Adopção: Mais Um Passo Dado Hoje

Vou confessar-vos uma coisa, estou a escrever este texto antes de saber o resultado da votação sobre a proposta de acesso a casais do mesmo sexo à adopção plena que acontecerá esta tarde na Assembleia da República.

Tendo assistido ontem à discussão dos deputados, custa-me a crer que Portugal não permaneça, independentemente do resultado desta tarde, na linha da frente dos direitos humanos, tal como o tem feito em muitos outros assuntos. Porque quem escutou e leu os argumentos dados pelos mais variados grupos – sejam políticos, psicólogos ou, imagine-se, pais e mães – que defendem a Família sabe que é uma luta honesta. É uma luta pelos pais e pelos filhos, é Família com efe maiúsculo, não necessariamente aquela que é a nossa, mas também.

Que não restem dúvidas, é a Família que sai reforçada quando todos tiverem direito a uma, a sua, a que lhe é especial e que ninguém terá o direito em dizer que essa família é menos que outras, não pela razão que aqui se levanta. Porquê? Porque a razão que aqui se levanta, a de duas pessoas do mesmo sexo poderem constituir família, não põe em causa a saúde física ou mental de ninguém, pais ou filhos. Não há controvérsia neste campo, há décadas que os estudos científicos realizados apontam neste sentido e, se alguém hoje em dia teima em duvidar da veracidade desses estudos, a única razão que vejo possível é o seu preconceito. É a sua ignorância que olha para estas famílias e questiona-se como podem elas existir, amando-se, desejando-se? Ao contrário do que alguns disseram, nomeadamente ontem na Assembleia da República, esse, sim, é um sentimento absolutamente egoísta, porque estas pessoas não conseguem colocar-se no papel de outrem, não conseguem acreditar que existem formas de viver para além da sua. E então, não mostram qualquer compaixão para com os outros, desconfiam daquilo que, por pura ignorância autoimposta, lhes é estranho, seja neste ou noutros assuntos e isso, em democracia, simplesmente não é aceitável.

A votação terá o resultado que tiver. O Bloco de Esquerda, Os Verdes e o PCP já anunciaram que vão votar, obviamente, a favor. O PS, embora a favor da alteração da lei, dará liberdade de voto aos seus deputados, tal como o PSD que, no entanto, se apresentou contra a proposta ao lado do outro partido da maioria, o CDS. A esperança não é muita, confesso, a expectativa que eu e muitos outros temos é, no entanto, elevada, porque é o futuro de uma sociedade melhor que está em jogo. É isso que queremos que se compreenda de vez. E se aja para lá chegarmos todos.

Portugal tem hoje, e mais uma vez, a possibilidade de se chegar à frente na questão da liberdade e na defesa dos seus cidadãos, sejam eles crianças ou adultos. Espero que seja também hoje dado esse passo, redimindo-se aqueles da votação humilhante de há um ano. Pois o caminho para uma sociedade mais livre e justa só pode ser uno. O Passo, esse, só depende do balanço que lhe dermos. Venha ele. Inevitavelmente.

Actualização #1: Chego a casa e descubro que, apesar de uma réstia de esperança que uma pessoa precisa sempre ter, como esperado, as propostas foram chumbadas. Portugal deu um passo, um passo tombado para trás.

Actualização #2: Um dos primeiros pensamentos que tive quando soube da notícia era o de denunciar os nomes daqueles que chumbaram as propostas, sim, denunciar, porque é essa a palavra que melhor expressa a frustração de alguém que acredita que a reprovação dos projectos de lei que previam a adopção por casais do mesmo sexo faz parte do problema e não da solução para que a sociedade portuguesa seja mais justa e digna (comunicado do Partido LIVRE). Ora, foi precisamente isso que o blog 365 Forte fez, aqui ficam os nomes e as respectivas votações, para que não sejam esquecidos. Nunca:

No primeiro projeto de lei da autoria dos deputados do Bloco de Esquerda, que acabaria com a discriminação no procriação medicamente assistida, a adoção e o apadrinhamento civil por casais do mesmo sexo, votaram contra os seguintes deputados:

 -Os da maioria da bancada parlamentar do PSD
 
-Os da bancada parlamentar do CDS-PP

Da bancada parlamentar do PS
 
-António Cardoso

-António Braga

-João Portugal

Abstiveram-se os seguintes deputados:
 
Da bancada parlamentar do PSD
 
-João Prata
-Ângela Guerra
-Maria Castelo Branco
-Vasco Cunha
-Odete Silva
-Paula Cardoso

Da bancada parlamentar do PS
 
-Renato Sampaio
-Miguel Laranjeiro
-Isabel Oneto
-José Junqueiro

Votaram a favor os restantes deputados das bancadas do BE, do PCP, do PEV, do PS e do PSD, nomeadamente os deputados:
 
-Sérgio Azevedo
-Simão Ribeiro
-Joana Barata Lopes
-Francisca Almeida
-Cristóvão Norte
-Teresa Leal Coelho

No segundo projeto de lei do Bloco de Esquerda, que eliminaria a impossibilidade da adoção por casais do mesmo sexo, votaram contra os deputados:
 
Os da maioria da bancada parlamentar do PSD

Os da bancada parlamentar do CDS-PP

Da bancada parlamentar do PS
 
-António Cardoso
 -António Braga
 -João Portugal

Abstiveram-se os seguintes deputados:
 
Da bancada parlamentar do PSD
 
-João Prata
-Maria Castelo Branco
-Odete Silva
-Paula Cardoso
-Pedro Saraiva
-Ana Sofia Bettencourt
-Joana Barata Lopes

