a arte experimental te expande, te faz sentir o que às vezes você não entende, que vai fazer sentido daqui a anos ou talvez nunca, te cutuca por vias que pode ser confuso e isso é lindo, é uma semente que se planta.”
E acrescenta:
“Falar subjetivamente de subjetividades, não pra procurar nos esconder mas pra olhar por outras perspectivas pra nós, que tanto amedrontamos hoje mas que tanto temos pra mostrar, dizer, experimentar em coletivo.”
Mandakí propõe precisamente esse espaço de deslocação e escuta. Um lugar onde o corpo não pede autorização para existir e onde a mudança não é apagada nem suavizada, mas vivida ao vivo, na fricção entre som, memória e presença.
A performance estará em cena no Teatro do Bairro Alto de 27 de fevereiro a 1 de março, de quinta a sábado às 19h30 e domingo às 17h30.
No dia 27 de fevereiro haverá legendas em inglês.
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