A Salvação Solitária de Frank Ocean

Enquanto pessoa integrante da população LGBT, quando se ouve o nome Frank Ocean pensa-se inevitavel e imediatamente naquela desencantada carta aberta que o músico divulgou em 2012 a professar o seu amor adolescente e quebrado por outro rapaz. Um simples gesto que perturbou os alicerces da comunidade do hip hop e trouxe à tona a homofobia gritante aparentemente existente na mesma, tópico sobre o qual já nos debruçamos anteriormente.

A honestidade transgressora de ‘channel ORANGE‘, o seu primeiro álbum de estúdio depois da mixtape ‘Nostalgia, Ultra‘, foi aplaudida e elevou o nome de Ocean ao reconhecimento público. A realidade é que o músico já era antes disso colaborador frequente de Beyoncé, Kanye West e Jay Z, mas o sucesso da sua figura de anti-herói foi-lhe totalmente inesperado. Cedo percebemos que Frank não queria ser um representante nem da raça negra nem da população gay. Provavelmente jamais o conseguiria ser. Quase patologicamente reservado e com clara postura anti-celebridade, Ocean fez o oposto do que seria esperar para uma estrela em ascensão: retirou-se durante 4 anos.

O seu tão desesperadamente aguardado regresso tornou-se numa quase lenda moderna. Adiamentos, rumores, mais adiamentos, mais e mais e mais rumores. Silêncio. Uma era turbulenta na violência da luta contra o racismo e homofobia. Silêncio. Até que de repente, num dos mais quentes Verões de que há memória, tudo começa a ganhar forma e num só fim-de-semana Frank Ocean lança um álbum visual, ‘Endless‘, e pouco depois o tão aguardado segundo álbum, ‘Blonde‘. E também um compêndio fotográfico em jeito de revista glossy, ‘Boys Don’t Cry‘ – o suposto título do disco até agora – que contem também poemas tanto de Frank ao seu namorado como de Kanye West ao McDonald’s.

Aqueles que esperavam um manifesto de alguém integrante de duas minorias tão recentemente vitimadas nos Estados Unidos da América, e depois de trabalhos tão tópicos dos seus pares Kanye West, Beyoncé e Kendrick Lamar, enganaram-se. Apesar de reconhecer as lutas – profere inclusivamente em ‘Nikes’ o nome de Trayvon Martin, vítima da violência racial na Flórida – Ocean tem uma postura completamente diferente de um chamamento às armas. As suas, também armas, são outras.

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‘Endless’

Confissões silenciosas, inebriadas e sinuosas são o que compõem o minimalismo eclético e onírico de ‘Blonde’ e do seu companheiro visual ‘Endless’, um filme de quarenta minutos, que revela em jeito voyeurista Ocean a construir uma escada de madeira em espiral num estúdio vazio para além da sua presença duplicada. A banda sonora é hipnotizante e funciona quase como uma mistura de pensamentos exteriorizados na sua voz sensual e desarmante com pedaços de música unidos de forma livre.

‘Blonde’ – ou ‘Blond‘ segundo algumas fontes, confusão que propositadamente causou para perturbar sinuosamente alguma normatividade do binarismo de género – é mais coeso e focado. Mas não menos misterioso e indecifrável. Pelo menos à primeira vista. Na realidade o ativismo de Frank Ocean encontra em ‘Blonde’ uma forma de existir na sua própria existência enquanto ser humano desesperadamente em busca de um lugar no Mundo. Sem a Ele ocultar quem é ele e a sua verdade. Canta bares gay, ténis Nike, família, marijuana, morte, Ferraris e amor. E solidão. Uma solidão de crise existencialista auto-reconhecida. Uma solidão sonolenta sem penitência nem culpa. Uma solidão oculta na contemplação doce de sonhos que se afastam e outros que se aproximam.

Frank Ocean não é nem o próximo Martin Luther King nem o próximo Harvey Milk como muitos queriam que ele fosse. Não que renegue alguma vez a sua posição e identidade, mas é claro que prefere continuar viver uma existência de indecisões e erros por ele cometidos do que enveredar pelo caminho que para ele trilharam. Frank Ocean só procura ser o salvador de si próprio. E aí, dessa forma inusitada e não premeditada, talvez passe a ser o de todos aqueles que por ele clamam. De uma forma ou outra estamos bem melhor com ele por perto.

‘Blond’ e ‘Endless’ estão em exclusivo streaming na Apple Music


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3 responses to “A Salvação Solitária de Frank Ocean”

  1. Muito bem; ainda não ouvi/vi mas fiquei com vontade. 🙂

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  2. […] da cantora não convenceram igualmente a Katonya Breaux, mãe de Frank Ocean – artista assumido – com quem Kim trabalhou, perguntando ironicamente se dava para cortar a voz da cantora no […]

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  3. […] do segmento pop português que são assumidamente gay. Lá fora temos o Sam Smith, Troye Sivan, Frank Ocean, Olly Alexander e tantos outros. E em Portugal? Quantos artistas da música portuguesa que sejam […]

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