Da bancada parlamentar do PS
 
-Renato Sampaio
-Miguel Laranjeiro
-Isabel Oneto
-José Junqueiro

Votaram a favor os restantes deputados das bancadas do BE, do PCP, do PEV, do PS e do PSD, nomeadamente os deputados:
 
-Sérgio Azevedo
-Simão Ribeiro
-Gabriel Goucha
-Francisca Almeida
-Cristóvão Norte 

-Teresa Leal Coelho

No projeto de lei dos deputados do Partido Socialista, votaram contra os parlamentares:
 
Os da maioria da bancada parlamentar do PSD

Os da bancada parlamentar do CDS-PP

Da bancada parlamentar do PS
 
-António Cardoso
-António Braga
-João Portugal

Abstiveram-se os seguintes deputados:
 
Da bancada parlamentar do PSD
 
-João Prata
-Maria Castelo Branco
-Odete Silva
-Paula Cardoso
-Pedro Saraiva
-Ana Sofia Bettencourt

Da bancada parlamentar do PS
 
-Renato Sampaio
-Miguel Laranjeiro
-Isabel Oneto
-José Junqueiro

Votaram a favor os restantes deputados das bancadas do BE, do PCP, do PEV, do PS e do PSD, nomeadamente os deputados:
 
-Sérgio Azevedo
-Simão Ribeiro
-Gabriel Goucha
-Francisca Almeida
-Cristóvão Norte
-Teresa Leal Coelho
-Joana Barata Lopes

No projeto de lei dos deputados do PEV, votaram contra os deputados:

Os da maioria da bancada parlamentar do PSD
 
Os da bancada parlamentar do CDS-PP

Da bancada parlamentar do PS
 
-António Cardoso
-António Braga
-João Portugal

Abstiveram-se os seguintes deputados:
 
Da bancada parlamentar do PSD
 
-João Prata
-Maria Castelo Branco
-Odete Silva
-Paula Cardoso
-Pedro Saraiva

Da bancada parlamentar do PS
 
-Renato Sampaio
-Miguel Laranjeiro
-Isabel Oneto
-José Junqueiro

Votaram a favor os restantes deputados das bancadas do BE, do PCP, do PEV, do PS e do PSD, nomeadamente os deputados:

-Sérgio Azevedo
-Simão Ribeiro
-Gabriel Goucha
-Francisca Almeida
-Cristóvão Norte
-Teresa Leal Coelho
-Joana Barata Lopes

Vejam na fonte a informação completa.


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Respostas de 12 a “Adopção: Mais Um Passo Dado Hoje”

  1. Reblogged this on Paulo Jorge Vieira and commented:
    um belo texto que nos diz tanto sobre o que hoje se discutiu

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  2. republiquei o teu texto no meu blog!

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    1. Obrigado pelas palavras, Paulo. Hoje foi um dia triste para o País. Um abraço

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  3. […] e co-adopção em Portugal passou recentemente pelos temas mais quentes no país e todos tivemos algo a dizer sobre o assunto. Uma das maiores preocupações, com maior ou menos honestidade, em ambos os púlpitos, favor ou […]

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  4. […] Ora, este ano a grande empresa a seguir o exemplo é a Coca-Cola com um anúncio que começou agora a passar em Portugal e que apresenta a dúvida que algumas crianças poderão ter momentaneamente em relação à sua família. O vídeo coloca em cima da mesa o assunto da adopção singular (não é explícita esta mas foi como interpretei), a adopção por um casal de sexo diferente e, por fim, a adopção por um casal do mesmo sexo (curiosamente este último ainda não está legalizado em Portugal). […]

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  5. […] do mesmo sexo: se é certo que em Portugal o casamento é, desde há cinco anos, mais livre (mas ainda não com os mesmos direitos), a luta que as pessoas LGBT travam em todo o mundo vai para lá da questão do casamento. Falamos […]

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  6. […] famílias, unidas no Amor mas também nas brincadeiras, sem qualquer tipo de preconceitos. Porque quando escrevemos sobre elas e abordamos temas como os da adopção e co-adopção, não estamos apenas a falar em alterações às leis que terão consequências no futuro. Estamos […]

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  7. […] portuguesas sejam protegidas pelo Estado e não haja famílias de primeira e famílias de segunda. Não são votações humilhantes que nos irão parar. Porque nada o fará até todas as famílias serem reconhecidas como […]

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  8. […] de lei por parte do PS, BE, PEV e PAN encontrarão uma resposta adequada na maioria de esquerda. Dificilmente ir-se-á repetir, portanto, a humilhante votação do início do ano. Aliás, a bancada do PSD terá “liberdade de voto”, segundo a deputada e […]

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  9. […] Tal como fizemos em Janeiro último, importa também saber como foram as votações dos deputados esta manhã e, como tal, aqui ficam elas [lista realizada por Bruno Horta do persona grata]: […]

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  10. […] Adopção: Mais Um Passo Dado Hoje – naquele que acabou por se tornar num dos dias mais humilhantes em Portugal para os direitos das famílias, o chumbo da proposta de lei para a adopção por casais do mesmo sexo marcou também o ano corrente; […]

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  11. […] Foi ontem anunciada a candidatura à liderança da JSD pela Margarida Balseiro Lopes, atual deputada do PSD. Esta é uma notícia que potencialmente pode alterar a perspetiva da direita política nacional em vários níveis: para começar, poderá tornar-se na primeira mulher a liderar a Juventude Social Democrata e o que tudo isso tem de simbólico sobre o papel da mulher na política nacional; é também uma candidata que, em 2015 e contra o movimento interno do seu partido, votou a favor da adoção de crianças por parte de casais do mesmo sexo. […]

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