Francisco Rodrigues dos Santos: “As pessoas trans existem e têm de ser respeitadas”

Francisco Rodrigues dos Santos: "As pessoas trans existem e têm de ser respeitadas"
Francisco Rodrigues dos Santos, imagem via Instagram.

A lei da autodeterminação de género em Portugal enfrenta, em 2026, um novo ciclo de contestação política. PSD, CDS e Chega propõem rever ou mesmo anular avanços legislativos que garantem direitos fundamentais às pessoas trans e intersexo, argumentando com retóricas que variam entre o medo da “ideologia de género” e a defesa de um suposto “conservadorismo tradicional”.

É neste contexto que a voz de Francisco Rodrigues dos Santos — antigo líder do CDS e uma das figuras mais associadas ao conservadorismo português — ganha, mais uma vez, uma relevância inesperada. Não pela defesa dos valores de outrora, mas pela admissão pública de que estava errado e pela transformação das suas convicções sobre direitos LGBTQIA+.

Francisco Rodrigues dos Santos: “Eu estava errado”

Há dez anos, Rodrigues dos Santos era uma figura polarizadora. Em 2016, defendia a criminalização do aborto, opunha-se veementemente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e declarava-se “francamente contra” a adoção por casais homossexuais. As suas palavras, proferidas com a autoridade de quem então liderava um partido com assento parlamentar, refletiam uma visão estanque da família e da moralidade: “O casamento, por génese, é entre um homem e uma mulher“, afirmava, invocando a “complementaridade” entre mãe e pai como argumento inquestionável. Hoje, a sua posição é radicalmente distinta. “Eu disse isto, assumo, mas já não penso assim. Não há maneira mais singela de dizer isto: eu estava errado“, declarou recentemente no podcast Inventário Pessoal.

A mudança não é táctica, nem resultado de uma estratégia eleitoral. Rodrigues dos Santos atribui-a a um processo pessoal profundo, acelerado pelo contacto com realidades que antes observava à distância. “Pela convivência com pessoas que tinham essa identidade e se tinham organizado em família, nessa diversidade, em modelos que resultam e que têm origem no amor. E do amor ninguém foge“, explicou em nova entrevista ao Público.

“As pessoas trans existem e têm de ser respeitadas”

Esta viragem estende-se à sua visão sobre a autodeterminação de género, um tema especialmente sensível no atual debate político. Para o antigo líder centrista, “as pessoas trans existem e têm de ser respeitadas e acompanhadas, devem ter liberdade para exprimir a sua essência com respeito e segurança“.

A sua crítica à direita é direta: “Hoje é-me muito difícil entender a falta de empatia com que a direita lida com temas que surgem naturalmente e que dizem respeito ao âmago mais íntimo e existencial da vida das pessoas. Talvez por táctica política e pela ideia de que este conservadorismo bacoco rende eleitoralmente.”

O percurso de Rodrigues dos Santos não se resume a uma revisão de posições. É, acima de tudo, um exercício de humildade intelectual. A estudar Psicologia, o antigo político passou a valorizar a dúvida como ferramenta de aprendizagem. Conceitos como “aceitação incondicional positiva” ou “compreensão empática” passaram a integrar o seu vocabulário, substituindo as certezas absolutas que antes o guiavam.

“Mudar de opinião é bom”

Num contexto político marcado pela polarização, a admissão de erro é frequentemente vista como fraqueza. No caso de Rodrigues dos Santos, porém, assume-se como um gesto de maturidade. Enquanto figuras como Luís Montenegro mantêm posições rígidas — recordemos a polémica associação entre orientação sexual e abuso infantil —, o antigo líder do CDS oferece um contraponto: a possibilidade de evolução. “Mudar de opinião é bom“, afirma, desafiando a narrativa de que as convicções políticas são imutáveis. Esta transformação não apaga o impacto das suas declarações passadas, mas introduz um elemento raro no debate público: a ideia de que o crescimento pessoal e a revisão crítica são não só possíveis, como necessários.

A lei da autodeterminação de género está hoje sob ameaça. Os partidos que outrora Rodrigues dos Santos integrou ou liderou estão na linha da frente dos ataques a este direito fundamental. Perante este cenário, a sua voz ganha um peso simbólico adicional. Ao criticar o “conservadorismo bacoco” e defender que “há pessoas que sofrem com isto, que nascem assim, não é uma moda“, o antigo político desmonta os argumentos que agora servem de base às propostas de retrocesso. Mais do que isso, lembra-nos que a política pode — e deve — ser um espaço de aprendizagem contínua, onde o contacto com a realidade supera os dogmas.

Numa era em que a radicalização discursiva é frequentemente recompensada, a história de Francisco Rodrigues dos Santos lembra-nos que a capacidade de mudar é, afinal, um dos sinais de humanidade. Num debate tão carregado de emoção e ideologia como o da autodeterminação de género, a sua evolução pessoal oferece uma lição: a empatia não é incompatível com a convicção, e reconhecer os próprios erros não é sinal de fraqueza, mas de coragem.


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