Como Se Constrói Uma Identidade Sonora? Discussão Sobre O Vídeo Musical My Agenda, Dorian Electra

Ter uma agenda, no sentido de uma lista de objetivos e razões secretas, é esconder algo que se pretende fazer sem que outros saibam. Dorian Electra, no vídeo MY AGENDA, parece misturar segredos, contradições e referências às culturas digitais com uma pitada de historicismo. A obra foi realizada por Electra, Mike Diva & Weston Allen e é o título do mais recente álbum. Parece-me, mas dir-me-ão, que no gesto de propaganda ao líquido que transforma pessoas em sapos queer, a agenda enche-se de metáforas tão líquidas e ondulantes como o próprio conteúdo. Iria até mais longe, e questionaria se, caso fosse feito por pessoas heteronormativas, isto não seria profundamente insultuoso para a comunidade LGBTI+. Enfim, vamos ao conteúdo, à música, imagens e ao que esta agenda esconde e revela sobre uma atuação rica em arco-íris, felpudos e sapos saltitantes.  

O vídeo encontra-se no género hyperpop, negoceia uma estética do exagero, o ecletismo e a autorreferência à música popular. Dito por outras palavras, é uma hipérbole de várias características definidoras da pop através de uma combinação por vezes pouco harmoniosa. Na internet, terreno em que se manifesta, é associado a artistas queer como Sophie e que se propõem a exprimir sensibilidades pertencentes à comunidade. Continuamos a detetar uma estrutura de verso e refrão precisamente porque a música é pop, no entanto as intervenções da guitarra elétrica, do grito e do ruído, distorcem a música. Parece-me que há um perigo constante quando se ligam problemáticas sensíveis como a agenda queer a elementos tão disruptivos e próximos do metal porque é um estilo percecionado como agressivo. O contrário é igualmente possível, pois o fator irónico desta música e da atitude de Electra fazem com que as exclamações adquiram a forma do protesto.

A agenda política de Dorian, no manifesto que coloca à disposição do ouvinte, inicia-se com o som do lápis a escrever no papel. No gesto jocoso, uma música e vídeo criados e projetados apenas na internet, como aliás é habitual no hyperpop, adquirem uma certa materialidade – e sabemos que, para pertencer à realidade, é necessário ter corpo, caso contrário é apenas ilusório. A zombaria agudiza-se pela presença dos guarda-costas e bailarinos do vídeo, porque os fatos escuros e óculos negros direcionam-se para o universo dos filmes de ficção científica Matrix. Não é por acaso que, por baixo dos seus casacos, ocultam os seus “Raibow suspenders”, como canta, porque a aparência revela apenas parte da verdade. Outra componente que aumenta os jogos entre o real e virtual, e a colagem de diferentes referências que também caracteriza Electra, são as influências da animação japonesa. A brigada LGBTI que segue pelas ruas, os seus membros vestidos de animais e com pistolas de água, parece saída de um cenário infantilizado. Não obstante, quero deixar dois comentários sobre estas imagens. O primeiro, é que a animalização de seres humanos, ainda que agradável em cenários de entretenimento e inofensivo para certas pessoas, é o reflexo de uma visão primitiva e de desumanização que tem impactos negativos na comunidade LGBTI. O segundo, é que dar-lhes pistolas de água faz sentido para o tema da água que contamina, só que é um ato infantilizador…

Regressemos à agenda, “my agenda”, reforçada pela repetição da primeira palavra, e que tem contornos interessantes. Destaco os segmentos das letra “You can’t escape”, “Might offend ya”, “Will infect ya” e “We mind control you”, porque são muito problemáticos. Ofender e ser incapaz de fugir, aliados à infeção (que é impossível não ligar ao VIH) e a terapias eventualmente hipnóticas e de conversão, são exclamações que chocam quando vindas de uma pessoa queer. É puramente irónico e um jogo de palavras, uma identificação com o opressor, uma apropriação da sua visão do mundo, ou um motivo para que opiniões como estas continuem a ser perpetuadas? Nas teorias da voz no cinema, diz-se que se esta perder a inteligibilidade parte do seu poder evapora-se, porque a hegemonia só se mantém se entendermos o que nos comunica. Afinal de contas, para que uma ordem seja concretizada é necessário que seja ouvida, o que raramente acontece, pois a manipulação tímbrica e a fraca articulação das sílabas torna-a muitas vezes impercetível. Talvez, neste procedimento, Electra nos queira sugerir que nem sempre o que é enunciado, quer seja cantado ou declamado, é para ser levado em conta (o que, por si só, também acarreta outros problemas…).

Na passagem durante o avião, os que bebem da água contaminada sofrem um processo penoso de gritos e dores descontroladas que acompanham o momento mais ruidoso da música. O vídeo muda para Electra, caindo dos céus, em cima de um míssil com as palavras “Love Wins. Pride through strenght.” Militarizar a comunidade é um ato político, é fruto de uma necessidade de apelar à revolução para que as sociedades mudem e permitam que todas as pessoas tenham o seu lugar nelas. Contudo, o que significa explodir com uma cidade e transformar pessoas em sapos? Uma possibilidade é a história d’ “O Príncipe Sapo” que conhecemos desde pequenos e do beijo da princesa que faz reverter o feitiço e torná-lo humano (há quem diga que na história original ela atira-o contra a parede, enjoada com a sua aparência, o que é uma versão muito melhor!). Isto faz-me pensar, será que é um comentário ao estereótipo de que dar um beijo em outra pessoa com a mesma identidade de género, ou até experimentar fazer sexo, transforma/contamina e converte-as em gays?

O vídeo termina com a referência à cultura dos memes. Estes conteúdos curtos e virais, na maioria em imagem, espalham uma ideia através de plataformas sociais digitais (todos reconhecem a infinidade de “cat memes” que inundam a internet!). O sapo gigante que dança, numa figura animalesca tipo Godzilla, sofre até interferências na imagem e outras colagens para nos recordar que isto não é um vídeo musical, é conteúdo digital viral. Durante o meme audiovisual, a música desenvolve-se com eletrónica, uma voz que bloqueia, repete-se, pausa, tal qual estética do glitch. Tudo é enfatizado pelas transições da imagem, de caráter dinâmico e hipnótico, recordando-nos que estamos a ser infetados pela agenda gay (será?). Os erros propositados são usados neste contexto como elementos estéticos, e posso transpor para as identidades queer, que são para muitos um desvio, uma falha na matriz que ‘controla’ e ‘harmoniza’ as sociedades.

Como último ponto, quero chamar a atenção para a coreografia e roupa de Electra nos momentos antes da brigada de saparia. Se ao longo do vídeo as associações entre o campo militar e a jornada e agenda queer vão sendo sublinhadas e mencionadas, é flagrante que agora entrámos no plano da música enquanto propaganda política. Os bailarinos e Electra parecem nazis (não fui o único a interpretar isto, nos comentários de Youtube encontrei opiniões semelhantes) e, sendo isto hyperpop, cheio de referências, apropriações e usurpações musicais e visuais, devo tomar o gesto como crítico? Mas então se isto é “my agenda”, Dorian Electra não corre o risco de fazer confluir entretenimento e realidade, biografia e persona, dado que quem vê e ouve pode não querer (ou conseguir) delimitar as diferenças? Talvez seja melhor deixar de lado os nossos inimigos ou então ser mais contundente nos nossos comentários críticos, porque cantar “Plotting to take over/and destroy you all”, e colocar a bandeira LGBTI+ no mesmo plano de figuras potencialmente fascistas, são combinações um pouco agridoces.

Por André Malhado

Socio-musicólogo, músico e acafã de ciberpunk.

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