O nosso corpo

O meu corpo - Pedro Carreira
Pormenor via Instagram.

Celebrar os nossos corpos pode ser uma forma de afirmação, de orgulho e de superação de uma fragilidade, seja ela intrínseca ou imposta. Contra a vergonha e o bullying os nossos corpos são assim também uma ferramenta de emancipação e de ativismo, porque aquilo que fazemos com eles a nós diz respeito e não são raros os julgamentos morais pela forma como são ou os usamos. A liberdade está-nos também nos corpos. E é mais óbvia quando esta sofre um viés em contextos feministas e falamos de corpos trans.

Tendo isto presente e sendo eu um homem cisgénero, não deixa de ser um desafio lidar com o meu próprio corpo. Passo a explicar.

Desde criança que pratico desporto, correr e exercitar-me tem sido ao longo dos anos um refúgio tanto físico como mental. Não poucas vezes na vida é esse o meu escape, é aquele momento que me deixa à tona, é a minha salvação. Não sendo o objetivo em si, mas antes uma consequência de toda esta atividade que mantenho desde miúdo, fisicamente encaixo-me dentro de determinados padrões vistos socialmente como aceitáveis. E, no entanto, esse encaixe automático é também escapar a todo um outro contexto. Continuo a explicar.

Estive na Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa onde encontrei e reencontrei dezenas, centenas de pessoas. E, não sendo uma novidade, os meus atributos físicos voltaram a ser o foco de várias conversas, algumas delas o único foco. Sempre tudo dito num tom elogioso, por vezes com humor até, mas em detrimento de todo o resto. Todo o resto de mim. E, ironias das ironias, apesar de algum cansaço e embaraço destas conversas, reagi sempre positivamente ao jogo, à brincadeira. Cheguei inclusive a fomentar a conversa tocando-me e alimentando assim ainda mais o jogo, sabendo eu o quão desconfortável e cansado me estava a sentir. Pressão social? Pressão de grupo? Ao fim destes anos ainda não consegui arranjar forma de lidar com a conversa, especialmente com pessoas com quem não estou tão à vontade. E ainda menos com alguns toques que estas me dão no meio da galhofa generalizada. Porque a sua intenção pode ser boa (afinal é só um elogio). Porque pode ser apenas uma piada (onde toda a gente se ri, eu incluído). Porque às vezes sou eu quem vai mais além na piada (mecanismo de defesa?). Pois bem, vou agora, sem meias palavras, explicar.

Corpos que nos pertencem?

Um dos maiores mecanismos de defesa que tenho tido ao longo da vida é ganhar controlo sobre o corpo. Durante anos escapou-me a ideia de posse sobre o mesmo. Estes braços, estas pernas, eram, de certa forma, estranhos para mim. Mas sempre que treinava, sempre que corria, comecei a ganhar aos poucos a confiança nos mesmos. Comecei a acreditar, ao longo de largos anos, que me pertenciam. Que, efetivamente, me pertenciam.

Aos oito anos fui abusado sexualmente. Como se continua uma frase destas? Cada dia terei uma resposta diferente, mas hoje importa explicar por que senti durante tanto tempo que este corpo não era completamente meu. Houve um dia que alguém fez dele seu. E são décadas a tentar recuperá-lo de volta. Aquilo que um dia me foi roubado, me foi violentado e me foi infligido. De quem era afinal aquele corpo?

Este é ainda hoje um processo longe de terminado. Todos os dias me olho e procuro encontrar-me, mas nem sempre me reconheço. Há dias em que não me possuo. São os dias em que o risco de regressar a uma espiral autodestrutiva é maior. Felizmente, com o acompanhamento certo, esse é um ponto que pretendo e luto por não voltar a viver. Quando acontecem as situações acima referidas – os comentários, o toque, o passar a mão – tudo me remete para uma perda de controlo sobre quem sou. E ainda que possam ser momentos aparentemente descontraídos e humorados, há que ganhar consciência que há toda uma multiplicidade de factores que podem colocar uma pessoa num perfil desconfortável, de ameaça ou de violência. Mesmo quando esta não dá sinais claros de desgosto, ou até sinais contraditórios por pressão social ou de grupo. Há que saber medir o verdadeiro grau de proximidade, intimidade e o contexto para sabermos, explicitamente, quais as linhas que não devemos ultrapassar com outra pessoa. A presunção não basta.

Por isso, termino deixando bem claro que quando me comentam, tocam ou apalpam sem convite: Este corpo não é nosso. É meu.


Nota: Para apoio a homens e rapazes vítimas de abuso sexual, contactar a Associação Quebrar O Silêncio; ou a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.

Por Pedro Carreira

Ativista pelos Direitos Humanos na ILGA Portugal e na esQrever. Opinião expressa a título individual. Instagram/Twitter/TikTok: @pedrojdoc

1 comentário

  1. Entendo seu relato, mas há também aquela máxima que se entre amigos houver transa, a amizade poderá ser abalada. Pois bem, sempre transei com quem conhecia e por iniciativa dele. Tem homem mais viril que nem sempre tem aquela “necessária” paciência de penetrar “mais” devagar e, tive felizmente, poucos, mais tive amigo ou colega mais intimo, mais “caliente” e por ser cisgenero mesmo que consentisse a penetracao dele, mas me vinha a memória fetal de termos sido desejados (eu e meus irmãos) do gênero feminino, como se na minha psique aquela penetracao estivesse atrelada ao machismo que homens passivos vivenciam, porém, até hoje, cinquentão, ouço que meu bumbum discreto, mexe com imaginário masculino e recebo carinho em minhas pernas mesmo peludas! Por isso, independentemente da atração o corpo sempre terá atenção para “receber” carinho ou penetracao de quem o admirar!

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