O fim de Heartstopper deixou-me nostálgico

Publicado originalmente em 2018, foi em 2022 que mergulhei no mundo criado por Alice Oseman. Não sendo uma autora nova, apesar de, confesso, não ter lido nenhum dos seus romances, foi a banda desenhada Hearstopper que me conquistou. Os anos passaram e, em 2026, ano em que chega também ao fim a adaptação da Netflix por meio de um filme, a autora anunciou que o último volume sai em julho. Sendo também a data para a publicação em português, pela chancela do grupo Infinito Particular, Desrotina, não consigo deixar de me sentir nostálgico.

Será a nostalgia a maior emoção?

Durante muito tempo pensei que a solidão ou a tristeza seriam das emoções mais avassaladoras. Os anos foram passando e, quer por influência das músicas dos ABBA, quer simplesmente pelo crescimento, dou por mim a perceber que a nostalgia e a memória do vivido (ou daquilo que poderia ter sido vivido) são, talvez, para mim, as emoções mais traiçoeiras. Não só nos enchem de alegria, como têm o poder surpreendente de nos fazer lembrar aquilo que já não volta. E é isso que sinto agora, quando o final de Heartstopper chega ao fim.

Não me lembro a 100% de como estava em 2022, mas de uma coisa tenho a certeza: já me tinha assumido e, nessa liberdade interpessoal, mergulhava nos vários livros que, durante anos, não ousara ler. Quer por vergonha, quer por falta de acesso ou até pela dificuldade com o inglês na adolescência, a descoberta de Heartstopper foi, para mim, quase como um farol. Não só porque estava prestes a ser traduzido para português, mas porque, através da banda desenhada, conseguia sentir-me, de alguma forma, representado.

A história do Nick e do Charlie consegue ser transversal a muitas pessoas da comunidade: seja pelos dilemas morais, pelo peso da autodescoberta, pelo assumir ou, nos últimos volumes, pelas questões de saúde mental. O grupo de amigos criado por Oseman conseguiu impactar leitores de forma profunda. E, por mais que o peso da nostalgia se esteja a apoderar de mim, ao recordar como foi ver leitores celebrarem a tradução, as edições especiais, os sorrisos e a alegria na Feira do Livro de Lisboa, com sacos de pano alusivos à narrativa, não consigo deixar de me sentir feliz por aquilo que esta história fez no nosso mercado.

Não só vários leitores se encontraram nos livros como, e mais importante, se encontraram, ou reencontraram, a si mesmos.

O maravilhoso peso dos livros

Existem várias guerras no mundo literário. Quer estejam relacionadas com aquilo que se considera um livro, com o formato, com a quantidade de leituras ou até com a qualidade da escrita, conseguem, de forma silenciosa, atormentar leitores.

Numa altura em que ler se torna cada vez mais importante — quanto mais não seja como escape à realidade — livros como Heartstopper surgiram como uma verdadeira lufada de ar fresco num mercado editorial que, na altura, gritava por representação. Ainda estamos longe de ter uma proporção equilibrada de histórias. Ainda há um caminho a percorrer. O falatório em torno destes livros surge, por vezes, quase mais como estratégia para gerar interação nas redes sociais do que como apoio significativo à comunidade queer. E isso também pesa.

Mas, com a chegada ao fim desta história de amor, amizade e aceitação, não consegui evitar refletir convosco sobre o impacto que teve em Portugal. Sobre o espaço que abriu. Sobre as conversas que permitiu iniciar. E, acima de tudo, sobre o desejo de que, a cada ano, continuemos a ser brindados com mais vozes. Com mais representação que reflita, de forma genuína, a nossa realidade.

Nick e Charlie, o meu mais sincero obrigado.

O último volume de Hearstopper chega a 2 de julho. Não conheces a série? Descobre-a pela editora Cultura.


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