Lost Boys & Fairies: Uma série queer sobre adoção, trauma e redenção

Lost Boys & Fairies: Uma série queer sobre adoção, trauma e redenção
Gabriel e Andy são os protagonistas da série-sensação Lost Boys & Fairies.

A estreia de Lost Boys & Fairies promete emocionar e provocar reflexão. Baseada na experiência pessoal do criador Daf James, a série britânica de três episódios aborda o percurso de um casal gay no processo de adoção, tocando em temas complexos como trauma, identidade e aceitação.

Daf James inspirou-se na sua própria vivência para criar Lost Boys & Fairies. O autor e dramaturgo, que adotou com o seu marido há oito anos, descreve o impacto transformador do processo de adoção. “Como pessoas queer, muitas vezes parece que temos que nos esforçar ainda mais para sermos perfeitas. É parte da maneira como nos apresentamos e da própria vergonha gay e de como a homofobia internalizada se manifesta de tantas maneiras diferentes”, disse.

Na série, Gabriel, interpretado por Siôn Daniel Young, é um performer queer no clube Neverland, e Andy, por Fra Fee, é o seu parceiro de longa data. Juntos, enfrentam não só os desafios da adoção, mas também os fantasmas do passado de Gabriel, desde uma infância marcada pela homofobia até ao abuso de substâncias em contextos de chemsex. Esta é uma série próxima do estilo feel-good, mas que não foge dos temas mais complexos. Não há aqui personagens perfeitas, mas também – e apesar de nos surgir o diabo inúmeras vezes – não há ninguém verdadeiramente diabolizada.

Lost Boys & Fairies é feel-good e muito feel-real

A série destaca-se pela honestidade emocional e pela coragem ao abordar questões complexas e, por vezes, dolorosas. Lost Boys & Fairies vai, sem medos ou hesitações, além de uma simples dramédia sobre adoção. A série explora assim nuances e experiências tanto universais como particulares para pessoas queer.

Por exemplo, para muitos jovens rapazes queer que cresceram na década de 1990, o fenómeno das boy bands como os Take That foi um momento de identificação e de encontro. A série reflete essa descoberta de identidade que muitas vezes era escondida, levando à negação da orientação sexual perante a família ou pessoas amigas. Também não é raro sabermos de histórias em foi usada a oração para “fugir” de si mesmas. Esses momentos são entrelaçados com a dor do bullying escolar, que molda a relação de Gabriel com o mundo à sua volta.

A narrativa explora também o uso de chems — drogas consumidas em contextos sexuais — e como este comportamento, para algumas pessoas queer, nasce de uma sensação de desvalor. Crescemos a ouvir que somos um erro abominável e entranha-se a ideia de que não merecemos ser amados. A série encara essa realidade de frente, mostrando como situações de risco, como a violação, são uma expressão de dor e autossabotagem, um reflexo da internalização de vergonha e trauma.

Também o luto surge nesta série, tanto pela perda de entes queridos como pela rejeição da família biológica. Ao abordar a morte da mãe de Gabriel e a distância emocional do pai, a série faz uma ponte com a pandemia do VIH/SIDA, onde as famílias escolhidas foram, muitas vezes, o único apoio real para as vítimas.

A adoção por casais do mesmo género é uma mais-valia para as famílias

A série mostra que, como pais queer, a pressão de “ser perfeito” é ilusória, e que criar espaço para erros e reparações é essencial, tanto para as pessoas adultas como para as crianças. Esta abordagem compassiva estende-se também às figuras de assistência social, muitas vezes estereotipadas como vilãs, mas aqui retratadas com nuance e empatia.

Pontuada por números musicais vibrantes e realismo mágico, a série equilibra dor e alegria. Mais do que uma história sobre adoção, Lost Boys & Fairies é uma celebração de resiliência queer e da capacidade de transformação. 

É muito importante que admitamos as nossas vulnerabilidades, porque é aí que a nossa humanidade está”, remata James. E esta série está repleta de lugares que humanizam as vivências queer e é assim imperdível.

Lost Boys & Fairies está disponível na Filmin



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Uma resposta a “Lost Boys & Fairies: Uma série queer sobre adoção, trauma e redenção”

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