
A franquia Harry Potter tornou-se, ao longo de mais de duas décadas, um fenómeno cultural global, uma fonte de inspiração para milhões de pessoas e um marco na literatura e no cinema. A decisão da HBO de produzir uma nova série baseada nos sete livros da saga, com J.K. Rowling como produtora executiva, promete reacender a magia para uma nova geração. No entanto, a participação de Rowling levanta uma questão incómoda e cada vez mais premente: é possível separar a obra da sua criadora quando esta se envolve em ações que prejudicam minorias vulneráveis?
A resposta não é simples. O debate sobre a separação da arte da artista é antigo, mas ganha contornos relevantes nos dias de hoje quando quem criou e tem os direitos da obra não apenas expressa opiniões controversas, mas as financia ativamente e as transforma em batalhas legais contra direitos fundamentais. Falamos aqui dos direitos das pessoas trans.
O Dilema: Arte vs. Ativismo
A discussão em torno da separação entre a obra e a artista não é nova. Desde sempre que tem havido fortes debates sobre se é possível — ou justo — dissociar a genialidade criativa de alguém das suas posições políticas ou sociais.
“Podemos amar uma obra e ainda assim reconhecer que a sua criadora causou danos”, explicou Roxane Gay, escritora e ativista. Mas, quando esses danos não são meras opiniões isoladas, mas ações concretas e financiadas, a questão deixa de ser apenas uma reflexão individual para se tornar um problema coletivo. Quando a criadora da obra investe a sua fortuna e influência em organizações que promovem a exclusão e a discriminação, o debate ganha uma dimensão ética e social inegável.
O caso de J.K. Rowling: De autora a anti-trans
J.K. Rowling não é apenas a criadora de Harry Potter. A sua posição como detentora dos direitos de uma das franquias mais lucrativas do mundo deu-lhe um poder sem precedentes para influenciar não só a cultura, mas também políticas públicas. E é exatamente esse poder que tem vindo a ser usado para promover uma agenda anti-trans, com financiamento a organizações que lutam contra os direitos das pessoas trans.
Uma trajetória de posicionamentos transfóbicos
- 2019: Rowling alinhou-se publicamente com Maya Forstater, uma TERF que processou uma organização onde trabalhava por não renovar o seu contrato após publicamente negar a existência de pessoas trans. A justiça britânica inicialmente rejeitou o caso, mas Forstater recorreu e, em 2021, o tribunal deu-lhe razão, numa decisão que Rowling celebrou.
- 2024: Doou 70 mil libras ao grupo For Women Scotland, que desafiou a lei escocesa de representação de género em conselhos públicos. A lei, que incluía mulheres trans na definição de “mulher”, foi inicialmente bloqueada, e Rowling comemorou a decisão com uma imagem sua e a legenda: “Adoro quando um plano funciona”.
- 2025: Lançou o J.K. Rowling Women’s Fund, um fundo privado para financiar ações legais que defendem “direitos das mulheres baseados no sexo biológico”, excluindo explicitamente mulheres trans. O fundo apoia indivíduos e organizações que lutam para manter espaços exclusivos para mulheres cisgénero, negando a identidade e os direitos de pessoas trans.
Rowling não se limita a expressar opiniões: utiliza a sua fortuna e influência para moldar leis e políticas públicas, com o objetivo declarado de restringir os direitos de uma minoria já marginalizada.
A série da HBO: Financiar a obra é financiar a transfobia?
A nova série da HBO, com Rowling como produtora executiva, promete ser um sucesso comercial. Mas cada visualização, cada subscrição a uma plataforma que exibe a série, e cada compra de merchandising contribui para a fortuna de Rowling. E essa fortuna, como demonstrado, está a ser usada para financiar uma campanha contra os direitos das pessoas trans.
Não se trata apenas de uma questão de gosto pessoal ou de separar a arte da artista. Trata-se de tomar uma posição ativa: ao consumir um produto associado a Rowling, fãs estão a financiar a sua agenda política. E esse financiamento não é meramente simbólico — é real, quantificável e com impactos concretos nas vidas de pessoas trans.
O debate sobre o consumo ético de produtos culturais não é novo. Mas quando a obra em questão está ligada a campanhas que promove a exclusão e a discriminação, a decisão individual de consumir ou não ganha uma dimensão moral. Também a HBO, que tantas vezes se vende como produtora liberal, tem aqui responsabilidades éticas e morais.
Não há consumo ético de uma obra que financia a opressão
A pergunta “é possível separar a obra da artista?” não tem uma resposta universal. Mas quando a artista usa o seu sucesso para financiar a opressão de minorias, a resposta vira para o “não“.
A série da HBO pode vir a revelar-se um um sucesso, mas não é um produto neutro. É um produto que, ao ser produzido e promovido, contribui para a manutenção do poder e da influência de J.K. Rowling — e essa influência está a ser usada para negar direitos básicos a pessoas trans.
Não só no Reino Unido, em que o Supremo Tribunal definiu “mulher” com base no sexo biológico, mas também com o risco sério de recuos nos direitos das pessoas trans e intersexo, vale a pena questionar até que ponto o nosso amor pela arte justifica o financiamento do ódio?
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