A Diversidade no Espectro

A Diversidade no Espectro (Autismo)

Nos tempos que correm, vivenciamos uma atmosfera densa e que nos leva a questionar… “O que está a acontecer no nosso planeta?”.

Um ambiente hostil impera e que se faz sentir, sobretudo em alguns pontos específicos do globo terrestre.

A supremacia branca continua a ser propagada, ainda que todas as evidências científicas e biológicas demonstrem o contrário. 

O totalitarismo é um conceito presente e, lamentavelmente tem vindo a crescer. No entanto, ele ocorre de forma dissimulada e altamente silenciosa…

“O objetivo da educação totalitária nunca foi incutir convicções, mas destruir a capacidade de formar alguma.” – Hannah Arendt.

Todas aquelas pessoas que estão fora do padrão hétero-cis-branco-normativo fatalmente estão vulneráveis… o estigma e a fobia são sombras que irão acompanhá-las. 

Talvez para alguns de nós não mais seria necessário falar sobre as minorias, como também falar sobre o preconceito. Porém, trago-vos algo… “Em qual zona ou local deste mundo conheces que não exista qualquer problema ou risco em ser diferente do padrão normativo?” Ser LGBTQIA+, mulher, negro, neurodivergente, entre outros grupos minoritários… é realmente possível sermos livremente?

Alguns dos Direitos Humanos previamente consagrados estão a ser retirados, deixando assim milhares de vidas em risco. O sofrimento, a agonia, a brutalidade e o suicídio são factos reais que têm exponencialmente crescido.

“O que me preocupa não é o grito dos violentos, mas sim o silêncio dos bons.” – Martin Luther King.

No dia 2 de abril é celebrado o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, data que nos lembra sobre a inclusão e o respeito.

Ser autista nesta sociedade é muito desafiante, inúmeras vezes uma experiência solitária, mas também injusta e alvo de preconceito estereotipado. O Espectro do Autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, não é uma doença e tão pouco é um microrganismo transmissível. 

“A verdadeira inclusão não é apenas aceitar as pessoas autistas, mas também valorizar as suas contribuições e permitir que elas brilhem em sua plenitude.” – Temple Grandin.

As teorias e conceitos sem qualquer evidência científica continuam a circular massivamente pelas redes sociais… igualmente assistimos a uma segregação dentro da própria comunidade autista. 

Se o autismo é um espectro e tem uma gama diversa na sua manifestação, como poderia eu ser igual ou idêntico a outro autista? Jamais, assim como um homossexual é igual a outro ser homossexual. Existem características que são transversais, no entanto elas podem variar no tempo e na sua intensidade.

De acordo com o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição) o autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por défices persistentes na comunicação e interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, presentes desde cedo na infância. O diagnóstico unificou condições anteriormente separadas, como a Síndrome de Asperger.

Durante muitos anos, o estereótipo do autismo ficou estagnado na imagem do menino não-verbal, que não estabelece qualquer contacto visual, ficando parado num canto sozinho e a girar objetos. Felizmente, as investigações e evidências científicas tem vindo a permitir que alguns de nós sejam diagnosticados, embora tardiamente e com um sofrimento excessivo acumulado.

“Você descobre que é autista e, no começo, até sente alívio. Finalmente tem um nome para o que você sentia a vida inteira. Mas aí vem a retrospectiva. E ela dói. O diagnóstico de autismo na vida adulta não muda quem você é… Ele apenas dá nome a uma história que já existia.” – Dra. Elizangila Leite.

E, sim, precisamos ser ouvidos, pois aqui estamos… durante inúmeros anos não tínhamos voz, não tínhamos qualquer direito a ser. A agressão, isolamento, institucionalização e o suicídio eram (e continuam a ser) as vias frequentes.

Atualmente, é possível (minimamente) sobreviver e ter um suporte clínico e hospitalar, ainda que muites de nós não tenhamos suporte familiar adequado. Sim, temos a chance de ser transportados num veículo de emergência com os estímulos reduzidos e adaptados à necessidade sensorial, assim como o atendimento prioritário num estabelecimento comercial. 

Talvez, para a maior parte das pessoas (sobretudo neurotípicas) a sobrecarga sensorial não seja uma realidade e desafio diário… no entanto, para quem tem hipersensibilidade sensorial está em risco constante de fadiga, stress, ansiedade e outros prejuízos na saúde e bem-estar.

Um dos maiores desafios de uma pessoa autista é a hipersensibilidade sensorial (que também pode ser hiposensibilidade ou a mistura de ambos) …

“A hipersensibilidade sensorial acontece quando o cérebro reage de forma mais intensa do que o esperado a estímulos do ambiente, como sons, luzes, cheiros, texturas ou movimentos. Situações que passam despercebidas para muitas pessoas podem causar grande desconforto para quem possui esse tipo de sensibilidade.

Esse padrão está relacionado à forma como o sistema nervoso processa as informações sensoriais. Em alguns casos, a dificuldade em filtrar estímulos pode levar à chamada sobrecarga sensorial, gerando irritação, cansaço mental ou necessidade de se afastar de determinados ambientes.

Para entender melhor esse fenómeno, é importante lembrar que o cérebro recebe estímulos sensoriais o tempo todo. Informações vindas da visão, audição, tato, olfato, paladar e do próprio corpo chegam constantemente ao sistema nervoso. Uma das funções do cérebro é organizar e filtrar esses estímulos, selecionando quais são relevantes e quais podem ser ignorados.

Quando esse processo de filtragem funciona de maneira diferente, alguns estímulos podem ser percebidos como muito intensos ou difíceis de tolerar. É nesse contexto que surge a hipersensibilidade sensorial.” – Dra. Aline D´Avila.

Entre outros desafios e prejuízos diários (como a dificuldade social), viver no espectro do autismo é uma forma única de ser e sentir. 

Não pedimos mais direitos ou privilégios, mas sim o respeito e a devida inclusão, pois somos quem somos… assim como cada qual é o que é.

“I’m not blind, but I can’t always see
I’m not deaf, but things can sound strange to me
I’m not trapped, but it’s hard to feel free
Imagine what it’s like to be me” – Scott James (músico autista). 


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