
Nos últimos anos, a palavra “woke” tem sido amplamente usada em debates sobre justiça social e, mais recentemente, tornada uma ferramenta de ataque pela direita conservadora e radical. Mas como é que uma palavra que nasceu nos movimentos de direitos civis passou a ser utilizada para atacar as mesmas causas que procurava proteger? Este é um percurso que revela mais sobre as tensões sociais e políticas do que parece à primeira vista.
Em Portugal, por exemplo, a Ministra da Juventude e Modernização, Margarida Balseiro Lopes foi acusada pela deputada do Chega, Rita Matias, de ser o “cavalo de Troia para a agenda ‘woke’ deste Governo“ quando a primeira admitiu haver discriminação contra pessoas LGBTI+.
Mas esta não deixa de ser uma importação da direita conservadora e radical dos Estados Unidos da América.
A origem do termo “woke”: Uma chamada à consciência
Originalmente, “woke” surgiu no inglês afro-americano e designava o ato de “estar acordada ou desperta” para a realidade das opressões sociais e raciais. A palavra começou a ganhar protagonismo nos movimentos dos direitos civis dos EUA como símbolo de consciência e alerta para as injustiças sistémicas enfrentadas pela comunidade negra. Mais tarde, com o crescimento de movimentos como o Black Lives Matter, a expressão tornou-se universal e associada à empatia e ao ativismo contra qualquer tipo de opressão.
De consciência social a alvo conservador
Com o tempo, “woke” passou a abranger um leque mais amplo de lutas por igualdade e inclusão, englobando causas LGBTQ+, feminismo e justiça climática, entre outras. Porém, o que era inicialmente um símbolo de progresso social rapidamente se transformou num alvo de retórica conservadora. Para a direita mais radical, “woke” tornou-se sinónimo de “excesso de correção política” e “cultura de cancelamento”, servindo para atacar uma alegada “ameaça” à liberdade de expressão e aos “valores tradicionais”.
Mas, ironicamente, woke é uma palavra “inutilizável” — embora seja usada constantemente — porque, na realidade, “não significa nada”, explicou o linguista e lexicologista Tony Thorne. Ou seja, significa nada e significa tudo o que queiramos que signifique e é essa a estratégia da extrema-direita.
Este discurso conservador foi, então, meticulosamente construído para deslegitimar causas sociais importantes. Qualquer movimento que procure desafiar o status quo pode ser acusado de promover uma “agenda woke”. Esta narrativa não só procura assustar como também desviar o foco do verdadeiro objetivo dos movimentos progressistas: a luta pela igualdade e o respeito pelos direitos humanos.
A comunidade LGBTQ+ como alvo preferencial do discurso anti-“woke”
Na última década, movimentos conservadores intensificaram o uso da palavra “woke” para desacreditar a luta pelos direitos LGBTQ+. Ao associar estas causas ao termo “woke”, o discurso conservador tenta reescrever as lutas pela igualdade como imposições extremistas, rotulando-as de “agenda woke” ou “propaganda ideológica” ou ainda “ideologia de género”. Este discurso cria uma imagem de que a comunidade LGBTQ+ representa uma ameaça aos “valores tradicionais”, desconsiderando as necessidades e direitos fundamentais das pessoas.
Na prática, esta retórica resulta em ações legislativas que visam limitar direitos e liberdades para pessoas LGBTQ+. Nos EUA, por exemplo, vários estados introduziram leis que proíbem conteúdos “woke” nas escolas, muitas vezes impedindo discussões sobre identidade de género e orientação sexual através da acusação de uma pseudo-ideologia de género. Também na Europa, partidos e movimentos conservadores utilizam o termo para criticar políticas de inclusão, sugerindo que são excessivas ou desnecessárias.
A retórica “anti-woke” também tem como alvo eventos e espaços públicos destinados à visibilidade e celebração da diversidade. Marchas do Orgulho LGBTQ+, iniciativas culturais e programas educativos são frequentemente acusados de “propagar a agenda woke”, o que mina a legitimidade e importância destas ações para a comunidade.
Este uso estratégico da palavra “woke” serve, portanto, como um método para dividir a sociedade. Ao retratar os direitos LGBTQ+ como “ideologia” e associá-los a “excessos woke”, este discurso visa criar um clima de desconfiança e resistência às mudanças inclusivas. Woke deixou de ser um movimento anti-sistema e é, cada vez mais, reflexo do antigo e conservador status quo. Em última análise, a narrativa conservadora pretende enfraquecer a luta por direitos igualitários e desacreditar a comunidade LGBTQ+, ao rotulá-la de “ameaça ao estilo de vida tradicional”.
Qual o real motivo para distorcer uma palavra que, originalmente, representava empatia e consciência social?
É importante questionar o propósito desta narrativa conservadora: qual o real motivo para distorcer uma palavra que, originalmente, representava empatia e consciência social? Esta distorção procura retratar ativistas e pessoas defensoras de direitos fundamentais como extremistas, numa estratégia que visa silenciar discussões sobre temas que afetam a sua vida e a da restante sociedade. Ao usar o termos esvaziado de conteúdo “woke” como um insulto, a direita radical cria uma cortina de fumo, disfarçando a sua própria resistência a mudanças sociais inclusivas.
A palavra “woke” perdeu, em grande parte, o seu sentido original, mas isso não significa que as lutas que simbolizava tenham perdido o seu valor. Pelo contrário, a apropriação deste termo demonstra o quanto ainda é necessário lutar pela igualdade e inclusão. Recuperar o verdadeiro significado de “woke” significa, acima de tudo, defender uma sociedade mais justa e empática, onde cada pessoa possa, sem receios, viver a sua verdade com toda a dignidade e segurança. E expressar-se, manifestar-se e celebrar-se de olhos bem abertos.

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